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Abril / Junho
2007

Destaque
Expectativas não tão grandes
Emma Cranidge

Trabalho como consultora comunitária na área de engajamento social e atuo com desenvolvimento comunitário em zonas urbanas inglesas carentes. Sou uma apaixonada pelo direito de as pessoas se expressarem sobre as decisões que as afetam. Para mim, esse é um direito inato, mas que pode ser destruído pela desigualdade, discriminação e por uma cultura de “fazer para” as pequenas comunidades em vez de trabalhar nelas com e pelas pessoas. É crucial promover e praticar técnicas de engajamento comunitário de qualidade, como o diálogo, que possibilitem que a voz das pessoas seja ouvida.

Práticas que nem sempre foram usadas dessa forma. Há cerca de 15 anos, eu era assistente social em uma antiga fábrica de tecidos de algodão em North West England. Certa ocasião, quando as autoridades locais pintavam seus depósitos, não permitiram sequer que os arrendatários opinassem sobre a cor de suas portas. Não se engajar com as comunidades era uma norma cultural.

Desde então, o enfoque político mudou muito. Recentemente, por exemplo, trabalhei com autoridades locais no desenvolvimento de políticas e métodos para envolver as comunidades mais intimamente nas decisões sobre planejamento.

"Lembro-me de uma mulher em pé perguntando se os planos poderiam incluir o reparo da cerca de seu jardim."

Onde moro, em Calderdale, as pes-soas se preocupam em olhar os aspectos fortes e fracos, as oportunidades e as ameaças à cidade com relação a cinco temas — crime, habitação, saúde, economia e educação — como ponto de partida para um plano de ação mais detalhado. Essas atividades nos aproximam do processo de tomada de decisões e dão mais peso às nossas vozes nas discussões.

Contudo, geralmente descubro que falta um terreno comum no início do processo. Pessoas que autorizam programas de engajamento comunitário e de diálogo são cautelosas em não “criar expectativas”, no caso de não poderem efetivá-las. Essas preocupações são legítimas e razoáveis. Em resposta, nos asseguramos que os processos têm claros objetivos comuns e limites. Entretanto, algo que realmente me preocupa é que de modo geral as expectativas dos indivíduos dentro de suas comunidades são, se tanto, muito baixas. Podem viver com educação, saúde, habitação e locais de serviços precários. São experiências de vida que podem produzir expectativas de serviço tragicamente pobres quanto à habilidade de dialogar ou quanto ao engajamento que produza mudanças.

Lembro-me do início de um programa de redesenvolvimento em larga escala na área da habitação. Reuniões amplas e sem planejamento prévio eram utilizadas pelos moradores locais para transmitir suas idéias. Não havia uma com-preensão real do quão ameaçador esse sistema poderia parecer para as pessoas locais. Lembro-me de uma mulher em pé perguntando se os planos poderiam incluir o reparo da cerca de seu jardim. Ela explicou que aguardava havia um bom tempo o reparo. Contou-nos claramente quais as conseqüências que o dano na cerca havia causado para a sua qualidade de vida e senso de segurança. Era uma questão pequena aos olhos das autoridades presentes, fora de contexto, exceto quando usada para ilustrar como as pessoas locais não compreendiam os grandes programas de desenvolvimento. Ainda assim, essa pequena expectativa poderia ser um ponto de partida crucial.

Uma má compreensão do ponto de vista do outro no início pode impedir todo o processo de engajamento.

Sinto que a chave para o sucesso do diálogo, embora seja um processo coletivo, é cada indivíduo dialogar de mente aberta, com abertura para mudar e ser mudado, ao mesmo tempo que partilha habilidades e conhecimentos e respeita as habilidades e conhecimentos dos outros.

Fico inspirada em ver como um novo ambiente político encoraja as pessoas a trabalhar juntas para desenvolver soluções criativas em verdadeiras parcerias. Dessa forma, podemos nos afastar de uma vontade imposta e começar a trabalhar em direção a soluções imaginativas comuns, algo que o diálogo pode nos trazer.

Emma Cranidge trabalha para a CAG Consultants, uma consultoria de desenvolvimento sustentável. Esse artigo representa sua perspectiva pessoal.


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