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Dois mundos sob um único teto
Entrevista com Dugan Romano
SGI: Quais são as principais dificuldades que casais procedentes de culturas diferentes enfrentam?
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Romano: Talvez uma das maiores dificuldades envolva suposições conflituosas (questões não declaradas por serem consideradas como certas) em relação a aspectos seculares da vida cotidiana. Todos nós fomos educados com certas formas de ser e fazer que se tornam tão naturais e óbvias para nós como respirar. Estamos convencidos, de uma forma ou de outra, que o nosso jeito é o melhor ou o único. |
Quando as pessoas provêm da mesma cultura, já existem algumas diferenças com relação a assuntos básicos como planejar as refeições, o orçamento, a relação com os parentes, amigos etc.; em um relacionamento intercultural, essas diferenças são ampliadas.
Casais formados por pes-soas de culturas distintas possuem suposições com relação não apenas às atividades diárias, mas a formas de ser e fazer, isto é, o que isso significa para um marido ou esposa; qual a melhor forma de educar os filhos, expressar seu amor e afeto etc.
Eles precisam aprender a reexaminar suas suposições, repensar o que está por trás delas. Precisam julgá-las de acordo com seu valor intrínseco em vez de fazer isso meramente pelo seu agrado.
SGIQ: O que caracteriza um casal de sucesso?
Romano: Talvez o fator mais importante seja a habilidade de ambos estarem não apenas conscientes e sensíveis, mas também tolerantes às necessidades do outro. Casais de sucesso sabem como ler um ao outro. Eles têm empatia pelas necessidades do outro, mesmo que não as partilhem ou concordem com elas, e tentam ir ao encontro dessas necessidades, sem sugerir que não sejam importantes. Aprendem a aceitar que há certas coisas sobre seus parceiros que jamais compreenderão ou mesmo gostarão, mas que aceitam como parte da individualidade da pessoa que amam.
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"Casais de sucesso sabem como ler um
ao outro. Eles têm empatia pelas necessidades do outro, mesmo que não as partilhem ou concordem com elas..." |
Por outro lado, casais não tão bem-sucedidos geralmente acreditam que, para viverem juntos, precisam misturar suas culturas e se tornarem semelhantes. Em vez de aceitarem o modo de ser de seu companheiro, parecem estar cheios de “deveria”.
SGIQ: Quais são os desafios específicos para uma boa comunicação e diálogo em um casamento intercultural?
Romano: A comunicação, verbal ou não, é essencial entre os parceiros. É a forma como expressam quem e o quê são, e por meio da qual compreendem uns aos outros. Em casais de uma mesma cultura, a linguagem é geralmente a mesma e as expressões não-verbais normalmente caem em um certo padrão compreensível. Mesmo assim, ocorrem desentendimentos. Entre casais de culturas diferentes, há muito mais perigos. Não apenas a escolha das palavras, mas o tom de voz, os gestos e posições podem significar coisas diferentes para a pessoa que envia e para a que recebe a mensagem.
Intervalo
Casais interculturais necessitam constantemente sondar, investigar e rea-firmar o que compreenderam, para terem certeza. Isso não é algo fácil no calor de um argumento ou quando se está sob estresse. Então é importante dar um tempo e voltar a discutir mais tarde, quando a emoção já se aquietou.
Quando as pessoas se apaixonam pela primeira vez, geralmente são atraídas pelas diferenças exóticas uma da outra. À medida que o relacionamento se desenvolve, elas se acostumam com muitas das idiossincrasias culturais da outra e começam a assumir que, debaixo delas, eles são fundamentalmente o mesmo, e podem ser pegas desprevenidas quando ocorrem desentendimentos. A angústia do relacionamento pode se desenvolver na medida em que começam a culpar as pessoas, e não as diferenças culturais pelos problemas.
Os casais jamais devem parar de aprender sobre a cultura do outro. E podem fazer isso somente se perceberem que há diferenças que precisam trabalhar para compreender. Em vez de se sobrecarregarem com as necessidades e expectativas para uma integração que não podem realizar, eles necessitam entender e aceitar a riqueza da vida que segue junto e que se preocupa e respeita.
Dugan Romano é autora de Intercultural Marriage: Promises and Pitfalls (Casamento intercultural: promessas e armadilhas). Intercultural Press, 1997.
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