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Abril / Junho
2007

Destaque
Ouvir para compreender
Katarina Kruhonja

Um dos pilares da construção da paz é ouvir para com-preender.

Nossa organização, o Centro para a Paz, Não-Violência e Direitos Humanos, começou com poucas pessoas lutando contra a lógica da “guerra total” que estava se propagando entre as pessoas de nossa cidade sitiada e bombardeada na Croácia: parecia que não havia outro jeito exceto “somos nós ou eles”. Minha prioridade naqueles dias era permanecer aberta para prestar atenção ao meu próprio diálogo interno.

No fim de uma tarde em 1991, decidi não aceitar a violência. Ainda posso recordar vividamente meu sentimento de liberdade naquele momento. Comecei a buscar outras respostas e vim a conhecer Kruno Sukic, que também rejeitava a guerra. O grupo de paz que fundamos foi o resultado de nossas longas discussões realizadas em abrigos: discutíamos e deliberávamos sobre qual tipo de sociedade humana desejávamos e o que poderíamos fazer para torná-la possível.

Nosso grupo usava uma abordagem baseada no ouvir e estabelecida pelo Projeto Ouvir.


Crianças dos "três lados" criam um mosaico simbolizando a paz, no primeiro acampamento juvenil da paz, em Latinovac, Croácia, em 1997.
Nos preparativos para o retorno das pessoas às vilas das quais elas haviam fugido, e com o objetivo de evitar a vio-lência interétnica e reconstruir a confiança, nossas equipes de paz entrevistaram cerca de duas mil pessoas em aproximadamente dez comunidades multiétnicas destruídas pela guerra na Croácia ocidental e na Bósnia. Muitas das pessoas entrevistadas afirmaram posteriormente que, pela primeira vez, haviam sentido que alguém as ouvia, que seu sofrimento e opinião eram importantes. Também aprendemos muito sobre nós mesmos — sobre nossos temores e preconceitos, mas também sobre nossa capacidade de empatia com os outros e a capacidade de ver a verdade como as outras pessoas viam.

Dessa forma, iniciamos a comunicação entre aqueles que retornavam em três vilas vizinhas da Croácia, Bósnia e Sérvia que haviam sido completamente destruídas durante a guerra, facilitando os encontros e os diálogos entre eles. Os habitantes de todas essas três vilas concordaram que seus filhos passassem férias juntos. Após um ano, os habitantes trabalhavam unidos para reconstruir o campo de futebol em uma das vilas e o auditório comunitário em outra.

Barricadas

Embora o Acordo Dayton de 1995 estipulasse que parte da Croácia que estava antes sob o domínio da Sérvia havia vários anos fosse pacificamente reintegrada, e que fosse permitido aos sérvios permanecerem lá e aos croatas que retornassem à região, na realidade, era impensável que os inimigos vivessem lado a lado. Em uma vila, os sérvios ergueram barricadas para evitar que os croatas retornassem a seus lares.

Procuramos as autoridades da vila e sugerimos que se encontrassem com os moradores para ouvir suas idéias sobre uma solução pacífica. Entre as pessoas de nosso grupo havia algumas que eram refugiadas daquela vila em particular e que se juntaram a nós como pacifistas. Agora, essas autoridades estavam ouvindo os temores das famílias sérvias — o que aconteceria a elas quando os croatas retornassem à vila, e especialmente o que aconteceria com aquelas famílias que viviam em lares croatas. Estas também queriam retornar às suas vilas.

Os moradores concordaram em juntar esforços e restaurar um lar croata que servisse como um centro de paz para os moradores se reunirem e discutirem seus problemas. Os croatas que retornaram auxiliaram as famílias sérvias a visitarem as vilas na Eslovênia Oriental, de onde haviam fugido. Eles defendiam o direito das famílias sérvias de retornarem a suas vilas e ajudar as primeiras famílias sérvias a se mudarem.

Dragica Aleksa, que aprendeu sobre trabalho de paz com o Projeto Ouvir, atua hoje em grupos de paz multiétnicos na reconstrução de sua vila. Seu lema é: “É melhor acender uma pequena faísca do que amaldiçoar as trevas”. Ela diz que seu maior sucesso não é o que ela fez pela comunidade, mas o que ela mudou em si mesma.

A humildade e a humanidade de ouvir, com seu magnífico potencial para a construção da paz, são baseadas na atitude do ouvinte de que os emissores conhecem o que eles sentem e necessitam, e de que eles são capazes de expressar isso. Tal atitude demonstra respeito pelas necessidades das pessoas. Ouvir é um intercâmbio no qual eu concedo meu tempo e atenção total sem juízo de valor. Faço perguntas que não são importantes para mim, mas o são para as outras pessoas — questões que as ajudarão a expressar seus sentimentos reprimidos, reexplorar suas opiniões e buscar suas próprias soluções. Em vez de soluções, conselhos ou piedade, eu ofereço aceitação, confiança e apoio. Ouvir é uma jornada conjunta na qual uma pessoa aprende a melhor compreender sua própria situação; é uma forma de deixar uma parte da vergonha, medo e raiva irem embora; é focar no futuro e capacitar para a ação.

Meu amigo, o construtor da paz quaker Adam Curle, disse que nada poderia rivalizar a capacidade dos companheiros trabalhando juntos — encontrar-se e conversar em todos os contextos possíveis (inclusive na guerra) e persuadir cada grupo ou indivíduo até que ele possa desenvolver uma vontade irresistível que contenha, oponha-se e transforme as forças destrutivas dentro de nós e de nossas sociedades. E assim, pouco a pouco, esse processo reestruturará a sociedade.

Katarina Kruhonja é especialista em Medicina Nuclear e co-fundadora do Centro da Paz, Não-Violência e Direitos Humanos em Osijek, Croácia, estabelecido em 1992. Em 1998, ela recebeu o prêmio Right Livelihood (“Meio de Vida Correto”) pelos seus esforços para promover a paz, a democracia e os direitos humanos.


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