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Ouvir para compreender
Katarina Kruhonja
Um dos pilares da construção da paz é ouvir para com-preender.
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Nossa organização, o Centro para a Paz, Não-Violência e Direitos Humanos, começou com poucas pessoas lutando contra a lógica da “guerra total” que estava se propagando entre as pessoas de nossa cidade sitiada e bombardeada na Croácia: parecia que não havia outro jeito exceto “somos nós ou eles”. Minha prioridade naqueles dias era permanecer aberta para prestar atenção ao meu próprio diálogo interno. |
No fim de uma tarde em 1991, decidi não aceitar a violência. Ainda posso recordar vividamente meu sentimento de liberdade naquele momento. Comecei a buscar outras respostas e vim a conhecer Kruno Sukic, que também rejeitava a guerra. O grupo de paz que fundamos foi o resultado de nossas longas discussões realizadas em abrigos: discutíamos e deliberávamos sobre qual tipo de sociedade humana desejávamos e o que poderíamos fazer para torná-la possível.
Nosso grupo usava uma abordagem baseada no ouvir e estabelecida pelo Projeto Ouvir.

Crianças dos "três lados" criam um mosaico simbolizando a paz, no primeiro acampamento juvenil da paz, em Latinovac, Croácia, em 1997. |
Nos preparativos para o retorno das pessoas às vilas das quais elas haviam fugido, e com o objetivo de evitar a vio-lência interétnica e reconstruir a confiança, nossas equipes de paz entrevistaram cerca de duas mil pessoas em aproximadamente dez comunidades multiétnicas destruídas pela guerra na Croácia ocidental e na Bósnia. Muitas das pessoas entrevistadas afirmaram posteriormente que, pela primeira vez, haviam sentido que alguém as ouvia, que seu sofrimento e opinião eram importantes. Também aprendemos muito sobre nós mesmos — sobre nossos temores e preconceitos, mas também sobre nossa capacidade de empatia com os outros e a capacidade de ver a verdade como as outras pessoas viam. |
Dessa forma, iniciamos a comunicação entre aqueles que retornavam em três vilas vizinhas da Croácia, Bósnia e Sérvia que haviam sido completamente destruídas durante a guerra, facilitando os encontros e os diálogos entre eles. Os habitantes de todas essas três vilas concordaram que seus filhos passassem férias juntos. Após um ano, os habitantes trabalhavam unidos para reconstruir o campo de futebol em uma das vilas e o auditório comunitário em outra.
Barricadas
Embora o Acordo Dayton de 1995 estipulasse que parte da Croácia que estava antes sob o domínio da Sérvia havia vários anos fosse pacificamente reintegrada, e que fosse permitido aos sérvios permanecerem lá e aos croatas que retornassem à região, na realidade, era impensável que os inimigos vivessem lado a lado. Em uma vila, os sérvios ergueram barricadas para evitar que os croatas retornassem a seus lares.
Procuramos as autoridades da vila e sugerimos que se encontrassem com os moradores para ouvir suas idéias sobre uma solução pacífica. Entre as pessoas de nosso grupo havia algumas que eram refugiadas daquela vila em particular e que se juntaram a nós como pacifistas. Agora, essas autoridades estavam ouvindo os temores das famílias sérvias — o que aconteceria a elas quando os croatas retornassem à vila, e especialmente o que aconteceria com aquelas famílias que viviam em lares croatas. Estas também queriam retornar às suas vilas.
Os moradores concordaram em juntar esforços e restaurar um lar croata que servisse como um centro de paz para os moradores se reunirem e discutirem seus problemas. Os croatas que retornaram auxiliaram as famílias sérvias a visitarem as vilas na Eslovênia Oriental, de onde haviam fugido. Eles defendiam o direito das famílias sérvias de retornarem a suas vilas e ajudar as primeiras famílias sérvias a se mudarem.
Dragica Aleksa, que aprendeu sobre trabalho de paz com o Projeto Ouvir, atua hoje em grupos de paz multiétnicos na reconstrução de sua vila. Seu lema é: “É melhor acender uma pequena faísca do que amaldiçoar as trevas”. Ela diz que seu maior sucesso não é o que ela fez pela comunidade, mas o que ela mudou em si mesma.
A humildade e a humanidade de ouvir, com seu magnífico potencial para a construção da paz, são baseadas na atitude do ouvinte de que os emissores conhecem o que eles sentem e necessitam, e de que eles são capazes de expressar isso. Tal atitude demonstra respeito pelas necessidades das pessoas. Ouvir é um intercâmbio no qual eu concedo meu tempo e atenção total sem juízo de valor. Faço perguntas que não são importantes para mim, mas o são para as outras pessoas — questões que as ajudarão a expressar seus sentimentos reprimidos, reexplorar suas opiniões e buscar suas próprias soluções. Em vez de soluções, conselhos ou piedade, eu ofereço aceitação, confiança e apoio. Ouvir é uma jornada conjunta na qual uma pessoa aprende a melhor compreender sua própria situação; é uma forma de deixar uma parte da vergonha, medo e raiva irem embora; é focar no futuro e capacitar para a ação.
Meu amigo, o construtor da paz quaker Adam Curle, disse que nada poderia rivalizar a capacidade dos companheiros trabalhando juntos — encontrar-se e conversar em todos os contextos possíveis (inclusive na guerra) e persuadir cada grupo ou indivíduo até que ele possa desenvolver uma vontade irresistível que contenha, oponha-se e transforme as forças destrutivas dentro de nós e de nossas sociedades. E assim, pouco a pouco, esse processo reestruturará a sociedade.
Katarina Kruhonja é especialista em Medicina Nuclear e co-fundadora do Centro da Paz, Não-Violência e Direitos Humanos em Osijek, Croácia, estabelecido em 1992. Em 1998, ela recebeu o prêmio Right Livelihood (“Meio de Vida Correto”) pelos seus esforços para promover a paz, a democracia e os direitos humanos. |