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Talanoa — Falando com o coração
Entrevista com o Dr. Sitiveni Halapua
O Dr. Sitiveni Halapua é diretor do Programa de Desenvolvimento das Ilhas do Pacífico do Centro Oriente–Ocidente, no Havaí. Ele desempenha um importante papel ao desenvolver e promover o conceito de Talanoa, uma abordagem dialógica na Polinésia nativa — “contar histórias sem segredos”.
Pode nos dar um breve resumo do conceito de Talanoa?
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Com outras formas de diálogo, você decide uma agenda e a agenda em si restringe as questões e traça os limites dentro dos quais são conduzidos os encontros. Por exemplo, se temos uma reunião sobre a constituição, as pessoas iniciam com uma agenda. Mas, de repente, alguém começa a falar sobre outro assunto. Normalmente, em um encontro, dizemos: “Isso é irrelevante”. |
A agenda se torna uma forma de controle, quase predeterminando a forma como o encontro vai ser conduzido, e as consultas são direcionadas a fim de se chegar ao que já se preconcebeu. A Talanoa não tem uma agenda preconcebida. É extremamente aberta e você pode contar sua própria história. Antes do advento da civilização ocidental e da chegada de missionários, a Talanoa era como se criava a nossa história. Nada era escrito. Qualquer um podia contar sua história sobre o que considerava importante ou o que o fazia se sentir bem, feliz ou triste.
Mas o segredo na Talanoa é que ela deve ser muito facilitada. Seu resultado se baseia inteiramente no que a pessoa está conversando. Se alguém quiser falar sobre a constituição, pode falar. Se alguém quiser falar sobre política, também pode. Se alguém quiser falar sobre pesca, será permitido que fale sobre pesca. Pode-se falar acerca de qualquer coisa que se julgar importante.
Meu papel como facilitador é extrair os pontos essenciais e devolvê-los à pessoa. Se ela disser: “Lamento, não foi isso o que eu quis dizer”, então precisamos corrigir os pontos antes de registrá-los de verdade.
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Idosos de Tongan preparam a kava, uma bebida tradicional em todo o Pacífico e um importante elemento nos encontros sociais e religiosos (foto 1962). |
A razão pela qual acredito que a Talanoa não é utilizada é que ela não é fácil. É muito mais fácil administrar uma reunião, pois se elabora uma agenda para se chegar onde quer. Fico surpreso com o que fizemos com a Talanoa em Fiji, nas Ilhas Salomão e nas Ilhas Cook e com a reforma econômica nas localidades. Se você dá uma oportunidade às pessoas e elas sabem que você respeita as opiniões delas, vão lhe contar sua história. Isso é um fenômeno humano universal.
"Pensei em 'dar uma pesquisada'
em nossos
ancestrais, pois eles devem ter
feito alguma coisa certa... " |
Pode soar e parecer meio caótico, e às vezes pode ser mais demorado, mas é melhor gastar dois ou três dias do que tentar apressar uma reunião em uma ou duas horas e ninguém dizer nada. Em um momento, todos dizem que concordam, mais tarde, dizem que não. Embora seja mais demorado, isso permite que as pessoas falem. As reuniões restringem as pessoas de contar suas histórias, pois é preciso conversar em duas horas, e qualquer um que queira dizer algo mais não pode. Essa é uma forma de manipulação para se obter algo.
A Talanoa já existe há algum tempo, mas o senhor a estruturou e a usou de maneira bem eficaz. Como foi o começo?
Eu estava procurando por algo para reunir essa diversidade. Pensei em “dar uma pesquisada” em nossos ancestrais, pois eles devem ter feito alguma coisa certa, do contrário, não estaríamos aqui hoje. Então, achei que isso poderia estar relacionado à Talanoa, porque quando você senta e partilha suas histórias, alguém poderá falar sobre o crescimento da batata, outro falará sobre religião e Deus... Mas esse processo permite a diversidade, a forma como vivemos e nossa cultura. Comecei a trabalhar para desenvolver a Talanoa. Era preciso articulá-la, senão, pessoas não nascidas no Pacífico não entenderiam a filosofia por trás dela. Assim, estou escrevendo sobre a Talanoa, praticando-a e implementando-a — a teoria segue a aplicação prática.
A primeira vez que tentamos usar o conceito da Talanoa foi nas Ilhas Cook em 1996, quando o país estava economicamente na bancarrota. O Banco de Desenvolvimento da Ásia já havia preparado um modelo de desenvolvimento econômico, e o primeiro-ministro me perguntou se havia algo errado com o modelo. Não havia nada errado, mas como saberíamos se as pessoas das Ilhas Cook concordariam com ele? Sugeri então que fosse feita uma Talanoa com os principais acionistas e organizei um diálogo com vários grupos — mulheres, ambientalistas, religiosos, economistas... Eles se reuniram e desconstruíram o modelo e o reconstruíram. E foi o que as Ilhas Cook utilizaram para sua reforma em 1996–1997, e o usam ainda hoje.
Se você respeita e confia nas pessoas
com quem conversa, chegará a um resultado. |
Após isso, houve um golpe de Estado em Fiji no ano 2000. Eu fui para lá e usei a Talanoa. E hoje estamos trabalhando nas Ilhas Salomão e usando o mesmo modelo. É importante observar que a Talanoa não é uma solução, não é um resultado, mas um processo pelo qual as pessoas provavelmente alcançarão o que lhes é comum.
A Talanoa termina em consenso?
Consenso é um conceito ocidental, e geralmente alguém se retrai e não diz nada. E o líder do conselho diz: “Chegamos a um consenso”. A Talanoa não se preocupa com o consenso, o resultado não é predeterminado, e você tem sua fé e confiança e respeita as pessoas. Posteriormente se chegará a um resultado. Se você respeita e confia nas pessoas com quem conversa, chegará a um resultado. Para mim, em última análise, é se basear no respeito e na confiança. Isso é a Talanoa.
Essa entrevista foi extraída do Matangi Tonga Online, com a devida permissão.