Destaque Rumo a uma civilização dialógica Diálogo entre o presidente da SGI, Daisaku Ikeda, e o professor Tu Weiming
Um diálogo genuíno raramente ocorre, mesmo entre indivíduos que pensam de forma semelhante. Ainda assim, sem o diálogo, uma interação humana saudável é impossível e até uma comunidade pacífica se desintegra. Embora a plena realização de um relacionamento verdadeiramente dialógico pareça inatingível, o diálogo é a condição mínima para a coexistência entre indivíduos e grupos. Eu gostaria de sugerir que não o considerássemos como um meio para um fim, mas um fim em si mesmo. O diálogo não é meramente um instrumento para se alcançar nobres objetivos, como a paz e a prosperidade, mas um valor intrínseco para a autocompreensão humana. Certamente, em termos práticos, o diálogo é geralmente um instrumento para se resolver tensões, contradições e conflitos, mas em um sentido mais profundo, constitui um caminho de vida.
Em nossa experiência cotidiana, envolvemo-nos em diálogos mais do que em controvérsias, debates ou argumentos. Mesmo assim, precisamos aprofundar e ampliar nossa experiência dialógica para tornar nossa vida mais produtiva e criativa. O diálogo nos ajuda a sermos mais tolerantes, acessíveis, respeitosos, receptivos, abertos e benevolentes. Por meio do diálogo, aprendemos a arte de ouvir, conversar, comunicar e refletir. É uma espécie de exercício espiritual que praticamos todos os dias. Isso também é verdade com as sociedades, nações, regiões e a comunidade global. Aqueles que são poderosos, influentes e ricos devem reconhecer o valor do diálogo ao torná-los humildes, responsáveis e decentes.
O presidente da SGI e eu acreditamos profundamente que uma civilização dialógica está surgindo. Estamos comprometidos com a visão de que cultivar uma civilização dialógica saudável é o caminho correto rumo a uma cultura de paz para a aldeia global. Como sino-americano, acalento a esperança de que as relações sino-americanas continuem a ser baseadas no diálogo e na sabedoria do florescimento humano, em vez de um conceito egocêntrico de aliança estratégica. Como um sino-americano que é beneficiário da estética, ética e espiritualidade japonesa, acalento também a esperança de que os Estados Unidos, China e Japão estendam seus horizontes intelectuais para além da região Ásia-Pacífico e se engajem ativamente em um diálogo cada vez mais renovador com o resto do mundo em um empreendimento comum para tornar nosso planeta azul seguro, habitável e confortável, uma “terra pura” para todos os seres. — Tu Weiming
O professor Tu Weiming, especialista em história chinesa, filosofia e confucionismo, é diretor do Instituto Harvard-Yenching, na Universidade de Havard.
O texto a seguir foi condensado do diálogo entre o presidente da SGI, Daisaku Ikeda, e Tu Weiming, publicado em forma de série no jornal japonês Daisanbunmei em 2005 e 2006. A íntegra do diálogo será publicada em japonês em 2007 pela Editora Daisanbunmei.
Um choque de civilizações?
O professor Tu (esq.) e
Daisaku
Ikeda em Tóquio,
abril de 2005.
Tu: Eu retornei para Cambridge vindo do Havaí para reassumir trabalhos de ensino e pesquisa em Harvard, no outono de 1990. Em 1993, após meu colega do Departamento de Governo da Universidade de Harvard, Samuel Huntington, soar seu alarme sobre o choque de civilizações, o diálogo entre as civilizações assumiu um novo significado.
Ikeda: A teoria de Huntington do choque de civilizações teve repercussões em todo o mundo. Ele dividiu o mundo em oito civilizações restantes após o fim do conflito ideológico da Guerra Fria e profetizou que o choque entre elas controlaria a política global e que as diferenças entre elas se tornariam linhas fronteiriças para os futuros conflitos.
Tu: Sim. Eu não concordo com a descrição fenomenológica de Huntington do perigo do conflito de civilizações e tenho fortes discriminações com relação à dicotomia “o Ocidente e o resto” como aparato conceitual de sua análise, mas suas preocupações são reais e propícias. Eu propus, e Huntington concordou, que se houver um perigo iminente de um choque de civilizações, a promoção do diálogo entre as civilizações é uma tarefa urgente e imperativa para todos os cidadãos amantes da paz do mundo.
Ikeda: Sem entrar no conteúdo de sua teoria, podemos dizer que a quantia de interesse internacional instigada pelo conceito do conflito e choque de civilizações indica o quanto essas questões estão profundamente enraizadas.
Tu: A indescritível realidade que cobriu o globo explica por que as idéias de Huntington tiveram esse grande impacto. A designação de 2001 pela ONU como o Ano do Diálogo entre as Civilizações reconhece claramente o respeito pela diversidade cultural como uma precondição para a paz e a prosperidade no mundo. Isso também simboliza uma nova forma de pensar as relações de pessoa a pessoa, grupo a grupo, nação a nação, região a região e cultura a cultura.
Além da tolerância
Ikeda: A designação foi adotada unanimemente pela Assembléia Geral em 1998.
O relativismo cultural e a tolerância foram meios para se ir além das trágicas circunstâncias nas quais as civilizações competiam pela superioridade. Mas, todas as vezes que surgem conflitos, a tolerância passiva que apenas reconhece a existência de outros se mostra muito frágil para sobreviver. Em vez de apenas tolerar, devemos valorizar a existência dos outros e considerar as diferenças como fonte de valor. Devemos combinar essa atitude com formas de vida que enriqueçam nossa humanidade.
"... o diálogo jamais deve estar limitado a tentativas
de mudar o modo de pensar do outro ou impor
unilateralmente as próprias visões "
Tu: Exatamente. Embora eu concorde plenamente com a necessidade e a conveniência de se superar as obsessões com as diferenças, sugiro que nos movamos deliberada e cuidadosamente rumo ao objetivo comum da felicidade social e da paz sem minar as diferenças prematuramente. O perigo do universalismo abstrato, assim como o da particularidade restrita, é sua incompreensão da necessidade humana de experimentar tanto a solidez quanto a sociabilidade transformadora.
Ikeda: Compreendo. A visão de mundo budista fornece solo fértil para a diversidade radiante. Por exemplo, o budismo ensina que, sem transformar sua natureza, a cerejeira, o damasco, o pêssego e a ameixa florescem de maneira própria. Nenhum deles pode ou deve ser como os outros. É suficiente para cada um irradiar sua própria individua-lidade esplêndida. Por meio dessa analogia, o budismo ensina a maneira correta de viver.
O budismo valoriza a manifestação e revelação espontânea de cada verdadeira natureza individual em sua forma mais elevada. Jardins belos e fragrantes são possíveis somente porque, florescendo em sua própria forma individual, cada planta contribui para tecer a harmonia completa.
Tu: Uma metáfora lúcida. Isso me faz lembrar uma imagem similar — todas as correntezas contribuem para enriquecer a correnteza do lago. As origens diversas das correntezas possibilitam que o lago permaneça fresco, com águas vívidas nutrindo-o continuamente.
Mudando um pouco o assunto, eu me tornei interessado em comunicação intercultural na faculdade, quando formandos de Oberlin, Princeton e Yale foram a Tunghai para atuarem como instrutores do idioma inglês. Minha interação quase diária com eles me fez perceber que a genuína compreensão cultural entre culturas diversas requer uma arte do ouvir que pode levar anos para se cultivar.
Ikeda: Ouvir outros diz respeito a estimar e respeitar outros e é o primeiro passo para um verdadeiro diálogo. Mais do que um ato passivo, isso requer expor-se ao mundo que o interlocutor criou, descobriu e experimentou. O diá-logo está fadado a falhar, a menos que envolva um ouvir ativo.
Tu: Nas relações pessoa a pessoa e nação a nação é importante ouvir os pontos de vista dos outros envolvidos. O antropólogo Clifford Geertz faz a interessante observação de que o encontro face a face com uma pessoa de visões radicais é uma experiência libertadora. Em vez de considerar os representantes de opiniões que não partilhamos como inimigos, deveríamos compreen-dê-los como pessoas valiosas para nos expandir e nos tornar mais compreendidos. Em certo sentido, o outro é um espelho do eu.
Liberação
Ikeda: Ver a nós mesmos sempre sob as mesmas luzes nos conduz à armadilha do egocentrismo. O contato com todos os tipos de pessoa nos possibilita nos reexaminarmos sob novas perspectivas. O diálogo é espiritualmente criativo, pois ele revela seus participantes de maneiras inéditas. Ele mostra, de forma mais rica, revigorante e ampla, caminhos a seguir e formas de vida.
Tu: Precisamente. É importante considerar as diferenças como valores positivos, não negativos. Por isso, o diálogo jamais deve estar limitado a tentativas de mudar o modo de pensar do outro ou impor unilateralmente as próprias visões. Em vez disso, no diálogo devemos ouvir e nos expandir e intensificar nossa autoconsciência e autocrítica.
A ponte sobre o Bósforo em Istambul é um símbolo do encontro entre o Ocidente e o Oriente, etnre os mundos islâmicos e cristãos.
Ikeda: Com base em valores comuns, até que ponto podemos expandir o verdadeiro diálogo para que se torne um solo comum para toda a humanidade? Como podemos usar o poder do diálogo para tornar o mundo mais próximo e elevar a humanidade a um novo patamar? No atual mundo altamente complexo de ódios sobrepostos, interesses e conflitos contraditórios, mesmo tentativas nesse sentido podem parecer idealismo tortuoso. Mas, não importando o quanto os tempos sejam difíceis, devemos manter nossos olhos nas tendências da era e continuar a investigar possibilidades de reformas. Tenho certeza de que expandir a civilização do diálogo no mundo do século XXI é aceitar o saudável e magnífico desafio de se alcançar a paz mundial.
Tu: Isso certamente exige determinação e convicção. Depois de me tornar diretor do Instituto Harvard-Yenching em 1996, fui designado para criar uma infra-estrutura para capacitar a área de Humanidades no Leste da Ásia e especificamente na China. Nossa estratégia era possibilitar gerações de líderes em potencial em áreas de Humanidades para liderar universidades do Leste Asiático e se engajar em diálogos entre eles e com pesquisadores americanos, passando um ano de tempo livre para explorar o que julgassem mais significativo. Uma das tarefas mais desafiadoras era facilitar o intercâmbio cultural sino-americano de forma mutuamente benéfica. O senhor deve concordar que o relacionamento sino-americano é um dos mais importantes na construção de uma única ordem mundial.
Relacionamentos essenciais
"O diálogo é espiritualidade criativa, pois ele
revela seus particpantes de maneiras inéditas "
Ikeda: Sim, realmente. Ano passado, K.R. Narayanan, ex-presidente da Índia, e eu discutimos as relações sino-americanas com um enfoque global nos anos que virão. Os Estados Unidos, a China e a Índia são essenciais para o século XXI. Penso que a cooperação entre esses países é o elemento primordial que nos conduzirá à órbita da paz mundial.
Para o Japão, as relações com a China e os Estados Unidos têm sido um tema diplomático fundamental há muitos anos. Realmente, pode-se dizer que a diplomacia japonesa equivale a uma escolha entre estreitar as relações com os Estados Unidos e enfatizar as relações com a China. Mas, em minha opinião, chegou a época de o Japão ter uma visão mais ampla e agir ativamente como uma ponte entre essas duas nações.
Tu: Esse é um conceito muito estimulante. Infelizmente, na atual conjuntura, esse relacionamento é muito assimétrico. A obsessão da República Popular da China com os Estados Unidos contrasta profundamente com a pouca atenção dos Estados Unidos para com a China.
Como uma superpotência, certamente os Estados Unidos devem lidar constantemente com todos os participantes ativos no mundo, mas se não houver uma atitude e um compromisso para a cooperação, colaboração e trabalho em equipe, uma superpotência pode facilmente perder sua liderança moral na comunidade global. A atitude de considerar a China como uma ameaça não é saudável.
Ikeda: Devido à sua grande importância, espero que possamos falar das relações sino-americanas com mais detalhes em uma outra ocasião. Entretanto, como o senhor ressaltou com relação a isso, dá-se uma grande atenção no papel futuro que os Estados Unidos desempenharão no mundo.
Tu: Tragicamente, os ataques de 11 de setembro ocorreram no Ano do Diálogo entre as Civilizações. Logo após os ataques, foram ouvidas expressões de simpatia pelo povo americano em todas as partes do mundo. Foi uma rara oportunidade para a liderança política americana exercer o soft power para persua-dir a comunidade humana, incluindo os países islâmicos no Oriente Médio e na Ásia, para formar uma aliança verdadeiramente global e lutar contra o terrorismo internacional e promover uma cultura de paz em todo o mundo. O unilateralismo americano mostrou-se muito inadequado. É imperativo que nós, americanos, defendamos fortemente o cosmopolitismo e o espírito ecumênico em nossos empreendimentos para construir a segurança humana tanto para nós como para a comunidade global como um todo. Somente por meio de instrumentos internacionais como as Nações Unidas podemos desempenhar com sucesso nosso dever como guardião de uma paz estável e sustentável na Terra.
Ikeda: A América poderia manifestar sua força de maneira mais importante e efetiva, contribuindo com as atividades de organizações de caráter universal, como as Nações Unidas. O mesmo é verdade com relação ao Japão, China e a outros países do mundo. Como disse John F. Kennedy em seu discurso na ONU em 1963: “Meus companheiros habitantes desse planeta: vamos asssumir nossas posições aqui nesta Assembléia de nações. E vamos ver se nós, em nossa própria época, podemos conduzir o mundo a uma justa e duradoura paz”.
Este ano [2005] marca o 60o aniversário de estabelecimento das Nações Unidas. Nessa ocasião, clamo aos líderes de todas as nações que reconsiderem o papel das Nações Unidas como uma plataforma para a coexistência harmoniosa da humanidade e, reunindo suas forças, redobrem seus esforços em nome do progresso.
O presidente da SGI, Daisaku Ikeda, vem conduzindo durante os últimos 30 anos diálogos com centenas de indivíduos de uma ampla gama de culturas, países e tradições, incluindo educadores, cientistas, economistas, ativistas da paz, políticos, escritores, artistas e astronautas. Ele comenta: “A coragem de encontrar e conversar com as pessoas é absolutamente crucial. Escolher o diálogo é em si o triunfo da paz e da humanidade. Por isso eu me encontro com um ser humano após outro, com todos os tipos de pessoas, transcendendo diferenças de nacionalidade, etnia, religião, ideologia, geração, gênero e posição social”.
Seu primeiro diálogo publicado, Escolha a Vida, foi o registro de discussões com o historiador britânico Arnold Toynbee, conduzidas durante vários dias na residência do professor Toynbee em Londres em 1972 e em 1973. Escolha a Vida já foi traduzido para 26 idiomas. A obra cobre uma extensa gama de tópicos, da natureza humana a questões como a pena de morte e a eutanásia, o futuro da guerra, o bem e o mal e o papel da religião no mundo.
Seguindo as recomendações do professor Toynbee, Ikeda conduziu diálogos semelhantes com outros indivíduos, como o presidente do Clube de Roma, Aurélio Peccei, com quem publicou Antes que Seja Tarde Demais. Seus diálogos mais recentes publicados em inglês incluem personalidades como Hazel Henderson, Mikhail Gorbachev e o falecido Joseph Rotblat.
Até o momento, foram publicados 45 diálogos no idioma japonês, além de mais seis atualmente seriados em revistas do Japão. Na conclusão de seu diálogo, o professor Tu Weiming comentou: “O presidente Ikeda é, em minha opinião, o mais experiente parceiro dialógico no mundo de hoje. Desde seu celebrado diálogo com Arnold Toynbee... ele vem sendo o campeão no cultivo da paz mundial por meio do diálogo, o que requer a arte de ouvir profundamente. Por meio de encontros dialógicos com muitos intelectuais de todos os cantos do mundo, o presidente Ikeda auxilia a estender os horizontes intelectuais e aprofunda a auto-reflexão crítica de dezenas de pensadores de nossa época”.
Ikeda fala de seus diálogos: “Os diálogos são como um drama em múltiplos atos. Há momentos em que voam centelhas e momentos de puro deleite em que reverberam acordes de simpatia. Um diálogo vívido e vigoroso satisfaz, é pleno de dinamismo. Por isso me empenho ao máximo em cada um de meus encontros”.
Para mais informações sobre os diálogos publicados por Daisaku Ikeda e disponíveis atualmente em inglês, visite:
www.ikedabooks.org
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