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Abril / Junho
2007

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Diálogo — Uma boa conversa
Entrevista com Robert Anderson

Robert Anderson é professor de Comunicação e membro do Centro para o Diálogo “Morris J. Wosk”, da Universidade Simon Fraser, em Vancouver, Canadá. Foi professor visitante na Universidade de Cambridge, de 1997 a 1998 e de 2004 a 2005.

SGIQ: Se o diálogo é algo bom, por que não o empregamos mais vezes?

Robert Anderson: Somos bonzinhos ao dizer que o diálogo é algo bom — quase todo mundo se move o mínimo que seja em direção ao diálogo. Mas o diálogo requer um esforço real.

O pré-requisito, ou melhor, o ingrediente para o diálogo — a idéia de estender nosso compromisso o suficiente para ouvir alguém cuidadosamente e não apenas esperar uma pausa para o contra-argumento — não é algo que as pessoas desejam praticar com regularidade.

Embora as pessoas utilizem bastante a expressão “precisamos dialogar...”, o que elas geralmente querem dizer é “preciso de algo mais adequado aos meus propósitos — precisamos de um método mais efetivo”, e isso não se refere ao diálogo. Há muitas referências ao diálogo, mas não ele propriamente dito.

Da mesma forma, quando as pessoas se reúnem para discutir um assunto complicado ou problemático, normalmente querem uma ação imediata — alguma decisão deve ser tomada ou devemos adotar uma política ou criar uma lei — e isso consome toda a energia. Assim, quando não ocorre o diálogo que deveria preceder a ação, não se consegue esclarecer as negociações e as fórmulas que precisariam constar nas políticas. Porque o diálogo requer um trabalho árduo, especialmente para as pessoas dotadas de alguma autoridade e que estão acostumadas a serem ouvidas. Uma pessoa com autoridade ou poder está mais acostumada a exercê-los, e menos a evitá-los, para ouvir os demais.

Processo versus produto

SGIQ: Então, focar um resultado ou propósito final pode ser prejudicial a um bom diálogo?

Anderson: Um propósito é importante, mas às vezes ele se torna importante demais e as expectativas se elevam. Considero isso como um dos inimigos do diálogo. As pessoas geralmente não se uniriam se não houvesse um propósito, mas se o propósito é muito enfatizado, então o diálogo se torna uma negociação. Características como franqueza e qualidade de improviso ficam comprometidas pelo propósito. Se as expectativas forem muito elevadas, então, não creio que seja possível o diálogo.

Diálogos e negociações podem ser confundidos e acabam se tornando substitutos um para o outro. Se lembrarmos as melhores conversas que tivemos e as generalizarmos, talvez se torne mais fácil definir o que é diálogo. Se o propósito do diálogo for especificado, torna-se mais uma negociação.

Penso que é interessante considerar a questão da negociação e do diálogo no contexto atemorizante que ocorre hoje com a Coréia do Norte, com a aparente realização de testes nucleares.

Da forma como entendo, as conversações entre as cinco partes (Estados Unidos, China, Coréia do Norte, Rússia e Japão) não podem ser chamadas de negociações, pois muitas vezes não há o que negociar. Assim, as negociações se tornam mais próximas de um diálogo. Acredito que as cinco partes devam estar aprendendo a ouvir umas às outras e por isso devemos prestar atenção nesse processo. Parece que, embora muitas vezes não haja espaço para negociações, há espaço para conversas, o que realmente é um diálogo.

Tenho certeza de que, se a Coréia do Norte posteriormente obtiver armas nuclea-res e se o diálogo puder ocorrer no grupo, o tipo de relacionamento estabelecido entre os cinco países será questão realmente crucial. Então, se houver diálogo às margens dessas negociações, o que aparentemente ocorre, ele poderá ser o mecanismo que nos conduzirá avante sem uma catástrofe.

É um trabalho em progresso, mas não consigo imaginar que uma pessoa séria afirme que as conversas com a Coréia do Norte sejam perda de tempo apenas porque não há mudança no comportamento de nenhuma das partes. Em todos os outros casos de negociações em torno de situações como essa, os próprios atores percebem não chegar a nenhum lugar nos termos das negociações, mas entendem que estão criando e mantendo um ambiente para o diálogo nos quais as negociações podem ser possíveis um dia.

Ser ouvido

SGIQ: As abordagens para o diálogo diferem de cultura para cultura?

Anderson: A idéia subjacente sobre o que torna um diálogo satisfatório varia, sim, de cultura para cultura. Aqui no Centro, trabalhamos em um “livro de bolso do diálogo”, uma espécie de turnê mundial pelo diálogo para leitores em diferentes situações culturais.

Por exemplo, na Nigéria há maneiras de reunir pessoas em situações de tensão, e existem certas formas de rituais de abertura, com provérbios e declarações. Em um minuto ou dois, estão em condições de dialogar. Nosso Centro procura coletar símbolos de diá-logo de diferentes culturas, e nos interessamos em ouvir pessoas que os conheçam. Um exemplo clássico local é o “bastão de conversa”. Ele possibilita que você se levante e fale, e é esperado que os outros o ouçam.

Encontramos exemplos em todo o mundo desse modelo claro de ouvir e falar, com grande ênfase em se ouvir de forma respeitosa e atenciosa. Mesmo em locais onde as pessoas se oponham umas às outras, as culturas tentam estabelecer uma atmosfera de livre intercâmbio de idéias sobre as quais as pessoas discordam. Geralmente há algumas pessoas-chave ou aquelas que possuam influência no ambiente, um mediador. Muitas culturas antecipam dificuldades e possuem modelos para abordá-las.

Os modelos são diferentes, mas o ponto crucial é que, onde as pessoas foram talvez previamente silenciadas, elas podem falar e ser ouvidas, ou esperam ter a sensação de que são ouvidas. Essa é uma medida decisiva. As expectativas podem não ser muito mais elevadas do que isso, mas existe um ambiente em que se pode ser ouvido, o que constitui claramente uma dimensão terapêutica. O que não significa apenas uma terapia, mas uma tentativa de alcançar algo, ou alcançar algo entre pessoas que não foram capazes de fazê-lo. Há ainda essa qualidade quase terapêutica em que as pessoas pensam: “Bem, não acredito que eles mudem de opinião, mas sinto que fui ouvido, com respeito, e fui reconhecido.”

SGIQ: Há diferença na forma como homens e mulheres dialogam?

Anderson: Os lingüistas afirmam que quando as mulheres conversam entre si, se elas já se conhecem, há mais “tapeçaria” — ou uma qualidade de conversa semelhante a uma tapeçaria; as partes são tecidas juntas, como um todo. Por outro lado, os estudos mostram que os homens, mesmo que já se conheçam, tendem a criar uma série de monólogos que se conectam, mas não tecem juntos como as mulheres fazem. Há muita pesquisa a se fazer sobre essa questão. Mas acredito que tenhamos de nos lembrar que as diferenças são maiores.

"... Se lembrarmos as melhores conversas
que tivemos e as generalizarmos, talvez se torne
mais fácil definir o que é diálogo."

SGIQ: Pode nos dar um exemplo do tipo de diálogo que vocês estimulam no Centro?

Anderson: Algumas vezes, temos objetivos muito sublimes — por exemplo, os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Jeffrey Sachs veio ao Centro e as pessoas falaram-lhe sobre esses objetivos. Todas elas eram especialistas em algo. Então, o truque foi levá-las além de simplesmente conversarem com Sachs sobre informações, foi fazer com que todas conversassem e ouvissem umas às outras sobre os objetivos.

Mas temos outras formas de diálogo. Havia uma série de assassinatos de indo-canadenses envolvidos com o tráfico de drogas entre gangues rivais, aqui em Vancouver. Assim, junto com as forças policiais, organizamos um diálogo com as famílias das vítimas, com alguns jovens ex-traficantes, representantes mais velhos da comunidade e policiais de órgãos de inteligência — um grupo bastante informado, mas sem intenção de falar em público. Então, reunimos todos e os fizemos conversar e ouvir uns aos outros.

Distribuímos as vozes pela sala para que os policiais se sentassem próximos aos ex-traficantes, e os jovens junto aos clérigos, de forma a evitar a imagem sobre quem estava autorizado a falar sobre a questão. Queríamos deixar claro que havia pessoas que sabiam muito sobre o assunto, mas não costumavam falar. Elas finalmente falaram.

"... levar as pessoas a assumir riscos e
dizer algo direto e novo é um grande passo. "

Assumindo riscos

SGIQ: O diálogo precisa envolver riscos para ser bem-sucedido?

Anderson: Se tivermos uma conversa sobre os objetivos do milênio e não houver ninguém na sala que tenha malária ou que sofra com a falta de água, haverá então uma espécie de desapego com relação ao tema. Embora seja bom e importante discuti-lo, ele não terá o mesmo efeito. E não podería-mos dizer que há o mesmo risco que envolve, por exemplo, as guerras de gangues, em que algumas famílias perderam seus filhos. Uma moça sentada perto de mim disse: “Eu conheço o assassino de meu irmão, ele passa perto de minha escola quase todos os dias.” Ninguém ali testemunharia contra ele. Dizer aquilo exigiu coragem. Era um risco, especialmente entre aquelas pessoas. Isso foi significativo. A declaração dela mudou o tom da conversa, e as pessoas começaram a falar muito mais de forma realística e menos indiretamente.

Às vezes, penso que os participantes de um diálogo, pessoas como eu que fazem a parte da coreografia, têm de assumir também alguns riscos ao reunir os diferentes lados. Do contrário, seria como um ensaio de velhos chavões e clichês. Há qualidades importantes em se repetir verdades, mas às vezes levar as pessoas a assumir riscos e dizer algo direto e novo é um grande passo. Dito isso, precisamos também ter diálogos sobre os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio com a participação de pessoas expostas a riscos.

E não se pode supor que o diálogo seja harmônico. Não devemos pensar nele como algo sem a expressão do desacordo. Precisamos estar prontos para perspectivas diferentes. Prontos para dialogar com pessoas que geralmente não gostam de ouvir.

SGIQ: Como sabemos quando iniciar um diálogo?

Anderson: Bem, não sabemos a menos que falemos com os outros. Posso ter alguma intuição de que ele foi bom, de que eu fui ouvido, de que ouvi com atenção e que aprendi algo. Mas é realmente importante checar e tentar descobrir o que as outras pessoas sentiram ou não.

Acho que o mais fácil é saber quando não houve diálogo. É quando as pessoas demonstram que não ficaram satisfeitas. É uma situação delicada, mas muito comum. Não é apenas a opinião de um indivíduo.


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