Edições Anteriores
Educação e Arte
Cuidar do coração humano
Lee K. Wolfson é psicólogo. Atualmente, trabalha como psicólogo de estudantes na Escola de Medicina da Universidade de Pittsburgh, Estados Unidos. Ele também atende em seu consultório particular.
Jill Brennan é conselheira sênior e psicoterapeuta da Associação Britânica de Aconselhamento e Psicoterapia. Ela trabalha para o Conselho de Assistência Social e Saúde Mental de Manchester.
(Estas entrevistas foram conduzidas separadamente, por e-mail.)
Por que escolheu a psicoterapia como carreira?
Lee: Essa é uma questão que, às vezes, ainda hoje me pergunto, especialmente quando estou tratando um paciente difícil. Uma das razões é que tive um professor que foi uma verdadeira fonte de inspiração. Não apenas ele me incentivou na graduação, como também me encorajou a estudar o budismo. Isso foi em 1972, na mesma época em que ingressei na SGI. A segunda razão é que eu tinha uma grande curiosidade sobre o íntimo dos seres humanos.
Jill: Eu queria trabalhar capacitando pessoas e possibilitando que criassem valores. Sinto-me privilegiada, pois, todos os dias, recebo visitas de pessoas que partilham comigo minha percepção sobre a condição humana.
Que influência teve a prática budista na sua compreensão do comportamento humano e da saúde psicológica?
Jill: Uma influência enorme. O estudo budista proporcionou-me uma base filosófica profunda e coerente em minha compreensão e experiência sobre o comportamento humano. Por exemplo, a moderna psicologia ocidental costuma ter um foco limitado a respeito do mundo interior, enquanto que o budismo conecta o intrapessoal com o interpessoal e o ambiente.
Lee: Compreender o comportamento humano, bem como a saúde psicológica, começa em nossa própria vida. Como a prática budista ocorreu antes da carreira, eu já havia iniciado o processo de aprender a examinar meu próprio estado psicológico, minha condição de vida. Parte da educação e crescimento como terapeuta também envolveu fazer a minha própria análise. A combinação da prática budista com o trabalho ao lado de um analista capacitado me ajudou a ver mais claramente as maneiras pelas quais minhas próprias tendências budistas podiam interferir em minhas habilidades de auxiliar os pacientes.
Meus estudos budistas também me ensinaram que a saúde psicológica não é um estado de perfeição. Ao contrário, o budismo ensina que possuímos tanto condições positivas quanto negativas, conforme expresso pelo conceito de Dez Mundos. A saúde psicológica está em desenvolver a capacidade de abraçar nossa vida como um todo.
De que forma a prática influencia seu trabalho no dia-a-dia?
Lee: A prática budista diária me ajuda a tratar as pessoas com o espírito de que pode ser a única oportunidade de me conectar com elas de coração a coração, uma atitude que aprendi com o presidente da SGI, Daisaku Ikeda. Ela também me proporciona senso de propósito e foco.
|
|
Jill: A prática budista me ajuda a manter a força vital, para que eu possa ser uma forte influência positiva em meus clientes e em meu ambiente. Participar das reuniões de diálogo da SGI desenvolve a capacidade de me encontrar e dialogar com os outros. Acima de tudo, tento manter uma atitude de respeito incondicional diante das pessoas com as quais trabalho. |
É frustrante não poder falar sobre conceitos ou abordagens budistas em seu trabalho?
Jill: Em certo sentido, eu realmente converso sobre conceitos budistas em meu trabalho o tempo todo. O pensamento budista geralmente se harmoniza com o bom senso e com a boa prática psicoterapêutica. Por exemplo, pesquisas sugerem uma relação entre ruminar sobre eventos passados e a depressão. Ao lembrar com sutileza aos meus pacientes que a vida se inicia a partir deste momento e que se agarrar ao passado apenas exacerba a depressão, posso não utilizar o termo honnin-myo (verdadeira causa), mas estou utilizando um conceito budista que está de acordo com a psicologia.
O que pode ser frustrante é trabalhar com alguém que tem o que poderia ser denominado, num contexto budista, problema cármico profundamente enraizado, para o qual a psicologia não tem solução.
Se um paciente define um problema como uma questão teológica ou filosófica, eu, às vezes, informo a ele sobre minha crença e pergunto-lhe se uma perspectiva budista seria útil. Dependendo da resposta, posso oferecer-lhe conceitos e explanações budistas como uma perspectiva alternativa ao problema.
|
|
Lee: Eu sabia, desde o início, que seria uma violação à ética profissional apresentar diretamente meus pacientes ao budismo. Entretanto, nos últimos 15 anos, conceitos budistas fundamentais se tornaram cada vez mais uma corrente na psicologia ocidental. Aprendi a integrar esses princípios em meu trabalho e descobri que a maioria dos meus pacientes tem respondido de forma positiva. |
Mais recentemente, fiquei intrigado com a última parte da recitação diária do Sutra de Lótus. Nela, Sakyamuni declara: “A todo momento, penso: ‘Como posso fazer com que os seres vivos entrem no caminho insuperável e adquiram rapidamente o corpo de um Buda?’” Aqui, descobrimos o Buda ponderando esta questão sobre como ele pode ajudar outras pessoas a se tornarem budas. Eu poderia pensar que o Buda já conhecia a resposta. Mas, em vez disso, ele abraça a própria questão.
Isso me lembra uma passagem do poeta alemão Rainer Maria Rilke: “Seja paciente com tudo o que não esteja solucionado em seu coração... e tente amar as próprias questões... Viva suas questões agora e, talvez mesmo sem saber, você viverá, em algum dia distante, suas respostas”. Assim, abracei a mesma abordagem de Sakyamuni: perguntar constantemente a mim mesmo como posso ajudar cada pessoa com quem me encontro a se tornar verdadeiramente feliz e confiar que, juntos, poderemos viver a resposta.
O que faz a terapia ser gratificante?
Jill: Ver meus pacientes tendo uma vida melhor e se tornando mais felizes.
Lee: O trabalho como psicoterapeuta me fornece uma oportunidade de desenvolver a capacidade de viver mais plenamente no momento e de me engajar em uma espécie de diálogo que é tanto íntimo quanto desafiador. Minha intenção é aliviar o sofrimento. Embora nem sempre eu seja bem-sucedido, considero profundamente gratificantes os desafios e as questões que devo abraçar.
Os estudantes geralmente me procuram quando estão com dificuldades para lidar com a enorme pressão da faculdade de Medicina e sofrendo de ansiedade, depressão ou alguma outra espécie de reação estressante. Quando sinto que já exploramos completamente seus problemas, sempre lhes peço para falarem por que escolheram inicialmente a medicina como profissão.
Esse é um caminho direto para o coração deles e geralmente lhes ajuda a se reconectar com suas mais profundas aspirações e ideais, além de auxiliá-los a encontrar a coragem e a tenacidade de que necessitam para completarem seus estudos. Quando tudo já foi dito e feito, é realmente o coração o que mais importa, como ensina o budismo.