Retratos de Cidadãos Globais Um mundo sem fome — Dr. M. S. Swaminathan
O Dr. M.S. Swaminathan (esq.), presidente das Conferências Pugwash sobre Ciência e Questões Mundiais, e o presidente da SGI, Daisaku Ikeda, durante encontro em abril de 2004.
A palavra impossível não existe, dizia o pai do Dr. M.S. Swaminathan. Ela existe apenas na mente que nela acredita. Essa é a filosofia que tem guiado a vida do Dr. Swaminathan.
Apesar da promissora carreira acadêmica que o aguardava nos Estados Unidos, o Dr. Swaminathan resistiu a essa tentação. Ele havia estudado genética por um motivo — ajudar os pobres, e fazer com que a Índia produzisse grãos suficientes para alimentar toda a sua população.
Nos anos 1960, trabalhando com agricultores sob o sol quente, ele desenvolveu novas variedades de trigo e arroz que resultaram em grandes colheitas. Acredita- se que sua pesquisa salvou da fome pelo menos 70 milhões de pessoas na Índia. Multidões da Ásia também foram salvas da fome pelo seu trabalho, conhecido hoje como a Revolução Verde.
Sempre que suas conquistas são elogiadas, o Dr. Swaminathan diz que o aumento da produção agrícola é resultado dos esforços dos agricultores. Ele observa: “A população urbana dificilmente reconhece que vivemos neste mundo como hóspedes das plantas e dos agricultores que as cultivam... Infelizmente, as pessoas que se alimentam bem não parecem muito preocupadas com a fome das outras... A maioria das pessoas teme que se os outros ganharem mais, elas ganharão menos... temem dividir poder e recursos. Precisamos mostrar que ajudando os fracos a se tornarem fortes fortalecemos toda a comunidade... A possibilidade de um mundo sem fome é um glorioso legado concedido ao nosso mundo contemporâneo”.
Aproximadamente 78% da população mundial sofre com a pobreza e 70% dessas pessoas são mulheres que vivem em países em desenvolvimento. Embora o Dr. Swaminathan seja geralmente cordial, sua voz se exalta quando fala sobre a desigualdade no mundo atual. Não existe paz em um lugar arruinado pela fome e a miséria, por isso, a conquista da justiça social é crucial para se criar a paz. “Ponderando sobre o problema da fome”, disse o Dr. Swaminathan quando nos encontramos em abril de 2004, “a verdadeira questão é garantir qualidade de vida a todos. Para isso, precisamos nos redirecionar de uma economia capitalista para uma economia que respeite a dignidade da vida humana.”
Dr. Swaminathan escolheu a área da agronomia devido à fome em Bengala em 1943, quando aproximadamente três milhões de pessoas morreram. A ganância custou um terrível preço naquele longo período de fome, na medida em que as pessoas armazenavam mantimentos até que atingissem um preço exorbitante. Hoje, países ricos e industrializados compram enormes quantidades de alimento
por qualquer preço, e então jogam fora o excedente. Dessa maneira, a difusão da fome — apesar da quantidade de alimento suficiente para alimentar toda a humanidade — foi institucionalizada.
Hoje a fome não é um desastre natural. É um desastre causado pela conduta humana. Diante dessa situação, o Dr. Swaminathan declara corajosamente que esse problema pode ser resolvido. Os problemas causados por seres humanos podem ser resolvidos por eles próprios.
O Dr. Swaminathan continua a procurar maneiras de ajudar os agricultores carentes e, em especial, uma maneira pela qual eles possam ajudar a si mesmos. Ele acredita que o desenvolvimento não deveria produzir ganhadores e perdedores; ao contrário, deveria beneficiar a todos. O Dr. Swaminathan defende alianças entre várias entidades, incluindo empresas, o governo, organizações não-governamentais (ONGs) e consumidores. Ele também propôs a formação de bancos comunitários de alimento e um Banco Internacional de Nutrição para Todos.
Em 1988, estabeleceu a Fundação de Pesquisa M.S. Swaminathan (FPMSS), que fez do seu projeto principal a promoção das “biovilas” em todas as regiões. Ele descreve como “as mulheres sofrem mais. Um dos propósitos da fundação é eliminar esse sofrimento. As mulheres carregam um fardo de responsabilidade duas ou três vezes mais pesado, não apenas cuidando dos filhos e da casa, mas muitas vezes trabalhando fora dela também, num total de não menos que 18 ou 19 horas todos os dias.
Elas não se alimentam direito e estão completamente exaustas”.
A FPMSS cria planos economicamente viáveis que fazem o melhor uso da atual circunstância das mulheres e de seu ambiente, e então implanta esses projetos em cooperação com a vila. Essa é uma tentativa de realizar uma “revolução do emprego” que produzirá novas fontes de renda para os trabalhadores humildes.
Dar uma oportunidade
Por exemplo, uma camponesa analfabeta tinha quatro filhos, dois dos quais inválidos. Ela e seu marido trabalhavam como agricultores, mas mal podiam se sustentar. A fundação sugeriu à esposa que entrasse para a pecuária leiteira e lhe emprestou uma pequena quantia de dinheiro para que comprasse uma vaca. Ela vendeu o leite e conseguiu comprar mais vacas. Mais tarde, formou um grupo de nove amigos para aprenderem mais sobre pecuária leiteira. Seu sonho agora é um dia possuir sua própria fazenda produtora de leite.
Uma outra mulher tinha um marido alcoólatra e três filhos na escola. Eles possuíam muito pouco dinheiro até para as necessidades básicas. A fundação aconselhou-a tentar o cultivo de flores para vender. Ela cultivou em um pequeno pedaço de terra que lhe fora concedido e, depois de refletir muito, plantou flores populares entre as mulheres do sul da Índia para enfeitar cabelos. Ela obteve sucesso nas vendas de suas flores laranjas e amarelas e hoje vive bem.
O Dr. Swaminathan explica que o êxito em estimular o desenvolvimento da condição econômica dessas pessoas está em começar com os mais destituídos, porque esses estão fortemente motivados a melhorar de vida. Eles são rápidos em assumir novos métodos e técnicas uma vez que estão convencidos de que irão trabalhar. Aprendem na prática, rapidamente dominando novas tecnologias, diz ele, comentando como é inspirador observar esse processo.
Essas mulheres vêm sendo rotuladas pela sociedade como incapazes e talvez até mesmo relutantes em fazer qualquer esforço significativo, mas a realidade é bem diferente. Quando recebem a oportunidade de lutar contra sua pobreza, lutam com todas as forças. Dedicam- se felizes e completamente pelo bem do futuro de seus filhos. Tudo o que elas precisam é de alguém que acredite nelas e as incentive, alguém que não as julgue inúteis desde o começo.
Uma das mulheres auxiliadas pela fundação era inválida, e outra havia abandonado um casamento infeliz. Ambas foram aconselhadas a iniciar o cultivo de cogumelos e tiveram um sucesso tão grande que deram uma reviravolta em sua vida. Uma mulher com depressão e sem filhos se juntou ao grupo da FPMSS e começou a fazer cordas das fibras de coco. Hoje ela emprega várias pessoas e opera uma máquina de tear. O Dr. Swaminathan relata casos de mulheres com formação escolar primária básica que dominaram a utilização do computador em apenas duas semanas.
As pessoas são o mais importante na eliminação da miséria.
“Existe um potencial imenso ainda não utilizado em nosso país”, conclui o Dr. Swaminathan. “É um grande erro descrever os pobres como ‘beneficiários’, essa é uma abordagem patriarcal. Devemos mudar o paradigma de apoio para parceria — a parceria genuína com base no respeito mútuo”.
O problema da fome no mundo está ligado ao modo como decidimos viver nossa vida. O Dr. Swaminathan assegura que é possível erradicar a fome. Mas existe uma condição: só conseguiremos se as pessoas mais afortunadas, especialmente os líderes no mundo, colocarem em prática as seguintes palavras de Gandhi: “Lembrem-se do rosto do homem mais pobre e fraco que você já viu, e pergunte a si mesmo se o caminho que você contempla seguir será de alguma utilidade para ele. Ele ganhará alguma coisa com isso? Será que isso vai restituir-lhe o controle sobre sua própria vida e destino?”
Essas palavras, essa chama de compaixão, são a tocha que iluminam a vida do Dr. Swaminathan.
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