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Janeiro / Março
2007

Destaque
Pequeno e belo
Grzegorz Galusek

Imagine a vida sem uma conta bancária, seguro ou cartão de crédito. É difícil acreditar, mas quase três bilhões de pessoas com renda baixa vivem sem acesso a serviços financeiros formais. Em alguns países em desenvolvimento, esse índice pode chegar a 90% do total da população adulta, quando se estima que nos chamados países desenvolvidos do ocidente, a exclusão financeira afete cerca da 10% da população.

A falta de acesso a serviços financeiros representa um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento das alternativas socioeconômicas das pessoas pobres. O acesso a esses serviços possibilita que pessoas de baixa renda aumentem suas receitas e equilibrem seu fluxo de consumo, ao mesmo tempo reduzindo a vulnerabilidade a choques externos (mortes de familiares, doenças, casamentos). Além disso, para muitas dessas pessoas, trabalhos considerados inferiores são a única fonte de receita e emprego, de forma que necessitam de pequenas quantias de dinheiro para lidarem com suas compras ou atividades agrícolas ou de produção — para comprarem suprimentos ou investirem em ferramentas, equipamentos ou outras melhorias.

O modelo Grameen


A cliente de microcrédito Tifa Patkoviae e sua vaca
Durante os últimos trinta anos, o economista de Bangladesh, Dr. Muhammad Yunus, ofereceu pequenos empréstimos a grupos de mulheres locais para a produção de móveis de bambu, que até então financiavam sua produção pagando juros tão elevados que o dinheiro que recebiam da venda dos móveis mal cobria os custos. Com os empréstimos do Dr. Yunus, as mulheres rapidamente multiplicaram suas receitas e pagaram os empréstimos. Até maio de 2006, o Banco Grameen — o primeiro “banco dos pobres” fundado pelo Dr. Yunus — já tinha 6,39 milhões de tomadores de empréstimos, 96% dos quais eram mulheres.

A idéia do Dr. Yunus de pequenos empréstimos sem avalistas inspirou organizações não-governamentais a emprestarem a empreendedores pobres e posteriormente levou a um crescimento significativo de instituições que fornecem serviços financeiros a famílias de baixa renda de forma sustentável. Essas instituições são geralmente conhecidas como “instituições de microcrédito” e podem assumir diferentes formas legais (ONGs, cooperativas financeiras e até mesmo bancos). As instituições de microcrédito típicas não requerem avalistas. Elas concentram a análise de crédito nas características do cliente, em seu fluxo de caixa e no comprometimento para pagar o empréstimo requerido.

Uma forma de garantia de microcrédito envolve uma “responsabilidade solidária” dos participantes, grupos de 3 a 6 pessoas, em que cada integrante recebe um empréstimo e é responsável pelo pagamento dos outros membros do grupo.

O exemplo do Banco Grameen foi também utilizado nos países desenvolvidos. Por exemplo, na França, o microcrédito foi oferecido pela primeira vez nos anos 1980, uma época de elevado desemprego. A Adie, uma instituição nãogovernamental de microcrédito, foi encorajada a estimular o empreendedorismo entre os desempregados oferecendolhes pequenos empréstimos para criarem microempresas. Na época, era uma idéia revolucionária: acreditava-se que os beneficiários do apoio do Estado não seriam capazes de criar seus próprios negócios.

Hoje, a Adie serve a mais de 15 mil clientes de baixa renda (a maioria, famílias de imigrantes), ajudando-os a financiar seus próprios negócios.

É importante afirmar: microcrédito não é caridade. Ao contrário, é um serviço que tem o seu preço. Hoje, o termo “microcrédito” inclui muitos produtos: microempréstimos, poupança, micro-seguro e produtos de transferência de dinheiro. O formato desses produtos se baseia nos princípios de mercado que refletem as preferências das pessoas de baixa renda.

Cooperativas de financiamento

O microcrédito também não é algo novo. Na Europa, o modelo Raiffeisen de cooperativas de poupança e empréstimo propagou-se no final dos anos 1800 como uma resposta à extrema pobreza e para capacitar as comunidades locais a reinvestirem suas poupanças nas economias locais. Atualmente, as cooperativas de financiamento na Irlanda, Polônia e na Ucrânia alcançam milhões de pessoas, a maioria delas de baixa renda.

Na Europa oriental, a recente transição da economia centralmente planejada para a economia de mercado levou a altos níveis de desemprego e pobreza. Os processos de reestruturação e de privatização dentro do sistema financeiro também resultaram em enormes carências financeiras para o surgimento de novos negócios. Devido a essas dificuldades, as instituições de microcrédito surgiram no início dos anos 1990. Elas servem a uma ampla gama de clientes: desde aqueles com pouca experiência nos negócios — a quem a transição econômica ou a guerra (por exemplo, na Bósnia Herzegovina) fez surgir como uma nova categoria de pobres ou desempregados — às microempresas já estabelecidas e que empregavam uma ou duas pessoas, geralmente familiares e às microempresas maiores, com 5 a 10 pessoas.

Ao apoiar essas empresas, as instituições de microcrédito estão auxiliando a transição de economias de baixo para cima. Juntas, elas servem, de modo sustentado, três milhões de clientes. A abordagem atual envolve a criação de bancos especializados que servem os micro e pequenos negócios. Dezessete desses bancos já foram estabelecidos nos países em transição na Europa oriental desde 1997, auxiliando mais de 600 mil microempresários.

Desafios à frente

Pessoas pobres pagam pelos produtos financeiros apenas se obtiverem os produtos que correspondam às suas necessidades. Isso cria uma grande oportunidade para outros negócios que até então vinham focando os objetivos finais do mercado.

Ainda assim, as instituições de microcrédito servem apenas uma fração do mercado. O desafio é aplicar o conhecimento existente em uma escala muito maior. Atualmente, muitos fornecedores de serviços de microcrédito exploram canais de distribuição de crédito inovadores e pontos de serviços múltiplos.

Por exemplo, a companhia de seguros AIG iniciou uma parceria com fornecedores de microcrédito em Uganda para oferecer micro-seguros de acidentes pessoais para mais de 1,6 milhões de clientes de baixa renda e seus familiares. Isso ocasionou uma competição entre outras seguradoras de Uganda e resultou em produtos melhores com preços mais favoráveis para o mercado de baixa renda.

Bancos globais estão se direcionando para o microcrédito fechando parcerias com instituições locais em muitos países (Turquia, Índia, México etc.), todos com o propósito de desbravar um imenso mercado em potencial. Atualmente, há discussões sobre criar mercados secundários para empréstimos de microcrédito. Esses empréstimos, se reunidos para emissão de títulos, poderiam ser vendidos a investidores globais. Isso poderia se constituir em um verdadeiro avanço na expansão do financiamento de microcrédito.

Países em todo o mundo já estão percebendo o grande potencial do microcrédito. Sua importância vai muito além da oferta de produtos financeiros bem formatados: pela primeira vez, isso poderia criar oportunidades para um grande número de pessoas.

Fora

O fundo Fora e o banco Forus possuem mais de 17 mil clientes na Rússia.
Galina Ivanchenko é a líder de um grupo de seis tomadores de empréstimos em Belgorod que vem trabalhando com o Fora há cinco anos.
Galina vende sapatos nos mercados de Belgorod. Levou sete anos de árduo trabalho para seu negócio ter sucesso.
A história de Galina é típica de seu grupo: a cooperação com o fundo mudou a vida de todos. Os empréstimos do Fora aumentaram a lucratividade de seu negócio e, como resultado, o bem-estar de sua família. Seus produtos atingem cada vez mais pontos de venda. Hoje, empreendedores ins- FORA crevem-se no fundo para o 10o ou 20o empréstimo. Comprando em grandes quantidades, conseguem manter os preços mais baixos, atraindo mais clientes.
Outra cliente do Fora é Dlavdia Azizova, de Lipetsk. Ela tomou seu primeiro empréstimo, equivalente a cerca de mil dólares, em 2002, quando tinha um comércio em um mercado local, um estoque pequeno e nenhum funcionário. Após trabalhar com o Fora por quatro anos, ela expandiu seus estoques, alugou dois cafés, reformou-os e montou um bufê para festas de casamento. Hoje emprega 16 pessoas e está em seu sexto empréstimo (cerca de 9,4 mil dólares) para ser quitado em dois anos.

Grzegorz Galusek é diretor-executivo do Centro de Microcrédito para a Europa Central Oriental e Novos Estados Independentes (MFC), com sede na Polônia.


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