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Janeiro / Março
2007

Destaque
Quanto custa uma xícara de café
Entrevista com Ashenafi Argaw

SGIQ: Qual o significado do café para os etíopes?

Argaw: O café integra a cultura do país, a Etiópia é o seu lar. Perto de 53% do café etíope é consumido localmente. Todos apreciam essa bebida, ricos ou pobres. A cerimônia do café é uma característica importante da hospitalidade etíope. O hospedeiro lava os grãos, torraos e os mói com um pilão e um almofariz. O café é servido em pequenos copos chineses com muito açúcar. Tradicionalmente, o convidado deve aceitar três copos — o terceiro, em particular, é considerado como a concessão de uma benção.

Além disso, o café é o núcleo da economia etíope, o que significa, mais ou menos, 55% das exportações do país. Há, aproximadamente, 1,2 milhão de cafeicultores e uma média de 15 milhões de famílias dependentes direta ou indiretamente do café para a sua subsistência. Os pequenos agricultores são responsáveis por cerca de 95% do café, a maioria deles trabalha em menos de um hectare de terra.

SGIQ: Qual a situação do fazendeiro de café?

Os consumidores devem escolher aqueles produtos
que respeitem o ser humano por trás deles,
ou seja, o produtor.

Argaw: O preço caiu mais da metade no mercado mundial de café em 1998, quando chegou a 50 centavos a libra, gerando um efeito drástico em toda a economia. Muitos fazendeiros de café foram obrigados a vender seu patrimônio, como o gado, e cortar despesas essenciais, como nos alimentos. Vou citar alguns comentários de uma entrevista de um fazendeiro em nossa região: “Dependo do café para comprar roupas, alimentos, pagar os impostos e os remédios. Nossa vida depende do café... Dez anos atrás, eu produzia sete sacas, e isso era suficiente para comprar roupas, remédios e serviços. Mas hoje, mesmo que eu venda quatro vezes mais, é impossível cobrir todas as minhas despesas... Três dos meus filhos não vão à escola porque não consigo pagar os uniformes... Já não compramos mais forragem e óleos comestíveis. Estamos comendo basicamente milho”.

Embora essa situação tenha melhorado, o que os fazendeiros obtêm ainda não é justo comparado aos seus custos.

Trabalhando juntos


Cerimônia do café
As cooperativas são uma forma de se redirecionar esses problemas. O Sindicato das Cooperativas dos Fazendeiros de Café de Sidama foi fundado em 2001 e abrange 45 cooperativas primárias, representando 86.675 pequenos fazendeiros na região sul da Etiópia. As cooperativas primárias são autônomas, associações democráticas de pequenos fazendeiros de café.

Aproveitando as vantagens da economia de escala e maximizando a eficiência, nossa organização procura simultaneamente alcançar os padrões competitivos da economia de mercado e elevar a participação desses fazendeiros no comércio para protegê-los dos atores ilegais que atuam no mercado doméstico. Estamos tentando estabilizar os mercados locais, ao mesmo tempo em que nos aventuramos nos internacionais e tentamos também aumentar a participação em nichos de mercado, como no mercado de produtos orgânicos.

SGIQ: Quais são os principais desafios?

Argaw: Falta de acesso ao crédito: há a necessidade de bancos de cooperativas para ajudá-las a obter empréstimos. Otimizar as cadeias do mercado doméstico de café é essencial, por possuir muitos intermediários e altos custos de transação. A formação de quatro sindicatos de cooperativas em diferentes regiões em desenvolvimento está nos ajudando a alcançar isso. As barreiras tarifárias e outras que impedem as organizações locais de entrar no mercado internacional de café torrado também são um problema.

Um acordo justo

SGIQ: Como os consumidores podem ajudar? Argaw: Os consumidores devem se certificar de onde vêm os produtos expostos nas prateleiras e escolher aqueles que sigam o conceito de “fair trade” e que respeitem o ser humano por trás deles, ou seja, o produtor. Um produto “fair trade” é um produto responsável que pode ser identificado; e sua origem, traçada até o fazendeiro. Dessa forma, os consumidores precisam se informar sobre o que consomem e, nesse sentido, nós tentamos ajudá-los, aos atacadistas e aos investidores, por meio de eventos como as feiras internacionais de comércio e as campanhas sobre “fair trade”.

O “fair trade” garante um mínimo de US$ 1,26 por libra: um salário mínimo. Atualmente, ele está 21 centavos acima do preço de mercado. Esses pagamentos justos são investidos em alimentos, abrigos, saúde, educação, proteção ambiental e independência econômica. O “fair trade” também oferece acesso ao crédito. Ele promove técnicas social e ambientalmente sustentáveis e relacionamentos de longo prazo. Em nossa área, ele conduz a um melhor fluxo de caixa, produção sustentável de café de boa qualidade, um aumento nas matrículas escolares e melhoria na infra-estrutura.

O foco do “fair trade” está nas cooperativas e é um poderoso incentivo para que os pequenos fazendeiros se organizem. Isso reduz o controle dos intermediários, é um primeiro passo em direção ao fortalecimento da comunidade. Todas as vezes que as cooperativas vendem café no mercado de “fair trade”, cinco centavos por libra são investidos no desenvolvimento de atividades na comunidade. Quaisquer decisões sobre prêmios são feitas pela Assembléia Geral de membros.

SGIQ: Desvantagens do “fair trade”?

Argaw: Os preços fixos incluem o risco de menos lucros em épocas em que o preço de mercado é alto. Isso também é como um nicho. Representa apenas 3% do comércio global de café. Torna-se difícil o envolvimento para muitos dos pequenos fazendeiros. Na Etiópia, apenas 15% estão agora envolvidos no “fair trade”. SGIQ: Que outros tipos de iniciativas seriam importantes?

Argaw: Acredito que iniciativas focadas em padrões de qualidade seriam muito boas. Sei o quanto os fazendeiros se esforçam visando a qualidade do produto, mas o mercado geralmente não é baseado nisso. Eu realmente aprecio quaisquer iniciativas que promovam e recompensem a qualidade, por beneficiarem tanto os produtores como os fazendeiros.

SGIQ: O “fair trade” fez alguma contribuição para a paz na Etiópia?

Argaw: Definitivamente! O comércio é a ferramenta mais poderosa que liga a vida das pessoas em nosso planeta, afetando a economia de forma positiva e também negativa. A queda massiva do preço do café acarretou um grande aumento na pobreza e na fome. Mas agora, pouco a pouco, o “fair trade” trouxe diferenças perceptíveis para a vida de muitos fazendeiros. As crianças obtiveram acesso à assistência médica e à educação onde antes esses serviços não existiam. Boa parte da infra-estrutura necessária já foi construída, tendo alcançado um certo progresso contra a pobreza. Uma participação maior no mercado teria um impacto significativo na paz e na estabilidade de nosso país.

Visite www.sidacoop.com.

Ashenafi Argaw trabalha com exportação para o Sindicato das Cooperativas de Fazendeiros de Café de Sidama, na Etiópia.


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