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Philippa Moore
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Talvez você não saiba, mas um produto pouco conhecido utilizado em seu celular contribui para a caça e a matança de gorilas das terras baixas orientais do Congo.
Columbita-tantalita, ou coltan, é um minério do elemento metálico tantálio, encontrado principalmente na África, mais especificamente na região dos Grandes Lagos, na República Democrática do Congo. Usado na manufatura de componentes eletrônicos, é capaz de armazenar e liberar lentamente uma carga elétrica vital em equipamentos eletrônicos portáteis cada vez menores. |
Desde 2000, o rápido crescimento do mercado dos telefones celulares e a demanda pelas últimas gerações d videogames fizeram o preço do tantálio se elevar de 40 dólares a libra (cerca de 500 gramas) para 500 dólares, antes estacionando ao redor de 120 dólares a libra por volta de 2001, iniciando a maior revitalização econômica que o Congo já viu.
Diferentemente de muitos minérios, o coltan pode ser extraído por qualquer um com uma pá. A corrida pelo coltan foi desastrosa para o Parque Nacional de Kahuzi Biega, um local considerado como patrimônio do mundo, que teve um afluxo de mais de 15 mil mineradores da noite para o dia. Para alimentar os grupos de mineradores, gorilas, chimpanzés e até mesmo elefantes foram caçados, sendo o gorila o mais difícil de se abater. A população de gorilas diminuiu pela metade desde o início da extração.
As Nações Unidas documentaram esse desastre iminente no relatório do Painel de Especialistas, salientando as investigações a cargo de organizações não-governamentais como a Fauna and Flora International, a World Wildlife Fund, a WorldWatch, a Human Rights Watch e a Wildlife Conservation Society. Essas organizações realizaram grandes campanhas para uma monitoração rigorosa, uma rede de abastecimento transparente, um código de mineração no Congo e regulamentos para apoiar a extração sustentável do coltan. A resposta é complicada: foi sugerido que a proibição total da extração de coltan no Congo resultaria no controle desse comércio por mãos ilegais. Isso também acabaria com o efeito positivo que o preço do tantálio está tendo na comunidade local.
O resultado da campanha foi ver companhias multinacionais que usam coltan em seus produtos tornando-se alvo de pressão para que utilizem produtos “amigáveis aos gorilas”. As empresas responderam instituindo políticas de cadeias de abastecimento e, em troca, exigindo padrões de seus fornecedores. Além disso, passaram a usar coltan da Austrália.
Transparência
Essas políticas de cadeias de abastecimento são um importante primeiro passo, e não podem ser desprezadas. Mas para desenvolver a confiança entre os consumidores e as ONGs, as companhias de tecnologia precisam criar uma real transparência na cadeia de abastecimento. Para isso, precisam apenas olhar para modelos éticos de cadeias de abastecimento, como a rede Starbuck, que publica informações detalhadas sobre seus fornecedores e apóia ativamente os produtores de café, pagando preços maiores que os padrões do Coffe and Farmer Equity (Cafe) e envolvendose com os produtores por meio da criação de Centros de Apoio aos Fazendeiros nas nações em desenvolvimento que fornecem os grãos de café. Para assegurar que o café foi colhido de maneira ética, são fornecidas informações sobre salários e pagamentos na cadeia de abastecimento. O café produzido dentro do conceito “fair trade” tornou-se um rótulo amplamente conhecido, e não há razão para que o coltan “fair trade” não possa seguir o mesmo caminho.
Nenhuma lei evita que lojas varejistas comprem móveis que utilizam matéria- prima de florestas protegidas nos países em desenvolvimento, mas as companhias multinacionais com marcas dignas de proteção insistem na certificação do Conselho de Manejo Florestal (Forest Stewardship Council), que promove o manejo florestal responsável. Companhias como a Gap e a Nike publicam relatórios detalhados sobre violações de normas trabalhistas nos países em desenvolvimento — de riscos de incêndio a evidências de trabalho infantil —, abrindo-se para críticas, ao mesmo tempo em que constroem a confiança com as próprias ONGs que as criticaram no passado.
Graças às ONGs, à mídia e ao exame minucioso dos consumidores sobre cadeias de abastecimento antes desconhecidas, grandes marcas multinacionais estão se tornando cada vez mais vulneráveis às reclamações dos consumidores conscientes e informados e aos grupos de pressão. As raízes disso podem ser vistas no acesso mais amplo à informação em todo o mundo, da Internet aos blogs e às ferramentas de busca, como o Google, que dão aos cidadãos preocupados acesso à informação. Filmes e documentários de baixo custo propagam questões difíceis de digerir, como a mudança climática e a conversa entre Leonardo DiCaprio e Arthur C. Clarke, divulgada na Internet, que tentaram difundir o problema do coltan no Congo.
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Marcas multinacionais sempre foram rápidas em responder à opinião pública. E muitas delas estão respondendo com suas próprias técnicas inovadoras, como o McDonald´s, que usa podcasts para transmitir suas mensagens à cadeia de abastecimento. |
Num processo gradativo, o público, em geral, vem criando um link entre o produto e as fontes utilizadas para produzi- lo e fazendo escolhas conscienciosas baseadas nessas informações. Os primeiros incidentes, como o vazamento de óleo do Exxon Valdez em 1989, produziram um boicote à Exxon. E a reputação da Nike de dar mínimas condições a seus empregados fez com que os consumidores se tornassem mais relutantes em comprar seus produtos. Esse legado e suas lições ficaram impressos na segunda geração de empresas, como a Timberland e a Whole Foods, que se asseguraram de que suas políticas de desenvolvimento sustentável são uma das principais preocupações de suas marcas com a publicação de relatórios de responsabilidade corporativa, blogs, webcasts e outras técnicas de comunicação, e utilizaram essas plataformas para se transformarem pró-ativamente.
Enquanto isso, este ano, duas grandes reservas naturais foram criadas no Congo para formarem um único local de biodiversidade com várias espécies ameaçadas, incluindo os gorilas. As comunidades locais são responsáveis em proteger as reservas, enquanto as economias locais são desenvolvidas em áreas claramente definidas fora das reservas. Nossas escolhas e nossas vozes podem fazer a diferença.
Philippa Moore trabalha na American University Washington College of Law e é consultora de questões de responsabilidade corporativa para a Nike, Ford, Chevron e outras companhias. Ela também edita a “Sustainable Development Law and Policy”. |