Como uma sociedade, desenvolvemos um sistema moderno, porém tolo, para alocar nossos recursos particulares. Por meio de fundos mútuos, fundos de pensão e outras formas de investimento, os investidores modernos transferem suas poupanças de vida a administradores profissionais encarregados unicamente de gerar retornos financeiros. Os administradores utilizam essas poupanças para comprar propriedades e fornecer crédito às corporações em nome dos investidores. Os administradores das corporações, também encarregados unicamente de gerar retornos financeiros, usam então esses fundos para comprarem equipamentos e recursos de que necessitam para conduzir suas operações.
Sem saber, os investidores organizam esses recursos para levar aquecimento aos lares e alimentos às mercearias ou desenvolver drogas antiretrovirais ou máquinas híbridas. Mas, algumas vezes, esses recursos são utilizados na elaboração de produtos que lentamente matam seus consumidores ou os capacitam a matar. Outras, esses produtos são utilizados em projetos que derramam óleo no Pacífico Norte, depositam cianeto em locais de pesca ou derramam toneladas de gás venenoso em áreas povoadas.
As pessoas lêem sobre esses assuntos e lamentam os grandes lucros que as corporações obtêm à custa do bem comum, sem necessariamente relacionar esses ganhos a planos de pensão, fundos ou mesmo à doação para organizações em que são voluntárias.
O investimento socialmente responsável é um pequeno movimento que vem crescendo desde a década de 1970 e propõe que os investidores assumam responsabilidades éticas como proprietários daquilo que as empresas produzem em seu nome. Também propõe que investimentos sustentáveis possam ter retornos competitivos, quando não superiores, em longo prazo. Os investidores sociais exigem que empresas em que investem se comportem de acordo com os valores que seguem em sua vida pessoal, e que busquem investimentos que tenham relação com o futuro que gostariam de concretizar. Se uma empresa notoriamente viola normas básicas, os investidores não querem tomar parte disso. Se tem defeitos, os investidores querem melhorá-la. Se ajuda a moldar um futuro mais positivo, os investidores sociais querem nutri-la.
À margem e na vanguarda
Em parte, os investimentos socialmente responsáveis são ainda um movimento à margem das grandes tendências. Cerca de 10% do patrimônio administrado têm pelo menos algum tipo de restrição social, geralmente restrições tênues sobre armas, fumo ou álcool. Entretanto, uma pequena fração dos investidores globais olha de forma abrangente para questões como relações no trabalho, impacto ambiental e direitos humanos.
Sobre temas específicos, essa pequena fração se constitui uma vanguarda, trazendo idéias críticas das comunidades ativistas e despreocupadas a respeito de lucros para os investidores. Nas décadas de 1970 e 1980, uma ampla coalizão se formou em torno do boicote ao trabalho infantil que comercializava seus produtos de modo irresponsável no mundo em desenvolvimento. Além disso, as pensões públicas e as doações das universidades se juntaram à campanha para livrar a África do Sul do apartheid. Essas iniciativas ressaltaram o grande potencial que os investidores mais conscientes tinham, no sentido de mudar a forma como os recursos eram alocados e influenciar a tomada de decisões das corporações. Com os anos, os investidores socialmente responsáveis passaram a pressionar as corporações a adotarem desde políticas não-discriminatórias mais abrangentes até produtos “fair trade” e a ajudar a impulsionar a divulgação dos relatórios formais de sustentabilidade, principalmente na Europa.
A questão que agora demonstra ter o maior potencial para atrair um amplo apoio é a mudança climática. Organizações como a Ceres — uma rede de fundos de investimentos e organizações de defesa do meio ambiente — estão unindo forças para encorajar as corporações a relatar e a planejar como se adaptariam em um futuro de emissão controlada de carbono. O resultado foi uma onda de resoluções, relatórios e ações de defesa. Em 2004, a resolução da Boston Common Asset, propondo que uma empresa produtora de óleo e gás se engajasse em relatar a mudança climática, recebeu um recorde de 37% de votos dos acionistas, apesar das recomendações dos executivos dessa empresa. Esse nível de receptividade dos acionistas sugere que o movimento está recebendo amplo reconhecimento do investimento público. Felizmente, a conscientização crescente, aliada a essas mudanças, conduzirá a ações — à medida que os investidores direcionam seus recursos para investimentos mais sustentáveis, as corporações tentam se adaptar a isso.
Princípios e lucros
Um pescador limpa o óleo em sua
fazenda de peixes após vazamento na
costa da China.
De modo convencional, o movimento de investimentos socialmente responsáveis sofre com a noção aceita de que há uma troca entre princípios e lucros. Os administradores de empresas e os profissionais de investimento poderiam preferir a diminuição das recompensas financeiras imediatas diante dos relatórios que mostram fábricas que pagam pouco e onde se trabalha muito, produção de bens gerados a partir de locais antes intocados e novos produtos que chegam aos mercados mais rápida e agressivamente. Mais difícil seria prever ou discernir, muitos anos depois, a derrota nas disputas trabalhistas, as reclamações na comunidade e os processos judiciais.
À medida que crescem os exemplos, os investidores socialmente responsáveis questionam a sabedoria convencional dessa troca. Os analistas de Wall Street estimam os ganhos de uma empresa nos próximos trimestres e conjeturam sobre o seu desempenho nos próximos anos. Entretanto, eles geralmente consideram o futuro muito remoto e incerto para se avaliar. Mas, de acordo com um modelo padrão de avaliação, 70% do valor de uma grande empresa comercial se relaciona às expectativas de ganho que terá em um período de mais de dez anos a partir de agora. Se um investidor pudesse descobrir qualquer indício sobre a sustentabilidade de uma empresa e o crescimento de seus ganhos no longo prazo, teria uma grande vantagem.
A idéia de que a análise de sustentabilidade levanta esse indício tem levado alguns à tendência de abraçar os Destaque investimentos socialmente responsáveis. Esse movimento está ganhando força entre as fundações e planos de pensão do norte da Europa e recentemente recebeu o apoio da CalPERS, o maior fundo de pensão dos Estados Unidos. Essas organizações defendem que “fatores ambientais e sustentabilidade” conferem vantagens apreciadas nos desempenhos dos negócios em longo prazo. Elas sugerem que práticas empregatícias generosas abastecem a motivação dos trabalhadores e asseguram que a empresa tenha acesso ao mercado de trabalho em longo prazo. Afirmam que segurança e marketing responsável constroem a reputação da empresa para os consumidores, que uma governança responsável protege a empresa de processos e ações reguladoras adversas e que os administradores de capital que compreendem esses fatores muito provavelmente escolherão oportunidades de investimento melhores no longo prazo.
Inovações e retornos externos
A onda de investimentos socialmente responsáveis também alimenta um crescente grupo de capitais que busca tanto retorno para investidores como um “retorno externo” que enriqueça a sociedade por meio da inovação. Pequenas empresas que foram pioneiras em um comércio justo e orgânico contabilizaram crescimento e lucratividade, obtendo diferenciais de preço no mercado devido à qualidade superior de seus produtos. A corrida nos preços do petróleo durante os últimos anos conduziu a um boom no capital de risco e nas ofertas de títulos públicos relacionados à energia solar, energia eólica e etanol. Os primeiros investidores nessas empresas geralmente acreditam que uma combinação de disciplina empresarial com éthos filantrópico criará instituições mais vibrantes do que se essas duas forças agissem de forma separada.
O investimento socialmente responsável cresce em viabilidade e sofisticação. Ele abraça um conjunto de idéias geralmente complementares e ocasionalmente competitivas entre si: a propriedade como um meio de promoção da condescendência social e da transparência; a sustentabilidade como uma ferramenta convencional na análise de investimento; os investimentos como um caminho para um futuro melhor.
Desconsiderando se o movimento atinge essa corrente ou se ele se integra a ela, isso permanece primariamente uma escolha pessoal que os investidores fazem para implementar seus princípios e concretizar suas aspirações nesse e em outros caminhos de vida.
Nathan Foley-Mendelssohn é analista-pesquisador do Boston Common Asset Management, uma empresa de investimentos dedicada ao retorno financeiro com mudança social.
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