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Janeiro / Março
2007

Destaque
A paz como um negócio
Jane Nelson

Durante a última década, as forças da transformação política e da globalização econômica criaram um mundo de novas oportunidades e esperanças para alguns, mas aumentaram a instabilidade e a insegurança para outros. Agora, no século XXI, conflitos violentos continuam a afetar a vida de milhões, minando o progresso humano e o desenvolvimento econômico. Isso traz importantes implicações para os negócios. Do Azerbaijão ao Zimbábue, o potencial e a realidade dos conflitos violentos se tornaram uma inevitável questão de negócio.

Segundo dados de 2000, havia 72 países onde o risco para as empresas estrangeiras era classificado como médio, alto ou extremo. Além disso, hoje, somente 4% do PIB mundial é relacionado a gastos militares; 96% da comunidade internacional dos negócios fornecem produtos e serviços civis. E muitos desses setores possuem um grande interesse na paz e estabilidade.

O mundo corporativo — abrangendo desde as grandes multinacionais até as microempresas informais — possui um papel vital na criação de riqueza, na promoção social e no desenvolvimento econômico. Também possui um papel importante na contribuição direta e indireta para se prevenir e solucionar conflitos violentos.

Contudo, a realidade é que algumas empresas têm sido identificadas como as causas diretas dos conflitos violentos ou como cúmplices em sustentá-los nos países onde operam. Isso geralmente é resultado de conseqüências não intencionais de suas operações, de seus parceiros de negócios, de má gestão, falta de consciência ou políticas e controles operacionais inadequados.

Há três estratégias básicas que as empresas podem adotar na administração de seu impacto na sociedade, aplicáveis a qualquer setor da indústria, país ou comunidade, mas com relevância particular em situações sensíveis aos conflitos. Por muito pouco, uma empresa pode objetivar ser condescendente com as normas nacionais e os padrões e leis internacionais onde são aplicáveis. Mas deve objetivar muito mais que uma complacência para minimizar os riscos e perigos de suas operações.

Estratégias para a responsabilidade

A engenhosidade humana cria oportunidades de negócios mesmo em meio à destruição. Acima, crianças afegãs ajudam a construir antenas

Além da condescendência e de atuar com o mínimo dano, as empresas podem criar, de forma proativa, valores sociais positivos otimizando os multiplicadores externos de suas próprias operações e se engajando em um investimento social inovador, por meio de consultas aos acionistas, políticas de diálogo, criação de instituições jurídicas e civis, incluindo ações coletivas com outras empresas.

Em termos práticos, os desafios administrativos geralmente encontrados pelas empresas que operam em situações de conflito podem incluir decisões de investimento, ou desinvestimento, em países com regimes repressivos e corruptos e a descoberta de meios para operar de acordo com padrões internacionais e encorajar uma melhor governança se decidirem investir.

Elas precisam descobrir se seus investimentos e operações estão ajudando de fato a custear ou sustentar a guerra econômica, encontrar formas de influenciar a distribuição de custos e benefícios a partir de suas atividades, sem aumentar as desigualdades e instabilidades, e se certificar da segurança de seus empregados, sem comprometer as comunidades ao redor. Elas também podem considerar como contribuir para operações de ajuda humanitária e investigar a possibilidade de desempenhar um papel específico na construção da paz e da confiança.

De forma geral, as ações coletivas das empresas podem ser de especial valor no direcionamento de questões sensíveis à política, como a corrupção e os abusos aos direitos humanos. Nesse sentido, novos tipos de parcerias multissetoriais entre empresas, governos e sociedade civil podem ser valiosos para se direcionar algumas das complexas questões de uso intensivo de recursos associados à prevenção de conflitos.

A Iniciativa Empresarial Nacional, na África do Sul, as Empresas Filipinas para o Progresso Social e a Confederação de Indústrias Britânicas da Irlanda do Norte são exemplos de coalizões de “negócios na sociedade” que se engajam na construção da paz e na resolução de conflitos.

Vulnerabilidade

Mulheres da região de Chiapas ouvem
um candidato político. Enquanto os processos políticos tendem a aprofundar as divisões, as iniciativas empresariais podem unir os povos.

No contexto da globalização econômica, muitas comunidades se sentem vulneráveis às graves mudanças além de seu controle, correndo o risco de se tornarem marginalizadas. Como empregadoras de pessoas de diferentes etnias e grupos religiosos, como marqueteiros para os clientes de diferentes etnias e como membros de comunidades multiétnicas, as empresas podem desempenhar uma importante missão, seja amenizando tensões baseadas em identidades, seja ajudando a reduzi-las ao valorizarem a diversidade étnica e a tolerância.

No conflito de Chiapas, no México, por exemplo, a globalização econômica e a ameaça que ela representa às identidades locais e à sobrevivência econômica resultaram no apoio da população indígena ao Exército de Libertação Zapatista. Como exemplo de uma abordagem criativa no uso das forças de mercado para amenizar o conflito na região, a Companhia Comercial Azteca produz uma linha de salsas e toalhas exóticas feitas de matéria- prima fornecidas por cooperativas indígenas, o que inclui sete tribos, antes rivais na guerra que abalou a região. A cooperação floresceu no que teria permanecido como uma situação dividida e adversa.

Há cada vez mais casos para as empresas analisarem e, baseadas neles, agirem na prevenção e resolução de conflitos. Além dos custos diretos de se envolver em conflitos violentos, as empresas enfrentam custos de reputação e de consultoria jurídica internacional cada vez maiores, pelo fato de serem cúmplices nessas situações e de violações dos direitos humanos. Muitas empresas se sentem melhor em sociedades pacíficas e estáveis e, assim, têm um interesse comercial — e um imperativo moral — de auxiliarem na construção dessas sociedades e de criarem valor tomando medidas proativas.

Definitivamente, o desafio diz respeito a lideranças baseadas em valores em todos os níveis da empresa e da sociedade. A questão sobre uma companhia contribuir para o conflito ou ajudar a preveni-lo depende dos valores, das políticas e das diretrizes operacionais da empresa e da forma como seus empregados e parceiros as aceitam, interpretam-nas e as implementam. O mesmo pode ser dito da sociedade como um todo. Desenvolver futuros líderes capazes de construir a paz e a prosperidade em um mundo complexo é provavelmente o maior desafio que será enfrentado no século XXI. É um desafio que os governos, a sociedade civil e o mundo corporativo precisam direcionar, individualmente e como parceiros.

O exemplo da PeaceWorks
A Peaceworks é um exemplo de empresa americana cujos objetivos é maximizar o retorno econômico e promover a cooperação nas regiões em conflito em todo o mundo. Ela estabelece parcerias entre povos de diferentes retrospectos, geralmente conflituosos, em condições onde essa união seria normalmente impossível. Essas parcerias produzem O exemplo da PeaceWorks alimentos e outros bens de grande qualidade para revenda nos Estados Unidos.
Desde seu estabelecimento em 1994, a empresa já criou uma rede internacional de distribuição entre oito setores alimentícios, trabalhando com mais de 50 distribuidores e alcançando mais de 50 mil revendas.
A teoria da Peaceworks de criar a cooperação nos negócios entre ex-adversários e pessoas de diferentes histórias opera em múltiplos níveis: no âmbito pessoal, à medida que as pessoas interagem diariamente; no âmbito dos negócios, à medida que as parcerias se realizam, lucram juntas e se interessam em preservar e consolidar esse relacionamento próspero; e, no desenvolvimento econômico da região, à medida que as pessoas e governos se encorajam para continuar os esforços pela coexistência.
Daniel Lubetzky, fundador e presidente da Peaceworks, resume seu negócio: “Se um número suficiente de pessoas aposta na cooperação, e há exemplos suficientes dessas parcerias, então um grande número de pessoas pode ser alcançado, e elas poderão ser os guardiões da paz.”

Jane Nelson é diretora da Iniciativa da Responsabilidade Social Corporativa da Escola de Governo John F. Kennedy. É autora e co-autora de vários livros, incluindo Profits with Principles (com I. Jackson) e The Business of Peace: Business as a Partner in Conflict Resolution, publicado pelo Fórum de Líderes Empresariais “Príncipe de Gales” e pelo Conselho de Prioridades Econômicas e Alerta Internacional.


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