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Negócios criativos
Dylan Scudder
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Considerando o mundo empresarial como mais do que simplesmente um meio de vida, muitos hoje se perguntam como equilibrar trabalho e qualidade de vida. Mais e mais pessoas em ambos os lados do Equador começam a explorar meios para isso, integrando questões sociais e ambientais a seus trabalhos. |
Entretanto, o que muitos estão descobrindo é que buscar qualquer coisa além dos lucros geralmente conflita com a cultura corporativa. O que estão descobrindo é que as corporações, amparadas nos compromissos financeiros limitados, não estão destinadas legalmente a colocar o bem público antes dos interesses dos acionistas. Tornar esses interesses competitivos mais adequados melhoraria nossa qualidade de vida?
Na maior parte de nossa história humana, as pessoas tiveram poucas alternativas sobre o tipo de trabalho em que atuavam. Mais freqüentemente, assumiam o trabalho dos pais, tornando- se fazendeiros, pastores ou artesãos. Isso começou a mudar por volta de 1500 na Europa, quando os jovens começaram a deixar as fazendas e ir para as cidades. As pessoas podiam, então, escolher seu trabalho, uma tendência que se tornou cada vez maior.
De forma geral, podemos dizer que hoje há três maneiras de se considerar o trabalho de uma pessoa: como um emprego que oferece dinheiro; como uma carreira que oferece dinheiro e posição social; ou como uma vocação, em que se busca um senso mais profundo de realização ao se relacionar o trabalho pessoal a um propósito maior, como a redução da pobreza no mundo ou o aquecimento global. Será que as pessoas conseguem melhorar sua qualidade de vida aproximando
mais seu trabalho atual ou carreira
a um chamado, assumindo
o desafio de superar as contradições inerentes ao modelo corporativo?
Uma resposta criativa
De acordo com o conhecido historiador britânico Arnold Toynbee, é a habilidade de uma civilização em criar respostas criativas aos desafios que a ameaçam sua existência que a capacita a se desenvolver e florescer. Um exemplo foi a mudança regional dos padrões de chuva no Egito, no século IV a.C. Com menos chuvas, o estilo de vida dos caçadores e pastores da região não poderia sobreviver por muito tempo. Aqueles incapazes de se adaptar pereceram. Outros migraram e permaneceram caçadores e pastores. Uns poucos, a “minoria criativa”, permaneceram e desenvolveram meios de irrigação do Nilo, permitindo o comércio agrícola e o nascimento da civilização egípcia.
Hoje, o Programa do Meio Ambiente das Nações Unidas relata que, atualmente, uma área ou uma floresta do tamanho de um campo de futebol é destruída a cada segundo, enquanto a temperatura do planeta continua a subir. A conscientização quanto a esse fato levou muitas empresas e pessoas a trabalharem para alcançar o “vestígio zero”, o que significa encontrar meios de conduzir seus negócios sem prejudicar o ambiente e as pessoas.
Muita dessa criatividade se reflete na habilidade de ouvir as vozes dos chamados participantes silenciosos, como as gerações futuras e o meio ambiente, vendo de onde vêm os produtos para saber que tipo de impacto em longo prazo eles terão na sociedade. Aqueles bem-sucedidos no lançamento de atividades baseadas nessas percepções podem muito bem ser considerados a minoria criativa de hoje.
Perspectivas iniciais
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As contradições éticas entre lucro e bem público vêm sendo analisadas de forma diferente dentro de contextos culturais e religiosos específicos. A tradição islâmica, por exemplo, assim como muitas outras tradições, desaprova os juros. O acúmulo de riqueza ociosa também é penalizado com a cessão de parte da riqueza (zakah) ou se encorajando o reinvestimento, especialmente para o aumento do nível de emprego. |
No Oriente, Confúcio advertia que o comportamento voltado para o lucro destruiria a harmonia social, enquanto que o conceito budista do direito ao sustento simplesmente recomendava trabalhar em algo que não prejudique os outros. No entanto, foi a partir da tradição européia ocidental que surgiu o modelo de mundo corporativo predominante hoje.
Os filósofos socráticos Platão e Aristóteles desenvolveram um sistema analítico para o ainda contínuo debate ético sobre como viver uma vida de virtude. Após a queda do Império Romano, o frei dominicano Santo Tomás de Aquino, baseando-se fortemente em Aristóteles, começou a escrever sobre a possibilidade de se atingir a felicidade antes da morte. Embora o discurso incluísse lucros, ética e felicidade, como tornar essas questões mutuamente estimulantes não se tornou um tema de discussão.
Durante a Renascença, os estudos acadêmicos vieram a se caracterizar como uma fonte alternativa, além da Igreja, de inspiração moral. O iluminismo do século XVIII trouxe consigo Adam Smith, que explorou em sua famosa obra A Riqueza das Nações como uma sociedade comercial pode prosperar, muito embora os indivíduos busquem seus próprios interesses pessoais. O brado de guerra da época era atingir “a maior felicidade para o maior número”.
Restrições materiais
Se o único propósito de nosso trabalho é ganhar dinheiro ou status, então, a vida se torna algo que passa sem notarmos, enquanto nos sacrificamos no escritório. Isso sem mencionar que as pessoas pobres se mostram menos miseráveis quando seus rendimentos aumentam, mas a extensão em que a riqueza causa a felicidade é surpreendentemente pequena. Pesquisas indicam que tão logo algumas necessidades básicas sejam atendidas, o indivíduo atinge um patamar, seguido de uma diminuição progressiva na satisfação, apesar do aumento do consumo. As pessoas ficam presas no que os psicólogos Philip Brickman e Donald Campbell cunharam como “empenho excessivo e hedônico” suas expectativas aumentam com sua renda, e a satisfação a que eles ansiavam permanece sempre além de sua compreensão.
À medida que realizamos progressos sucessivos reformulando os nossos negócios diários para nossos interesses pessoais, não há falta de causas para se escolher, e elas estão sempre inter-relacionadas. Atualmente, por exemplo, mais da metade do mundo é obrigado a subsistir com menos de dois dólares por dia. Privar as pessoas de suas necessidades humanas básicas aumenta a possibilidade de conflito, o que pode gerar violência em larga escala. Apesar disso, embora uma pequena elite esteja avançando nos mercados financeiros, os atuais sistemas de comércio internacional estão estruturados para excluir os países pobres do acesso aos seus mercados.
Rompendo as barreiras
Independentemente de onde estejam, as pessoas hoje ingressam no mundo dos negócios sabendo, ou logo aprendendo, que a qualidade de vida não pode ser melhorada apenas se perseguindo os ganhos financeiros em prol dos ganhos financeiros. Conquistar um senso de realização mais profundo que surge do desenvolvimento do próprio potencial é o empreendimento de toda uma vida. O mundo dos negócios pode auxiliar esse objetivo se se juntar à criatividade que integra o bem público com atividades empresariais financeiramente sustentáveis. Para alguns, transformar o trabalho pessoal em um chamado pode ser iniciado tentando- se “não prejudicar” em qualquer instância: por exemplo, usandose ambos os lados de uma folha de papel. Para outros, pode significar estabelecer uma parceria com uma organização da sociedade civil ou até mesmo um novo empreendimento social.
Assim como a minoria criativa do milênio anterior, também nos deparamos com desafios ameaçadores, como a violência, degradação ambiental e mudança climática relacionada aos recursos naturais. Uma vanguarda de pioneiros de todos os modos de vida está se formando, pessoas com uma vasta bagagem de habilidades nos negócios, que estão desenvolvendo seus próprios meios criativos para superar as contradições entre interesses dos investidores e outros mais amplos. Nossos esforços para produzir respostas criativas podem colocar em ação nossa própria “Renascença”, fazendo evidenciar o Da Vinci ou o Galileu dormentes em nós. Dadas as horas que passamos no trabalho e os impactos de longo alcance que nossas decisões de consumo têm sobre as pessoas de todo o mundo, regular os negócios para atingirem “a maior felicidade para o maior número” pode realmente fornecer meios promissores para melhorar a qualidade de vida, tanto a nossa quanto a da sociedade como um todo.
Dylan Scudder é editor convidado desta edição da SGI Quarterly. Ele é mestre em Estudos de Conflitos e já trabalhou na Europa e nos Estados Unidos, incluindo vários anos em consultoria de agências das Nações Unidas. Atualmente, ele vive em Tóquio, onde presta consultoria em responsabilidade corporativa e trabalha com empresas transnacionais, buscando negócios sustentáveis em países emergentes. |