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Janeiro / Março
2007

Educação e Arte
A alegria da dança


Keka Sinha é uma renomada dançarina de Kathak nascida em Mumbai, Índia. Ela começou a praticar esse estilo de dança aos 5 anos de idade. Kathak é uma dança clássica do norte da Índia que se originou como uma forma de contar histórias religiosas. Maxine Sherman foi dançarina principal no Alvin Ailey American Dance Theater, de 1978 a 1984, e dançarina principal na Companhia de Dança Martha Graham de 1984 a 1993, ambas companhias de dança moderna de renome mundial. Ela mora em Nova York.

A dança é simplesmente uma forma de entretenimento? Por que os seres humanos dançam?

Keka: A dança sem dúvida não é somente entretenimento. A dança teve início antes mesmo de as pessoas se comunicarem por meio da fala.

É uma forma de expressar sua alegria interior, e foi assim que evoluiu. A dança envolve o desenvolvimento de toda a nossa personalidade e produz um despertar espiritual em cada um de nós. É uma terapia para a mente e para o corpo.

Creio que sem uma filosofia sólida e um mestre da vida, é muito difícil desenvolver as qualidades de um bom dançarino. Mesmo que uma pessoa não se torne uma artista, todos os aspectos que envolvem o aprendizado da dança contribuirão para a sua vida.

Por meio da dança, uma pessoa pode transmitir vários tipos de conhecimento a outras de maneira simples e atrativa. Histórias de nossa história e mitologia; todas elas podem ser apresentadas pela dança. A dança serve também como um meio de comunicação que ultrapassa as barreiras das línguas. Pessoas como nós que optaram pela dança como profissão, fizeram essa escolha por pura paixão e amor, pois não é uma profissão muito lucrativa, pelo menos na Índia. Para mim, uma vida sem a dança e inimaginável. É muito gratificante poder expressar meus pensamentos, minhas emoções por meio de algo que amo.

Maxine: A dança e uma profunda comunicação do corpo. Eu a vejo como nossa “alma” ou nossa natureza do estado de Buda, expressando-se por meio deste veículo que é o corpo. Há esse maravilhoso potencial do corpo de se mover de uma maneira que é possível transportar nosso espírito pelo Universo!

Como tenho uma visão aguçada, consigo dizer como a pessoa esta se sentindo somente pela postura dela, pela maneira como pega um pedaço de papel. Há tanta linguagem no modo como nossos corpos percorrem o espaço, na maneira como nos conduzimos, quer as pessoas acreditem ou não.

Mesmo que internamente você sinta vontade de esconder, será revelado num piscar de olhos. Por isso eu vejo a dança como a realidade e a verdade da nossa vida.

A dança nos conduz para uma jornada por lugares diferentes — um lugar especial, mágico e pessoal que nenhuma outra pessoa conhece. Conforme Martha Graham dizia, “há somente uma única pessoa como você neste mundo, portanto, realize seu potencial”. E é exatamente isso que o presidente da SGI, Daisaku Ikeda, e Nitiren dizem. A vida é tão preciosa, este momento é tão precioso, desfrutem-no ao máximo, e isso não significa ficar sentado assistindo televisão!

Quando sentamos por muito tempo, morremos! Temos de desafiar a nós mesmos fisicamente, pois somos muito afortunados por termos nascido como seres humanos. Temos de usar nossa voz e corpo.

Como o budismo influenciou sua vida como dançarina e coreógrafa?

Keka: Como dançarina, obtive força para acreditar em mim mesma e ter uma mente aberta, apreciar o trabalho das outras pessoas e transformar os meus defeitos. Como coreógrafa, o budismo fez com que eu refletisse mais profundamente sobre meus conceitos. Eu utilizava lendas populares e histórias, mas depois que me tornei budista, senti que tinha uma missão de transmitir algo mais profundo.

Minha última produção mostra como nós mesmos somos os responsáveis por tudo o que nos acontece, embora geralmente atribuamos a causa a fatores externos. Ela combina episódios da mitologia hindu, Shakespeare e outras fontes.

Maxine: Minha própria experiência como budista proporcionou uma profunda transformação em meu conceito sobre o que é ser uma artista. Ser uma ótima artista é somente metade da batalha. Além disso, você realmente tem de transpor sua negatividade e ser cordial e generosa, tentando encontrar a felicidade fora de seu campo de trabalho, fora do estúdio e do palco. E agora que estou na fase de deixar a dança em função da idade, pois já não danço como costumava, é um processo contínuo para estar ciente de que sempre serei uma dançarina em meu coração. É como a flor de lótus: em certo momento é preciso suspendê-la um pouco sobre a água lamacenta. Você está desabrochando, mas não significa que será sempre um botão.

Para você, qual é o maior desafio para uma dançarina?

Keka: O maior desafio é continuar sendo uma artista, manter o vigor e estar sempre à disposição conciliando as responsabilidades familiares. Outro desafio que todos os dançarinos enfrentam é financeiro, uma vez que os dançarinos clássicos geralmente não são bem pagos. Atualmente, a dança clássica é menos apreciada, há mais interesse pela dança no estilo de Bollywood.

Maxine: Para mim o momento é de transição. Não se pode dançar profissionalmente para sempre. Quando não há mais alegria e torna-se algo doloroso, é hora de parar. Martha Graham sempre dizia: “O corpo nunca mente”. Embora tenha amadurecido como uma dançarina e desenvolvido uma relação entre corpo e mente, após os 35 anos se torna muito mais difícil dançar em tempo integral. Oro para manter a alegria do movimento em todas as ocasiões, e para nutrir minha relação com a dança mesmo que não dance regularmente, como fazia em todos os momentos desde que era jovem. Agora quero ser uma mulher maravilhosa e uma boa mãe. Há tantas outras coisas que precisamos fazer para nos tornarmos uma pessoa completa. Quero continuar a ensinar sobre a alegria da dança e ajudar as pessoas a descobrir o potencial de seus próprios corpos. Continuo orando sobre como posso prestar uma contribuição às artes.

O ego pode ser um fator restritivo para uma dançarina? Ele tem seu papel?


Maxine: Nas artes, há tão poucas oportunidades de ter êxito e ser compensada financeiramente. Uma dançarina deve ter uma segurança enorme e ego para ser visto e destacar-se diante de outros artistas.

Ao mesmo tempo, há uma enorme parcela de insegurança, pois o seu lado negativo geralmente diz que você não é bom o suficiente.

Keka: O ego é importante para qualquer artista. Consciente ou inconscientemente, um artista sempre busca admiração. Entretanto, às vezes, um ego inflado pode impedir a pessoa de corrigir seus próprios erros e também prejudicar a habilidade de trabalhar em grupo.

O que caracteriza uma boa dançarina?

Maxine: Na minha opinião, o que faz uma dançarina sobressair-se sobre a outra é revelar seu verdadeiro ser, sem contar somente com a técnica. Uma dançarina não deve recear captar a magia do momento e se deixar conduzir por sua interpretação e coreografia. Em outras palavras, não deve se ater demais a regras em sua técnica. Deve-se trabalhar sua técnica, mas deixá-la fluir desfrutando a magia do momento.

Keka: Uma boa dançarina necessita autodisciplina, capacidade de trabalhar arduamente e perseverar, ter um bom relacionamento com as outras integrantes da companhia e tentar se aprimorar continuamente. O mais importante é que uma dançarina deve respeitar seu professor ou mestre e expressar amor e carinho por seus alunos. Sem uma relação de mestre e discípulo, uma dançarina não consegue avançar na vida.


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