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Outubro
2006

Destaque
Modos humanos de competição
Andrew Gebert

A competição é a realidade dominante no mundo em que vivemos. Em cada campo de empreendimento, as pessoas se empenham, conscientes de quem segue na frente e quem fica para trás. Entre as sociedades e entre as diferentes partes do globo, a competição — a maior parte dela grotesca, injusta — joga os indivíduos e os povos uns contra os outros. Conceitos universais, a paz compete com a guerra, a igualdade com a exploração e a sustentabilidade com o consumo desenfreado.

Realidades semelhantes estavam bem claras na visão de Tsunessaburo Makiguti, presidente fundador da Soka Gakkai, quando ele escreveu A Geografia da Vida Humana, publicado em japonês em 1903. Nos capítulos finais de seu livro, ele oferece uma história social da competição.

“O mais antigo e primitivo modo de competição, de acordo com Makiguti, é a militar.”

O mais antigo e primitivo modo de competição, de acordo com Makiguti, é a militar. À medida que a organização social se desenvolvia de forma mais sofisticada, ela foi suplantada pela rivalidade política, o que ele considerava como baseada no efetivo exercício da coragem mental em oposição à coragem física. Na sua época, ele via a competição política dando lugar à econômica, marcada pela luta para se ter acesso aos mercados e às matérias-primas.

Embora Makiguti tivesse descrito esses diferentes modos de competição como uma espécie de evolução, ele claramente não a considerava uma linha direta de progressão. De fato, Makiguti estava consciente de que, de muitas formas, a competição econômica — sendo ampla, aberta e inconsciente — podia causar impactos mais devastadores do que a competição militar. Nem ele esperava que uma mudança no modo de competição dominante significasse que as outras formas de competição fossem abandonadas. Ele compreendia, por exemplo, que a eclosão de uma competição militar permanecia uma possibilidade distinta, percepção que se tornou realidade uma década mais tarde, com o início da Primeira Guerra Mundial.

Mas o raciocínio de Makiguti não parou aí. Ele também oferece uma visão do que denomina competição humanitária (jindoteki kyoso), prevendo que essa seria a forma de competição dominante no futuro.

O poder do caráter

Makiguti descreve a competição humanitária como a realização de objetivos pela mobilização da “influência moral intangível”. Ou seja, o poder do caráter que temos condições de ver claramente funcionando em nossas interações sociais diárias.

Extrapolando, Makiguti declara que isso pode, sim, ocorrer, mesmo nas relações internacionais. Afirma ser possível conduzir todas as formas de competição de modo humano.

Mesmo assim, a própria idéia de competição humanitária pode soar como um conceito estranho. Como a competição pode ser humana?

Makiguti via a competição como uma fonte de energia e dinamismo. As pessoas geralmente se esforçam mais em uma competição real do que em um treino. A presença de um adversário e o senso de competição possibilitam acesso a níveis mais profundos de desempenho. O cotidiano está repleto de pequenos e grandes benefícios que surgem quando as pessoas se empenham para fazer o melhor em seus respectivos campos de atuação.

Mas quais são as condições que asseguram que a competição atuará dessa maneira, produzindo alegria em vez de simples ansiedade, crescimento mútuo em vez de uma rigorosa e definitiva eliminação dos “perdedores”?

Makiguti reconhecia a competição e a cooperação como conceitos idênticos e complementares.

A competição humana é imbuída de uma estrutura de cooperação inerente. Acordos sobre sistemas de regras e estruturas mantêm os competidores no mesmo nível, de forma que a interação, o estímulo mútuo e o aprendizado podem ocorrer ao mesmo tempo.

Finalmente, quando Makiguti fala de uma competição que exerça uma “influência moral intangível”, ele claramente está apontando para modos interiormente orientados de competição que são, em última instância, contra nós mesmos. Nossa plena excelência jamais poderá ser manifestada enquanto desejarmos que o outro corredor caia.

Hoje, as Ongs competem para administrar com sucesso seus projetos de desenvolvimento. Os governos competem nos esforços de auxílio emergencial, quase sempre utilizando as grandes habilidades organizacionais e de logística de seus militares. Da mesma forma, cada vez mais o mundo corporativo reconhece que um compromisso genuíno para com as questões ambientais e sociais é a chave para o sucesso.

Naturalmente, a competição não é uma cura para todos os males sociais nem é destrutiva ou maligna. É uma força poderosa enraizada na psique humana a qual podemos, por meio de escolhas sábias, aproveitar para a causa da felicidade humana.


Andrew Gebert é doutorando pela Universidade de Waseda, tradutor e pesquisador do Instituto de Filosofia Oriental, em Tóquio.


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