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Outubro
2006

Destaque
Futebol — a nova religião?
Eddy Canfor-Dumas

Futebol não é uma questão de vida ou morte — é muito mais importante que isso.” (Bill Shankly, ex-gerente de futebol do clube Liverpool.)

Em todo o mundo, bilhões de pessoas acompanham o futebol e centenas de milhares regularmente fazem sua peregrinação aos estádios.

Alguns clérigos da Grã-Bretanha começaram a se lamentar sobre o futebol se tornar a principal religião da nação. Ressaltam semelhanças preocupantes. O futebol, como a religião, envolve um elaborado conjunto de regras e ritos. Como a religião, o futebol reúne a comunidade em um ato comum de adoração, alimentando a necessidade por algo maior do que as pessoas estão acostumadas a encontrar no dia-a-dia. E, como algumas religiões, pode receber apoio por períodos longos, proveniente de algo pouco melhor do que fé cega.

Mas, por que o futebol é tão popular ao redor do globo — a ponto de desesperar todos aqueles que achavam que a Copa do Mundo jamais acabaria? E ele realmente ameaça se tornar uma nova religião?

A própria palavra “religião” pode fornecer uma pista. Imagina- se que derive do latim “religare”, “religar”. A religião é o que religa as pessoas tanto a alguma verdade transcendental como, fundamentalmente, uns aos outros. O historiador Arnold Toynbee argumentava que as civilizações surgiam e desapareciam de acordo com a habilidade de sua religião dominante motivar as pessoas a superar, juntas, os desafios que confrontavam.

“Mas, por que o futebol
é tão popular ao redor do globo —
a ponto de desesperar todos aqueles
que achavam que a Copa do Mundo
jamais acabaria? ”

O futebol certamente tem essa força de “religar”. Os times sempre são foco para a lealdade de uma comunidade — quer estejam recheados de estrelas estrangeiras, quer sejam formados apenas por amadores. Basta verificar como a “febre da Copa” arrebata uma pequena cidade quando o time local passa para a próxima fase de um torneio de play-off, ou como “a nação” se une pelo seu time em competições internacionais. Há poucos fenômenos sociais que partilham esse poder, tão dramaticamente ampliado pela televisão nos dias de hoje.

É claro que esse esporte também pode dividir as pessoas. O exemplo mais famoso é a conhecida Guerra do Futebol entre El Salvador e Honduras — uma guerra de cinco dias, em julho de 1969, que se supõe ter começado após um jogo classificatório para a Copa do Mundo entre esses dois países (na realidade, a guerra começou devido às objeções de Honduras quanto aos imigrantes de El Salvador). Temos ainda o exemplo dos hooligans entre as torcidas rivais — o racismo e a discriminação ainda assolam alguns clubes.

O ponto central permanece. A força do futebol de religar não pode mais passar despercebida por aqueles cujo trabalho é construir a paz. E há muitas iniciativas no estilo “Futebol para a Paz” em todo o mundo. Durante uma recente visita à sede da Fifa, o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, comentou: “Não consigo pensar em algo que una tanto as pessoas como o futebol. Vejo países separados pela guerra deixarem de lado suas diferenças para assistirem a uma partida de futebol. Durante 90 minutos, as pessoas se tornam uma nação.” De fato, esse esporte foi indicado para o prêmio Nobel da Paz por um político sueco.

O futebol “religa” não somente por ser um entretenimento e um jogo acessível, mas por algo nas próprias pessoas — um profundo desejo de agir por uma causa em comum, partilhar eventos emocionantes, experimentar juntos sucessos e fracassos na vida, representados pelas partidas esportivas. É o mesmo desejo, creio eu, que atrai as pessoas aos concertos, peças e — sim — certamente às religiões.

Como fã do futebol e budista, vejo muitos princípios budistas agindo em uma partida. “Muitos corpos com uma única mente” — uma equipe com indivíduos diferentes, com habilidades e funções variadas (muitos corpos), trabalhando unidos para um único fim. O poder do itinen — focar todo o desejo e determinação de uma pessoa para se alcançar um determinado resultado. E a necessidade vital da unicidade de mestre e discípulo — entre técnico e jogadores — para criar essa união e determinação. Talvez a famosa citação de Bill Shankly não esteja tão longe da verdade, afinal de contas.


Eddy Canfor-Dumas é autor de vários livros, entre eles The Buddha, Geoff and me. Também é um premiado roteirista de televisão cujos trabalhos incluem Not the Nine O’Clock News, The Bill e Supervolcano.


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