Destaque O direito de brincar no
Paquistão Farah Malik
O Direito de Brincar é uma organização internacional humanitária que usa os esportes e os jogos como uma ferramenta para o desenvolvimento de jovens afetados pela guerra, pobreza e outros desastres. No Paquistão, a Fundação Insan, uma organização de direitos das crianças, é a sua parceira local, e treina jovens afegãos a administrarem o projeto. Temos projetos em Quetta e em Peshawar, com 23 treinadores envolvendo 17 mil crianças. Trabalhamos em escolas para refugiados no Afeganistão e também cuidamos de crianças paquistanesas para promover a coexistência pacífica.
O maior problema que encontramos quando iniciamos os trabalhos em 2002 foi que o Afeganistão não estava pronto para aceitar o projeto de esportes e jogos. “Precisamos de alimentos, roupas e abrigos. Vocês estão nos oferecendo equipamentos esportivos e querem que nossas crianças brinquem, em vez de as ajudarem a sobreviver!” Foi um grande desafio convencer as pessoas que os esportes e jogos poderiam ajudar a desenvolver suas crianças.
“Nesse programa, eu percebo que a
capacitação das mulheres tem um
grande valor.”
Como as meninas paquistanesas são excluídas da correnteza da vida, nossa preferência são elas. No início, nós as envolvemos somente na educação, pois seus pais não querem que as crianças apenas brinquem e se dediquem a atividades esportivas. Hoje, 70% das crianças em nosso programa são meninas.
Nossas treinadoras vão de porta em porta para convencer os pais, e especialmente as mães. A parte mais atrativa é que eles se certificam de que suas filhas se tornam mais ativas nos trabalhos domésticos.
Inicialmente, as meninas foram envolvidas em atividades esportivas em ambientes fechados e depois nos esportes propriamente ditos — badminton, voleibol e críquete. Então, em dezembro de 2005, elas jogaram contra os meninos. Esse foi um grande momento!
Nós só introduzimos a idéia de meninas e meninos jogando juntos dois anos e meio depois, quando a comunidade já havia adquirido confiança nos treinadores.
O programa também mudou a vida dos treinadores. Um deles, por exemplo, era muito rigoroso, rígido, não era muito a favor de esportes e jogos, especialmente para meninas.
Ele ensinava em uma escola afegã em Peshawar e costumava bater nos alunos. Esse treinador mudou totalmente e apresentou muitos jovens ao programa. Ele nos disse que as meninas em sua família haviam sido destinadas à venda quando chegassem aos 14 ou 15 anos. Ele agora se levantou contra essa tradição. Nenhuma menina em sua família tinha recebido educação antes, mas ele então ia contra seu pai para que sua irmã pudesse ir à escola.
Entre as crianças, há uma jovem garota cuja face foi desfigurada por um incêndio na guerra do Afeganistão. Seus pais a mantinham escondida. Uma das treinadoras, de porta em porta, conheceu seus pais e os convenceu de que, se a enviassem para a escola, ela seria mais confiante, e garantiu que ninguém zombaria dela. A garota é muito inteligente e hoje participa de atividades esportivas. Sua mãe afirma que isso mudou a vida dela.
Nesse programa, eu percebo que a capacitação das mulheres tem um grande valor. E outro valioso benefício é que as garotas aprendem sobre saúde e nutrição.
Promovemos enfaticamente os valores da paz e da harmonia entre as crianças e na preparação dos treinadores. A sociedade afegã é dividida em muitas tribos e seitas, e alguns acreditam serem superiores aos outros. Essas indisposições são transmitidas de geração a geração. O que fazemos é formar times com crianças de diferentes tribos. Sempre que um vence, é obrigatório que o outro parabenize os vencedores e lhes deseje boa sorte. Temos observado grandes transformações nas crianças. E elas mudam seus pais. Quando os pais vêem seus filhos jogando juntos, percebem como é fútil guardar rancores do passado.
Artigo adaptado de uma entrevista com Farak Malik, diretora do programa Direito de Brincar no Paquistão.
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