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Outubro
2006

Destaque
Esporte e desenvolvimento
Amir S. Dossal

Os esportes oferecem inúmeras oportunidades de parcerias inovadoras e de trabalho em conjunto por um mundo melhor.

Torna-se cada vez mais claro que precisamos encontrar soluções significativas para lidarmos com os desafios da pobreza e defendermos uma coexistência pacífica. O esporte é uma língua internacional. Sua habilidade de mesclar culturas possibilita programas ligados a esportes com o objetivo de amenizar as cisões sociais e étnicas. Como resultado, o esporte pode ser uma poderosa ferramenta na promoção da paz, tanto simbolicamente, em escala global, como de forma mais prática, dentro das comunidades.

A força do esporte pode ser usada como uma ferramenta para se evitar conflitos, bem como um elemento para a construção de uma paz sustentada. Quando aplicados efetivamente, os programas esportivos promovem a integração social e criam tolerância. Particularmente em ambientes pósconflitos, as atividades esportivas podem auxiliar a redução das tensões e gerar o diálogo. Os esportes geralmente são proibidos em épocas de instabilidade, mas mesmo assim, proporcionam uma sensação de normalidade, especialmente entre os jovens. Os programas esportivos podem propiciar ainda uma estrutura em um ambiente desestabilizado e servir como um meio para se canalizar energias livres da agressão e da autodestruição. Entidades como o Unicef e o Acnur estão integrando os esportes a outras atividades recreativas em programas de alguns países, reconhecendo que eles são componentes vitais para a saúde das crianças e para um desenvolvimento holístico. Aqui estão alguns poucos exemplos de parcerias bem-sucedidas das Nações Unidas.


Meninos jogando futebol em South Darfur, Sudão.
O projeto Futebol para a Paz é uma aliança entre o Acnur, a sociedade civil, o governo e o setor privado. Espaços públicos estão sendo reabilitados e transformados em campos de futebol para promover a tolerância e a resolução de conflitos. Em prol da igualdade de gêneros, meninos e meninas jogam no mesmo time. Não são computados gols a menos que uma menina tenha tocado a bola. Mais de 20 mil crianças e adolescentes e 5 mil treinadores em 50 municípios participam do projeto.

Em Ruanda, a educação para a paz e a prevenção da aids são ensinadas por meio dos esportes e da educação física nas escolas de ensino fundamental. Os professores utilizam um guia abrangente que demonstra como incluir a educação para a paz em aulas de educação física, como direcionar a violência e os conflitos nos esportes e desenvolver habilidades nos estudantes. Mais de 500 professores já foram treinados para usar o guia e há planos de expansão.

Os programas esportivos também podem ser utilizados como uma atividade positiva e produtiva para refugiados e pessoas internamente deslocadas, amenizando os problemas que enfrentam, como a violência, o acesso limitado à educação e as estruturas familiares rompidas. O esporte é utilizado como uma forma de unir os refugiados e as comunidades que os hospedam.


Um programa recreativo
para crianças em risco
no Brasil.

As crianças-soldado são arrancadas de suas comunidades e estruturas sociais e experimentam uma brutalidade extrema. O processo de sua desmobilização e reabilitação é difícil e extremamente delicado, requerendo cuidados físicos, psicológicos e psicossociais, bem como oportunidades para desenvolver as habilidades necessárias para a vida adulta. Os programas esportivos podem oferecer um espaço para a recreação, ao mesmo tempo em que fornecem um canal para liberar a ira e controlar a agressão. Os esportes também podem criar um sentimento de pertencer a algo, o que é essencial para o seu efetivo envolvimento. Em Serra Leão, o Unicef tem uma parceria com a Ong Direito de Jogar, que incorpora o esporte e a recreação em seu programa Reintegração Baseada em Comunidades.


Um evento esportivo, por si só, jamais acabará com uma guerra ou trará a paz. Mas é um método para se empreender um primeiro passo nesse sentido.

Amir Dossal é diretor-executivo do Escritório das Nações Unidas para Parcerias Internacionais (Unfip), que promove alianças em acordo com os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e apóia novas iniciativas da Secretaria-Geral. Em 2004, essa secretaria encarregou a Unfip de apoiar o consultor especial sobre Esporte para o Desenvolvimento e a Paz, promovendo projetos de entidades das Nações Unidas com parceiros no mundo dos esportes.


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