SGI Quarterly: Qual foi
o seu maior desafio na
vida?
Henry Wanyoike: Para
mim, o maior desafio foi
ter nascido e sido criado
numa família pobre. E as conseqüências disso têm sido muito difíceis. Como deficiente, ser aceito na sociedade não é fácil. Mesmo tendo quatro recordes mundiais, tem sido difícil convencer as pessoas de que eu as estou promovendo, e também não é fácil comprar tênis ou qualquer outro material esportivo. Viajar fora da minha região também é difícil porque as estradas não são boas. E treinar... eu preciso parar quando chove porque fica muito escorregadio e lamacento.
SGIQ: Soube que você perdeu a visão repentinamente devido a uma infecção viral.
HW: Perdi minha visão em 1995. Antes disso, eu era bom no atletismo e costumava representar minha escola nos campeonatos nacionais no Quênia e conquistei troféus e certificados. Meu maior sonho era ser campeão e colocar o Quênia no mapa do mundo esportivo. Mas depois que perdi minha vista, ninguém acreditava que eu poderia continuar a correr.
Eu parei de 1995 a 1999. Então, ingressei em um centro de reabilitação e percebi que mesmo pessoas com deficiências podem realizar grandes coisas. Um dos meus treinadores falou: “Henry, você me disse que era muito bom no atletismo. Não queremos que você fique sentado em cima de seu talento." Perguntei como poderia correr
se não conseguia enxergar onde pisava, ou onde estava indo. Mas ele me ensinou como correr com um guia. Estou cheio de cicatrizes nas mãos, pernas e rosto de tanto cair, mas jamais parei, jamais desisti, porque realmente queria ser um campeão. Há um custo para tudo. É isso o que eu acredito. Nada vem facilmente. É preciso suar, é preciso lutar para chegar. Sempre acreditei que o sucesso ou fracasso de uma pessoa é resultado de seus próprios esforços.
“Quando estou correndo, não penso muito na minha cegueira. Até chego a celebrá-la.” |
SGIQ: Você ainda se sente assustado quando corre?
HW: Quando estamos correndo e o percurso é cheio de desníveis ou buracos, fico receoso porque sinto que posso cair. Se eu não confio no meu guia, não posso correr. Ele tem um papel muito importante. Assim, acredito que estou em mãos seguras, com alguém que é responsável, muito gentil e muito paciente.
SGIQ: Li a respeito da história dos Jogos Paraolímpicos de Sydney, quando seu guia não podia continuar e você teve de arrastá-lo até o fim.
HW: Meu guia não estava capacitado para correr, pois se recuperava de malária. Mas eu lhe dizia: “Não, não... Podemos conseguir”. Eu o incentivava para chegar até a final. E de fato, apenas deixei de estabelecer o recorde mundial... Essa foi a minha primeira competição internacional, por isso, não foi fácil para mim. Naquela época, eu não sabia como escolher o melhor guia. Todos estavam me incentivando, dizendo- me que direção seguir, pois o meu guia não conseguia. Assim, eu ouvia os espectadores gritando: “Henry, Henry, Henry! Vire à direita, vire à esquerda. Vá em frente.”

Vitória em Sidney contra todos os prognósticos. |
SGIQ: O quanto é importante para você vencer?
HW: Eu acredito que tenho de vencer devido ao treinamento que empreendo todos os dias. Tenho de ser bem disciplinado, acordar cedo todas as manhãs, correr duas ou três horas, e algumas vezes corremos de bicicleta mais de 60 km por dia, e depois à noite, correndo e treinando. Vencer, para mim, significa muito, como ver os frutos de um trabalho árduo. Se você trabalhar duro, sempre obterá uma recompensa. É nisso que acredito. |
SGIQ: Você encorajaria as pessoas deficientes, com depressão ou outros problemas a continuarem correndo?
“Quando você termina uma maratona, ganha mais coragem e confiança do que qualquer coisa na vida.” |
HW: Acredito que correr, como todos os outros esportes, pode fornecer encorajamentos e evitar que se pense muito nos problemas. Quando estou correndo, não penso muito na minha deficiência visual. Até chego a celebrála. Sempre vejo o sucesso. Todo ano comemoro dois aniversários, o meu verdadeiro e o dia em que perdi minha vista e comecei uma nova vida. Para as pessoas deficientes, se você se sentar e disser que não conseguirá, então, não será aceito completamente na sociedade porque não estará mostrando o que é capaz de fazer. Quando você está envolvido nos esportes, é mais fácil convencer as pessoas sobre o que elas podem fazer na vida. Por exemplo, transformei a vida de muitas pessoas no Quênia com as minhas corridas. E agora, a sociedade está aceitando pessoas deficientes no país graças ao que elas estão me vendo fazer. A Lei dos Deficientes já foi aprovada pelo parlamento e eu estou muito feliz com isso. Chegou a época das oportunidades, não da simpatia. Precisamos mostrar ao mundo que a deficiência não é inabilidade. Somos capazes de muitas coisas.
SGIQ: Soube que agora você está trabalhando para competir no triatlon.
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HW: Sim. Sempre quero ter desafios em minha vida. E agora, estou tendo aulas de natação. Acho que após o triatlon irei direto para o Ironman. Quero mostrar que somos muito capazes. Quero mostrar que, se consigo praticar esportes, então uma outra profissão também será fácil para mim. |
Quando você termina uma maratona, ganha mais coragem e confiança do que qualquer coisa na vida. Eu comparo a vida a uma maratona. Há sempre altos e baixos e também muitas curvas — é um caminho longo. Jamais devemos desistir. E devemos seguir em nosso próprio ritmo. Também acredito em retribuir à comunidade. Agora estamos levantando fundos para que pessoas com catarata e problemas nos olhos possam passar por cirurgias. Mais de 20 mil casos já foram atendidos — pessoas que hoje enxergam em vez de ficarem cegas a vida inteira. Quero mostrar que elas são abençoadas. É sempre bom abrir o coração e se lembrar daqueles que ainda não realizaram seus sonhos.
Também trabalho com plantio de árvores pelas escolas. Chamo isso de “crianças com árvores”. Estou encorajando todas as escolas no Quênia, cada criança, a plantarem árvores. Até agora, já plantamos mais de 100 mil árvores.
O corredor queniano Henry Wanyoike conquistou medalhas de ouro nos Jogos Paraolímpicos de Atenas nos 5 e 10 mil metros, estabelecendo dois novos recordes mundiais. Em 2005, foi a vez dos recordes mundiais na maratona para deficientes visuais, duas vezes, num período de oito dias, em Hamburgo e Londres. |