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Outubro
2006

Destaque
Espelho do Coração
Kouichi Oguruma

A sociedade japonesa está mudando, tornando-se mais competitiva e mais orientada para o desempenho. Costumava ser suficiente apenas tentar, fazendo algum esforço. Mas, hoje, a questão é o que você consegue com seus esforços. A menos que produza resultados, ninguém mais ficará impressionado apenas com os esforços.

Isso é algo que um lutador de sumô entende muito bem.

Durante um torneio de sumô, em qualquer dos dias de competição, metade dos lutadores são eliminados, e não importa o quanto tenham se esforçado. Mas não basta pensar que se esforçou muito e que, portanto, não há problema em perder, ou que não é preciso ter remorsos.

Pode ser verdade que haja algum significado em perder, mas somente se isso for o estímulo que o deixará mais determinado a vencer da próxima vez. O desejo de vencer surge de seu profundo remorso por ter perdido, apesar de ter feito o melhor.

Quando eu lutava sumô, sofri por duas vezes sérias contusões nos joelhos. Em ambas as vezes, machuquei-me às vésperas de ser promovido para a categoria de ozeki, ou campeão, a segunda mais alta que um lutador de sumô pode alcançar. E, nas duas ocasiões, os médicos me disseram que provavelmente eu não conseguiria retornar mais ao tablado.

A primeira dessas contusões foi o inferno para mim. Se alguém tentava me encorajar, eu tomava isso como uma ofensa — como eles poderiam saber como eu me sentia?

Minha contusão era o resultado de eu ter me esforçado ao máximo, mas isso era irrelevante: ter de me retirar de um torneio era o mesmo que perder. Se você cai em um torneio, sua classificação e seus rendimentos, ambos, caem. É uma situação difícil.

Tudo o que eu sentia naquela ocasião era que não havia significado em me desculpar. Tudo o que eu sabia era que tinha de encontrar um jeito de superar aquilo.

Mais tarde, eu me levantei e comecei a treinar novamente, reconstruindome a partir do zero. Na época em que eu voltei a treinar, minha visão de mundo mudou completamente.

“Coração, técnica e psique”

Antes, o sumô era algo árduo para mim. Eu não gostava de subir no ringue. Mas o que eu havia compreendido era que seria mais difícil ainda se eu não lutasse. Seria muito mais devastador. Quando voltei novamente ao ringue após minha recuperação, senti um senso de completude. Percebi que estava feliz em poder lutar.

“se seu coração está no local certo,
você sempre poderá alcançar a técnica
e a psique depois.”

Quando me contundi pela segunda vez, afundei também, mas não houve aquele sentimento de desespero. O que eu sentia era uma determinação absoluta em me recuperar e que, não importando quantas vezes caísse, tinha de continuar e me levantar. Eu não tinha medo.

Independentemente de quantas razões houver para perder, acho que sempre há mais potencial dentro de nós e que ainda não manifestamos. Tudo o que temos de fazer é encontrá-lo e usálo ao máximo. Embora tenha sido um longo processo de tentativa e erro, desenvolvi um estilo de sumô que me possibilitou vencer, apesar dos meus problemas recorrentes nos joelhos.

Após me recuperar de minha segunda contusão, finalmente ganhei meu primeiro torneio, e finalmente havia sido promovido para a categoria de ozeki. Mais tarde, ganhei um segundo torneio (normalmente há apenas dois ou três lutadores de sumô ativos na categoria ozeki e poucos na categoria yokuzuna, a mais alta. É preciso vencer esses lutadores para se ganhar um torneio).

Com essa experiência, desenvolvi uma firme crença: é é possível fazer tudo, mas, a menos que uma pessoa empreenda ações, nada mudará.

Penso ter sido bom eu ter ficado contundido. Por ter enfrentado essas contusões, pude me livrar de minha fraqueza em meu modo de pensar. Antes de me contundir, costumava pensar que permaneceria sempre feliz. Mas devido às reviravoltas em minha carreira, percebi que, embora haja bons e maus tempos, o importante é continuar a se aprimorar, dando o melhor de si, sempre.

Diz-se que a arte do sumô consiste de “coração, técnica e psique”. Essa seqüência é extremamente importante: se seu coração está no local certo, você sempre poderá alcançar a técnica e a psique depois. Você precisa trabalhar a força de seu coração várias vezes. Mas, se seu coração não for forte, não importa o quanto tenha aperfeiçoado sua técnica e psique, isso não valerá nada.

Naturalmente, eu não diria aos mais jovens para perderem. Mas digo a eles que não tenham medo de perder. Se você tem medo de se machucar, nunca será um bom lutador de sumô. Da mesma forma, se você tiver medo de cometer erros, não será bem-sucedido em qualquer trabalho.

Diz-se que o ringue de sumô é um espelho do coração. Quando você sobe no ringue, antes da luta, depois da luta... seu coração sempre está em tumulto. Como superar isso — esta é a verdadeira batalha, a luta que você tem de travar consigo próprio. Primeiro, você precisa vencer essa luta; então, estará pronto para enfrentar os outros.

Kouichi Oguruma, cujo nome de luta era Kotokaze, manteve sua posição na mais alta divisão do sumô durante um período de 48 torneios, e esteve na categoria ozeki em 22 torneios. Ele se retirou do sumô em 1985 e hoje é mestre da Academia Oguruma.


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