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Outubro
2006

Destaque
Não são apenas jogos
James C. Mckinley Jr.

Há muito, acredita-se que os fãs dos esportes manifestam excitação e senso de comunidade ao torcerem por uma grande equipe. Mas evidências científicas sugerem que, para alguns fãs, os efeitos são bem mais profundos.

Alguns pesquisadores descobriram que admiradores fanáticos se tornam tão ligados a seus times que experimentam surtos hormonais e outras alterações fisiológicas, da mesma forma que os atletas, enquanto assistem aos jogos.

A auto-estima de alguns fãs também se eleva ou cai de acordo com os resultados das partidas. A derrota afeta seu otimismo em tudo, desde um encontro romântico até o jogo de dardos, como mostram alguns estudiosos.

Os psicólogos suspeitam ainda que muitos fanáticos também são solitários, pessoas alienadas buscando auto-estima ao se identificarem com uma equipe. Mas um trabalho da Universidade do Kansas sugere exatamente o contrário — que os fãs dos esportes sofrem menos crises de depressão e alienação do que as pessoas sem esse interesse.

Uma teoria enuncia que atletas profissionais podem recriar em alguns fãs as mesmas intensas emoções que as tribos guerreiras mantinham com relação a seus ancestrais. Também podem ter sido essas emoções o combustível para a explosão de popularidade dos esportes nas últimas duas décadas.

“Nossos heróis esportistas são nossos guerreiros”, diz Robert Cialdini, professor de Psicologia da Universidade do Estado do Arizona, sobre os fãs dos esportes. “Não é nenhuma diversão passageira apreciada por sua graça e harmonia. A personalidade está diretamente envolvida no resultado do evento. Seja para quem quer que torça, time ou atleta, ele representa você.”

O Dr. Cialdini foi pioneiro na pesquisa sobre torcidas nos anos 1970. Ele começou documentando os esportes universitários, em que os fãs vestiam roupas com o emblema de seus times mais provavelmente após as vitórias do que após as derrotas, um fenômeno que ele chamou de “aquecer-se na glória refletida”.

“Torna-se possível alcançar algum tipo de respeito e consideração, não pelas próprias realizações, mas por sua ligação com os indivíduos que alcançaram feitos”, diz ele.

Sua última pesquisa mostrou que os fãs de esportes tendem a reivindicar crédito pelos sucessos de seus times, dizendo “vencemos” para descrever uma vitória, mas tendem a se distanciar dos fracassos de seus times, dizendo “eles perderam”, quando descrevem uma derrota.

Entretanto, alguns fãs permanecem fiéis e fortemente ligados a seus ídolos, apesar dos fracassos.

Altos e baixos de uma torcida

Em 1993, psicólogos da Universidade do Kansas criaram uma pesquisa para medir a ligação de um fã com sua equipe. A escala divide os fãs em identificação elevada, baixa e moderada.

Os estudos mostraram que os fãs com “identificação elevada” — tanto homens quanto mulheres — exibiam elevados níveis de excitação fisiológica nos jogos, gastavam mais dinheiro com ingressos e produtos de merchandising esportivo e desfrutavam geralmente de auto-estima mais elevada do que as pessoas desinteressadas por esportes.

Gene Hamm, mecânico de elevadores de 37 anos de Staten Island, fala de sua paixão pelo New York Mets, iniciada quando era um menino na temporada de 1969 e que jamais se extinguiu. Ele assiste a todos os jogos que pode na televisão, com suas emoções aumentando ou diminuindo a cada arremesso, rebatida e a cada decisão do técnico.

“Eu realmente me sinto sentado no banco conduzindo o time”, diz.

“...fãs ardorosos de basquetes e beisebol
tinham níveis elevados de auto-estima e
sofriam menos surtos de depressão do que
as pessoas que não eram fãs de esportes.”

Certa vez, Hamm passou meses em sua casa recuperando-se de um acidente de trabalho, e ele afirma ter visto os Mets livrarem-no de cair em depressão.

Um estudo na Georgia mostra que o nível de testosterona nos homens eleva-se acentuadamente após uma vitória de seu time e cai logo após uma derrota.

Em um dos testes, o Dr. James Dabbs, psicólogo da Universidade do Estado da Georgia, coletou saliva de 21 brasileiros e italianos em Atlanta antes e depois da vitória brasileira na Copa do Mundo de 1994. O nível de testosterona dos brasileiros havia aumentado em 28%, enquanto que o dos italianos havia caído cerca de 27%.

O Dr. Dabbs disse em uma entrevista que os resultados sugerem que os fãs se empatizam com os competidores de tal forma que eles se projetam mentalmente no jogo e experimentam os mesmos surtos hormonais que os atletas. “Mas é preciso que a partida seja importante”, diz ele.

Surto fisiológico

Charles Hillman, hoje psicólogo da Universidade do Illinois, descobriu que torcedores ardorosos de futebol na Universidade da Flórida experimentaram surtos fisiológicos extremos quando viam fotos de estrelas de futebol fazendo jogadas decisivas, mas reagiam de forma indiferente quando viam fotos de outros atletas e times.

“Indivíduos que sentem extrema identificação com seus times mostram um surto excessivo, comparados aos fãs com menor identificação”, diz.

Entre os mais fanáticos, como descobriu o estudo do Dr. Hillman, o nível do surto — medido pelas batidas do coração, ondas cerebrais e transpiração — era comparável aos que os fãs registravam quando viam fotos eróticas ou de ataques de animais, afirma ele.

Para alguns fãs, a montanha russa emocional de assistir a um jogo pode ser viciante. John Herde, contador, 65 anos de idade, de Manhattan, assiste aos jogos dos Rangers desde a juventude.

O que o leva aos jogos de hóquei repetidas vezes, para ele, é a catarse que sente quando libera sua raiva ou quando, ao triunfar, tripudia abertamente os outros.

“É um alívio”, diz ele. “Você pode gritar, berrar e fazer o que quiser. É como uma terapia.”

Edward Hirt, da Universidade de Indiana, demonstrou que a auto-estima de um fã ardoroso tende a seguir o desempenho de seu time.

Trabalhando com os torcedores dos times de basquete da Universidade de Indiana, o Dr. Hirt mostrou a fãs ardorosos fotos atraentes de pessoas do sexo oposto depois de um jogo e pediu-lhes que classificassem sua habilidade em conseguir um encontro com aquelas pessoas.

Os resultados demonstraram que homens e mulheres, torcedores fanáticos, eram muito mais otimistas após uma vitória. Também se mostraram mais confiantes sobre a possibilidade de desempenharem bem um teste físico ou mental, como jogos de dardos ou com palavras. Quando o time perdia, esse otimismo se evaporava.

O Dr. Hirt disse que o desejo de pertencer a um grupo ou sociedade — uma necessidade suprida principalmente pelas organizações religiosas ou políticas — pode explicar por que alguns fãs permanecem leais apesar de repetidos fracassos de seus times.

Edward Anzalone, bombeiro da cidade de Nova York, disse que ficou fascinado com os New York Jets quando era menino nos anos 1960. E apesar de 30 anos sem vencer um campeonato, jamais perdeu a fé em seu time de futebol.

“É uma obsessão”, diz ele. Anzalone, hoje com 40 anos, é conhecido como o “bombeiro Eddie” pelos torcedores dos Jets. Em todos os jogos, seu irmão Frank corre com ele sobre os ombros usando um capacete de bombeiro verde e branco e liderando os torcedores ao som de J-E-TS. Sua devoção ao time rendeu-lhe alguma notoriedade.

A casa de Anzalone, em College Point, no Queens, é pintada de verde, as cores dos Jets. Ele dirige um carro verde. O quarto de seu filho de 3 anos, Tyler, é como um santuário do time.

Um senso de pertencer a algo

Em muitos casos, essa ligação a um time pode ser saudável, como demonstram alguns estudos. Daniel Wann, psicólogo da Universidade Estadual de Murray, em Kentucky, realizou diversos estudos mostrando que um interesse intenso por um time pode afastar a pessoa da depressão e criar sentimentos de autoestima e de pertencer a algo.

Em 1991, o Dr. Wann estudou alunos da Universidade de Kansas e demonstrou que fãs ardorosos de beisebol tinham níveis elevados de auto-estima e sofriam menos surtos de depressão do que as pessoas que não eram fãs de esportes.

“Muitas das instituições tradicionais estão começando a se demolir, como a religião e a família”, diz o Dr. Wann. “A psique humana é a mesma, e algo tem de substituí-las. Os esportes preenchem um importante vazio.”

Michelle Musler reconhece que seu namoro de 27 anos com o New York Knicks pode ter começado quando viveu uma fase de solidão. Começou no início dos anos 1970. Ela estava trabalhando, passava por um divórcio e tinha cinco filhos para criar. De vez em quando, conseguia ingressos em sua empresa para assistir aos jogos dos Knicks.

“Meu ex-marido fugiu com uma garota e eu não parecia mais me adequar àquela vida nos subúrbios”, diz ela. “Os Knicks me deram um propósito, algo a fazer, um lugar aonde ir. Como torcedora, acho que isso cria um sentimento de fazer parte de algo.”

Michelle, 63 anos, começou então a adquirir ingressos para a temporada inteira a partir de 1974, e deixou de ir a apenas alguns poucos jogos desde então. Como consultora de negócios, ela planeja suas viagens todos os anos a partir do calendário de jogos dos Knicks, grava os jogos para assistir mais tarde e guarda artigos de jornal sobre o seu time. Certa ocasião, Michelle viajou a noite toda, após 18 horas de trabalho, para voltar de Hong Kong a tempo de assistir a uma partida.

Ela já perdeu alguns amigos por causa dos Knicks, quando tem de recusar convites de casamento ou de formatura porque conflitam com os play-offs. Contudo, para ela, esses sacrifícios são recompensados com os novos amigos que partilham de sua obsessão.

“O que aconteceu durante esses anos é que os Knicks se tornaram minha vida social”, afirma.

(Artigo republicado com permissão do New York Times.)

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