Edições Anteriores
Outubro
2006

Destaque
Efeito agregador
Dan Doyle

Em 1968, fui selecionado para jogar em um time de estrelas de uma escola preparatória de New England, que excursionaria pela Europa durante as férias de primavera. A viagem ocorreu bem no auge do conflito do Vietnã e, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, muitos europeus tratavam os americanos não como visitantes bem-vindos, mas como invasores. Nosso time percebeu esse clima desfavorável pelas vaias durante os jogos. Tivemos até mesmo de encarar um grupo de manifestantes.

Nosso treinador, Dee Rowe, aproveitou a situação desfavorável para fazer uma turnê não apenas esportiva, mas também sobre educação fora dos campos esportivos. Ele organizou uma série de recepções após as partidas nas quais nos encontramos e conversamos com nossos adversários e outras pessoas da comunidade, muitos dos quais expressavam um forte sentimento antiamericano. Apesar de algumas diferenças filosóficas, era óbvio para mim e para os meus companheiros de equipe que poderíamos desenvolver amizades com as pessoas que enfrentávamos, já que tínhamos a oportunidade de nos conhecer.

Em muitas ocasiões desde 1968, tenho observado os esportes atuando não apenas como um meio de unir pessoas de diferentes culturas, mas também como terreno seguro de onde se pode influenciar profundamente qualidades pessoais como integridade e autodisciplina.

Após a turnê de 1968, duas outras experiências pessoais e transformadoras ocorreram no exterior. Em 1975, como treinador do time de basquete da escola Kingswood-Oxford, em Connecticut, levei nosso time para jogar no Torneio do Festival de Natal de Praga. Durante uma disputa informal com um time tcheco sub-19, propus ao treinador tcheco que no primeiro tempo que o rime de nossa escola jogasse contra o time deles, mas que no segundo tempo misturássemos os times. O contraste foi visível e eu pude perceber facilmente que nossos jogadores estavam desfrutando conhecer nossos novos colegas tchecos e criando amizades de forma diferente da que seria em uma nação versus a outra.

Em dezembro de 1980, o time de basquete masculino da Faculdade Trinity, onde eu atuava então, tornou-se o primeiro time americano a viajar para Cuba desde a revolução de 1959. Quando testei novamente minha idéia de “mistura” em jogo informal com a equipe nacional cubana júnior, percebi que esse conceito poderia ser aplicado em uma escala maior.

Cerimônia de Abertura dos Jogos Atléticos Escolares Mundiais.
Deixei os treinamentos para ingressar na Escola de Direito de Diplomacia da Universidade Tuffs, onde escrevi um artigo sobre a criação de um Instituto para o Esporte Internacional, cujo propósito principal seria promover um evento internacional esportivo e cultural com equipes nacionais. Uma equipe feminina de basquete poderia ser formada por doze mulheres de doze países diferentes; um time de futebol masculino poderia ter onze jovens de onze países, e assim por diante. Nos jogos, haveria tantos poetas quanto jogadores de basquete, e tantos cantores quanto jogadores de futebol. Propus os Jogos Atléticos Escolares Mundiais como um programa que homenagearia tanto o estudante-atleta como o artistaestudante.

Em 1986, o Dr. Ted Eddy, presidente da Universidade de Rhode Island, convidou- me para presidir o instituto no campus de sua universidade. Quatro anos depois, o instituto recebeu a aprovação para trabalhar com jovens católicos e protestantes na Irlanda do Norte. A idéia era usar o esporte como forma de romper o ciclo de ódio e violência que permeava a região havia séculos. Foi então formado o Belfast United, e a primeira atividade foi o programa Jogos Atléticos Escolares na Universidade de Ulster, em Jordanstown, Irlanda do Norte. Foram selecionados 120 jovens de Belfast — 60 católicos e 60 protestantes. Treinadores e professores, que no início eram céticos, começaram a dizer “está funcionando...”, uma afirmação que mais tarde foi comprovada por pesquisas e avaliações.

No último dia, ocorreu uma “experiência de pico”. Um garoto protestante frágil e tímido descobriu uma habilidade que jamais percebera: terminar em oitavo em uma corrida de 5 km. Naquela noite, ele leu o poderoso poema “The Troubles” (“Os Problemas”), recebendo prontamente uma sonora salva de palmas e pontos suficientes para levar sua equipe à vitória.

“Treinadores e professores, que no início
eram céticos, começaram a dizer ‘está funcionando’...”


Após os jogos, o garoto descreveu o Belfast United como uma das maiores experiências de sua vida. “Peguei o ônibus e ficamos com os companheiros de equipe de ambos os lados, a primeira vez que isso ocorreu para mim e para todos nós.” Em 1995, quando o presidente Bill Clinton viajou pela Irlanda do Norte para celebrar o progresso no campo da paz, ele mencionou o Belfast United como um dos catalisadores.

Entre 24 de junho e 1o de julho deste ano, jovens de 155 países reuniram-se na Universidade de Rhode Island para a 4a edição dos Jogos Atléticos Escolares Mundiais. As Nações Unidas, que recentemente anunciaram uma parceria formal com os Jogos Atléticos Escolares Mundiais, enviaram palestrantes para discursarem sobre temas como a fome e o meio ambiente global.

Nosso objetivo é oferecer aos jovens participantes: o presente da amizade com outros líderes de diferentes culturas, o presente do discernimento por meio de se ouvir e discutir os vários pontos de vista de questões críticas, e o presente da verdadeira paz mundial para a sua geração.

Esse último objetivo foi traçado a partir de certo comentário de um treinador da Irlanda do Norte sobre a nossa 1a edição dos Jogos Belfast United. “O efeito agregador”, foi como ele chamou.

Daniel E. Doyle Jr. é fundador e diretor executivo do Instituto Internacional de Esportes e autor de The Encyclopedia of Sports Parenting.


Textos e imagens pertencentes à Associação Brasil SGI. Direitos Reservados.