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Outubro
2006

Destaque
Esporte e Guerras:
sociedades combativas e esportes combativos
By J. A. Mangan

Na história, a guerra serviu ao esporte assim como o esporte serviu à guerra. Concentrarse em um sem observar o outro é tornar- se culpado de um registro incompleto e uma avaliação incompleta. Ambos os fatores associados — eis a perspectiva correta. As atividades militares se tornaram recreações comunitárias, e as recreações comunitárias se tornaram atividades militares. Uma reforçou a outra.

Os campos esportivos e os campos de batalha são considerados locais de demonstração patriótica legítima e agressiva. Um sustenta o outro, e ambos sustentam a imagem de uma nação poderosa. Além disso, os campos esportivos, em toda a história, prepararam os jovens para os campos de batalha. E, em toda a história, esporte e militarismo têm sido inseparáveis.

Mais do que isso: os heróis nos esportes e nos campos de batalha têm muito em comum. Ambos são vistos como símbolos de orgulho nacional, qualidade e virtude. O guerreiro e o atleta são cruciais para a percepção do sucesso do Estado.

E, com menor freqüência, o esporte tenta ser um antídoto à guerra — competições sem derramamento de sangue com o propósito de amenizar a violência, tentar a conciliação e buscar a civilidade.

A construção da identidade

A memória possui um poder especial. A memória da guerra é uma das mais significativas formas de moldar a identidade nacional: imagens de sacrifício, heroísmo, luto e perda fornecem N símbolos de unidade no sofrimento, na tristeza e na despedida. O esporte — e a memória do esporte, embora uma espécie diferente de experiência coletiva e individual — também tem o poder de moldar a identidade nacional. Lembranças de momentos esportivos, jogados ou presenciados, são as mais lembradas e raramente esquecidas.

As lembranças esportivas oferecem a segurança de pertencer a algo. No mundo moderno, portanto, a guerra e o esporte são forças poderosas na criação das comunidades imaginadas. Ambos unem os indivíduos, que partilham êxtase e desespero, felicidade e tristeza, prazer e dor.

Há necessidade de se examinar até que ponto o esporte é um substituto útil à guerra — uma competição sem matanças — e até que ponto, se tanto, afasta as nações da agressão militar devido a um reforçado amour-propre nacional pelo sucesso nos esportes, à humilhação satisfatória de outras nações e ao envolvimento reconfortante que torna evidente uma humanidade comum.

O contato por meio do esporte pode ter resultados opostos. O esporte reforça os antagonismos nos campos de batalha, mantém vivas as lembranças de “batalhas há tempos travadas”, derrotas mantidas no passado e vitórias registradas nos livros de história. Dessa forma, exacerba a antipatia, alimenta a hostilidade e estende a aversão. O esporte pode sublimar as hostilidades mantidas vivas ano após ano, nos “conflitos sem vítimas” nos estádios nacionais, mantendo vivos na lembrança os conflitos com vítimas, e talvez contribuindo para futuros conflitos com vítimas.

O que é claro a partir dessas evidências é a extensão na qual as nações usam o esporte como uma forma de condicionamento cultural para projetar imagens de uma masculinidade desejável e que conduz às imagens desejáveis de uma masculinidade belicosa.

A criação dos homens

Na história, a criação dos homens conduziu a mensagens explícitas e implícitas de que eles enfrentaram o mundo e confrontaram seus problemas, enquanto as mulheres encararam o lar e suas necessidades.

Isso é passado, e o futuro parece se mostrar de alguma forma diferente.

O feminismo hoje desafia uma herança masculina há muito tempo estabelecida. O que, entretanto, permanece forte em tempos de transformação revolucionária no papel dos gêneros.

Na história, houve poucas exceções a esse tipo de arranjo. O estado das coisas assegurou uma continuidade básica na criação da masculinidade, cujo conceito fundamental mudou pouco.

O conceito-chave em qualquer explicação é “aptidão” para a luta: os homens não engravidam, têm maior força muscular explosiva e uma cultura de sacrifício, o que resultou em culturas que devotam considerável esforço na preparação do menino em homem, em uma atmosfera de competição agressiva, afirmação pessoal e propensão ao auto-sacrifício, em prol de uma perceptível vantagem para o grupo, para o time e para a nação.

Como observou David Gilmore nas culturas que ele investigou em Manhood in the Making: Cultural Concepts of Masculinity, culturas neutras ou andróginas são relativamente raras “em uma escala global” e, “onde quer que a masculinidade seja enfatizada, mesmo minimamente, e por qualquer que seja a razão, três injunções morais parecem ser enfocadas”, ou seja, o homem-procriador, o homem-protetor e o homem-provedor.

Defensores

Gilmore também salienta que esses “três imperativos masculinos são tão perigosos quanto competitivos. Eles colocam o homem em risco no campo de batalhas, na caça ou em confronto com seus companheiros”. Entretanto, para a maioria, não há escapatória para esses imperativos e, portanto, uma vez que “os meninos precisam se endurecer para enfrentar essas lutas, devem estar preparados para os vários tipos de circunstância e de resistência”.

“...os heróis nos esportes e nos
campos de batalha têm muito em comum.
Ambos são vistos como símbolos
de orgulho nacional, qualidade e virtude.”

Nada disso nega a complexidade da masculinidade, das variações sociais e individuais e a ausência de um estereótipo monolítico. E a imagem cultural fundamental do macho continuamente aclamado como agressivo, competitivo, confrontador e dominador, quando necessário, tem sido um fenômeno constante na história.

Quaisquer que sejam as variações nas idéias de masculinidade, os homens, em todos os lugares, são hoje virtualmente preparados para a guerra, entre outras coisas e de modo indireto, por uma ênfase na escola e nos esportes. A razão é clara. Um imperativo masculino constante em toda a história tem sido “um compromisso moral para defender a sociedade e seu conjunto de valores contra todas as adversidades”.

Portanto, subjacente à boa parte da reflexão cultural, planejamento e implementação associados à formação de homens a partir de meninos, está o treinamento, direto e indireto, para a prontidão nos campos de batalha ou nos campos esportivos e similares. Uma preocupação associada a isso por parte do educador é desenvolver um senso de comunidade por meio da ênfase nas virtudes sociais da lealdade, obediência, cooperação e disciplina. Qualidades cruciais tidas como inseparáveis do sucesso na guerra, na política e no comércio também merecem atenção cuidadosa: agressividade, persistência e resistência. Bem menos prioritária é a educação para o casamento, para a vida doméstica e a paternidade.

Esportes radicais

Nada kusti é uma antiga forma de luta indiana que já teve um importante
papel no treinamento de guerreiros.

Ainda resta muito a ser revelado sobre o relacionamento entre masculinidade, nacionalismo, esportes e militarismo. Seja o instinto ou a sociedade a chave para o relacionamento entre os esportes e a guerra, o que é claro nas palavras de Phillip Goodhart e de Christopher Chataway em War without Weapons, “as formas esportivas mais perigosas e radicais dão expansão ao entusiasmo militarista” e, naturalmente, à competência militar, tanto psicológica quanto física.

Se é verdade que os esportes perigosos permitem às nações “lutar umas com as outras de forma perigosa e dura sem engendrar o ódio nacional ou político” e que “a função mais importante do esporte é prover uma válvula segura e saudável para essa forma de agressão mais indispensável, e ao mesmo tempo mais perigosa, descrita como entusiasmo coletivo militante”, também é verdade que os esportes podem inflar esse entusiasmo.

“No mundo moderno, portanto, a guerra e o
esporte são forças poderosas na criação das comunidades imaginadas. ”

O mais importante é que a guerra continuará a servir o esporte, e o esporte servirá a guerra ainda por muito tempo.

Historicamente, o esporte serviu bem menos o antimilitarismo do que o militarismo. O mais horrível confronto militar da história — a Primeira Guerra Mundial — estimulou, em 1915, somente um breve, deplorável e mal-sucedido esforço para substituir a guerra pelos esportes. No dia de Natal, em vários locais ao longo do front ocidental, algo parecido com o futebol ocorreu. O soldado William Tapp, de Warwickshires, escreveu da floresta de Poegsteert: “Estamos tentando marcar uma partida de futebol com eles, os saxões, para amanhã, 26 de dezembro”. Para irritação da artilharia britânica, entretanto, o jogo não se realizou. Houve outros planos para essas patéticas competições até o dia de Ano- Novo, já que a retirada dos corpos nos campos de batalhas tornou disponível mais espaço para jogarem.

Os britânicos em seu entardecer imperial fornecem a mais clara evidência de associação funcional entre o esporte e a guerra, a socialização e o militarismo. Isso é evidente neste comentário sobre Edward George Henderson, um estudante de escola pública na era militarista do Novo Imperialismo: “Sobre a vida e a obra de George Henderson, em Rossall, podese presumir que era difícil e com ênfase na educação física em vez de em outras disciplinas acadêmicas. Como em todas as escolas públicas, naquela era de preeminência do Império Britânico no mundo, as qualidades de liderança, exemplo e orgulho no país eram as pedras fundamentais sobre as quais os meninos eram preparados para posições de autoridade e responsabilidade... Diz-se que, poucos anos antes da Primeira Guerra Mundial, os professores da sexta série tinham o hábito de lembrar a seus pupilos que os alemães logo teriam de ser combatidos. Se isso ocorria em Rossall, então, talvez tenha sido o estímulo necessário para George alistar-se no exército.”

Na era do Novo Imperialismo britânico, não era difícil descobrir a razão para esse lembrete. Como escreve o antropólogo Richard Sipes, “com tudo o mais permanecendo igual, uma sociedade habilitada, preparada para a guerra e ansiosa para se engajar nela teria tido (até recentemente) melhor chance de sobreviver e crescer do que uma sociedade não habilitada nem pronta ou ansiosa para guerrear”. Muito esforço e energia foram despendidos nesse período nas escolas públicas para criar uma mentalidade como a de Henderson.

Qual é a relação entre esporte e militarismo moderno e antimilitarismo, e entre esporte e a guerra moderna e a paz? Essas são questões dignas de serem investigadas. Não é uma relação estática, mas dinâmica.

Os interesses pelos estudos esportivos vêm crescendo muito em todo o mundo e continuarão a crescer. É com essa força que o esporte acena para a história — política, cultural, econômica, espiritual e esteticamente — de forma ainda mais instigante e persuasiva do que nunca. Eric Hobsbawn certa vez considerou o esporte como a prática mais significante do final do século XIX. Seu significado foi ainda mais visível no século XX e será ainda mais aparente no século XXI, à medida que o mundo se desenvolve para uma “aldeia global”, partilhando o idioma inglês, a tecnologia e o esporte.

O professor J.A. Mangan é autor de Athleticism in the Victorian and Edwardian Public School e The Games Ethic. Ele publicou cerca de trinta livros e é o editor fundador do The International Journal of the History of Sport. Ele adaptou esse artigo a partir de seus escritos Making European Masculinities: Sport, Europe, Gender e Militarism, Sport, Europe: War Without Weapons.


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