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Outubro
2006

Educação e Arte
Fórum de fotógrafos

Este é o primeiro artigo de uma nova série em que os associados da SGI que trabalham em uma determinada área discutem suas profissões. Helmuth Rautenbach é um fotógrafo de moda e beleza na Cidade do Cabo, África do Sul, e também trabalhou muitos anos no Reino Unido. Massimo Mastrorillo é um fotojornalista que vive em Roma, Itália. Seu trabalho é focado em reportagens sobre temas geográficos e sociais.


Vocês podem descrever qual foi seu trabalho fotográfico mais desafiador e, possivelmente, mais gratificante?

Massimo: Há dois anos fiquei um ano sem trabalhar para ajudar minha esposa em um tratamento contra o câncer. Foi um ano difícil que conseguimos ultrapassar apenas por meio de nossa prática budista. Quando Paola estava pronta para começar uma vida normal, recebi uma proposta de trabalho do Festival Internacional de Fotografia em Roma para documentar diversos contrastes e problemas sociais na Indonésia após o tsunami. Percebi que era uma oportunidade importante para mim. A exposição foi um sucesso. Uma das imagens ganhou o primeiro prêmio na seleção do World Press 2006, o mais prestigioso prêmio de fotojornalismo do mundo. A determinação que desenvolvi sob essas circunstâncias fez com que eu encontrasse energia para finalizar um projeto fotográfico em Moçambique, no qual havia trabalhado exaustivamente por quatro anos. Como resultado, algumas dessas fotos foram selecionadas para o festival “Fotografia Internacional do Ano” e para o prêmio “Melhor do Fotojornalismo”, dois conhecidos concursos americanos.


Helmuth: O projeto que denominei “Projeto Garota Propaganda”, que não tem prazo para encerrar. Resumidamente, colaborei com modelos (o que em si não é comum) para criar imagens inspiradas em fotos dos anos 1940 e 1950. Mais tarde, espero conseguir um patrocinador que publique esse trabalho e, assim, quero levantar fundos de auxílio aos soropositivos. É minha firme crença que coisas alegres podem criar um valor imenso dentro do contexto de questões sérias. Freqüentemente, na África do Sul, as pessoas são sobrecarregadas por imagens sérias e pela mídia, e acabam se esquecendo do que viram.

Em sua opinião, o que torna a fotografia diferente das outras artes? O que os levou a fotografar?

Helmuth: Nem sempre tenho certeza se a fotografia é uma arte, da mesma maneira que a pintura às vezes é pintar um armário. Pode parecer um pouco insignificante, mas sempre amei o barulho do flash e o ruído do motor da câmara. Acho que é porque aparenta uma característica teatral, um momento dramático. Também sou muito humilde por ter a honra e a confiança de fotografar uma pessoa.

Massimo: A linguagem fotográfica certamente tem muitos limites. Em um romance, por exemplo, uma única palavra pode dar ao leitor espaço para muitas nuanças e imaginação. Uma fotografia é uma síntese. Em um único frame, a fotografia deve ter um forte espírito de pesquisa. Deve ser capaz de observar a realidade e captar um instante da vida, para mostrar muitos mundos existentes naquele momento da vida.

Henri Cartier-Bresson falou sobre o “momento decisivo” e a necessidade de colocar o coração e os olhos no mesmo nível. Ele disse que uma boa foto é uma emoção que nasce por meio do encontro entre o mundo interior da fotografia e o mundo ao redor dela. O fotojornalismo me ajuda a respeitar e reconhecer o estado de buda de cada pessoa cuja circunstância de vida, comportamento e pensamentos podem estar extremamente distantes dos meus.

Como vêem sua “missão” como fotógrafos? Qual é o seu objetivo com esse trabalho?

Massimo: Sinto que minha missão é informar, fornecendo elementos que ajudem a abrir os olhos para a realidade e reconhecendo a vida em sua complexidade e simplicidade, assim como seu rigor e beleza incríveis.

Helmuth: Estou convencido de que coisas alegres, como dançar, ler revistas ou outros aspectos modernos da cultura popular, comunicam a motivação do artista. Se a motivação é alegre e inerentemente positiva, então em certo nível isso é alcançado. Sempre penso na cena em que os músicos judeus de Auschwitz eram forçados a tocar belas músicas para os nazistas. Em uma escala muito menor, deixar uma modelo desconfortável mas fazê-la sorrir em uma foto é algo semelhante. Portanto, gosto da idéia de criar imagens intensas e apaixonantes, porém, antes de qualquer coisa, devemos considerar e respeitar a pessoa.

Como o seu modo de vida budista afeta seu trabalho?

Helmuth: Creio que a idéia de criar valor é o que sustenta minha postura diante da fotografia e, portanto, penso que primeiramente devemos cuidar da pessoa. Eu preferiria ter uma foto ruim a um dia ruim.

Massimo: No meu ambiente de trabalho, há com freqüência muita vaidade em torno da idéia de sucesso, muita arrogância e cinismo, apesar do fato de lidarmos com temas como doença, morte e ausência dos direitos humanos. Acredito que, como budista, devo ajudar a mudar essa situação, sendo visto primeiramente como um ser humano de valor e, depois, espero, como um bom fotógrafo.

Vocês acham que os fotógrafos podem mudar a vida do observador ou fazer do mundo um lugar melhor?

Massimo: Não creio que a fotografia tenha esse poder. As pessoas estão muito acostumadas a serem bombardeadas com imagens — imagens de sofrimento e morte que são “metabolizadas” em um tempo extremamente curto. Uma fotografia pode evocar emoção ou oferecer ao observador uma abordagem mais profunda de certa realidade. Pode ter um papel educacional, mas somente as próprias pessoas podem decidir fazer do mundo um lugar melhor. Como budista, posso somente tentar ter esse tipo de determinação e usar a fotografia como um instrumento útil.

Helmuth: Acho que em situações extraordinárias podemos usar a imagem para verdadeiramente afetar uma pessoa, mas, acho que é principalmente o impacto coletivo de toda a mídia que faz a diferença. Penso que a idéia de sustentabilidade é muito relevante na cultura popular, porque é comunicação e, desse modo, transmite muito mais do que é visto a “olho nu”. Acredito que se construirmos boas relações com as equipes com as quais trabalhamos (nas fotos de moda, há sempre uma equipe de cinco a dez pessoas), isso é um pouco como plantar árvores quando derrubam árvores. Isso parece não ter necessariamente efeito ou benefício e, às vezes, é como se não tivesse nenhum impacto, se você vive em um mundo dominado apenas pela necessidade de resultados superficiais. Mas, no fundo, tem um efeito positivo.

Como vocês aperfeiçoam suas habilidades como fotógrafos?

Helmuth: Tento continuar aprendendo, realizando projetos-teste. É difícil, pois a fotografia é um empreendimento que consome tempo e energia.

Massimo: Estou sempre buscando novos estímulos. Não quero me sentir satisfeito comigo mesmo nem me acomodar. Tenho certeza de que posso me tornar um fotógrafo melhor porque o budismo me dá a oportunidade de um aperfeiçoamento constante como ser humano.


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