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Nosso modo de vida é o respeito
Entrevista com Henriette Rasmussen
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SGIQ: Qual a perspectiva do povo inuit sobre o relacionamento entre os seres humanos com os outros animais e o mundo natural?
Henriette Rasmussen: Tradicionalmente, somos muito ligados ao meio ambiente natural e dependemos dele. Você pode ver isso em nossa mitologia, nossas lendas, nossos métodos de caça e no uso do meio ambiente. Durante a escuridão dos meses de inverno, navegamos com a ajuda das estrelas. Mas o relacionamento dos povos indígenas com a natureza está mudando devido às transformações climáticas e às necessidades da globalização. Essas mudanças são muito visíveis aqui no Ártico. |
Foi por isso que formamos nossa ONG — a Conferência Circumpolar Inuit —, para proteger nosso modo de vida e pelas ameaças das áreas industriais, como a chuva ácida da Europa. A elevada incidência de câncer em nosso povo também nos preocupa muito.
Meu desejo é que, durante nosso período de industrialização e urbanização, o conhecimento que nossos pais e avós possuíam e o relacionamento deles com a terra e com os rios sejam preservados. Por exemplo, você não pode jogar qualquer tipo de lixo próximo a um rio, deve-se sempre queimar o lixo dos peixes e jamais lançá-lo nos rios.
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Mesmo quando as pessoas capturam uma foca e ela é morta, acreditam no pós-vida da foca. Colocam água em sua boca porque acreditam que ela iniciará uma longa jornada e precisará de água. Tínhamos uma característica muito sensitiva em nossa cultura de caça e um grande respeito pelos animais. Utilizávamos cada pedaço da carcaça. Hoje, a tendência em nosso mundo é usar algo e jogar fora. |
Desejo ensinar melhor as nossas crianças sobre nossas tradições — de fato, estamos fazendo isso agora para os jovens caçadores. Precisamos reconsiderar nossos antigos hábitos, nosso antigo modo de vida. Partilhar as coisas é também uma forte característica do modo de vida inuit. Todas as vezes que você pegava algo, deveria partilhar com alguém. Mas então o sistema econômico mudou e hoje tudo custa muito, pois o transporte no Ártico é muito caro. Mesmo os caçadores do norte dependem de uma renda para sobreviver. Assim, embora ainda deixem parte de sua caça com a família, isso já não é mais tão comum como antes. Eles precisam vendê-la.
Uma das maneiras como as mudanças climáticas afetam o Ártico é pelo derretimento do gelo. Ele está fino e perigoso. Antes tinha um, dois ou três metros de espessura. As focas se reproduzem nas próprias geleiras e os bebês nascem dentro do mar. Nossa preocupação também é com as focas — o que acontecerá a elas quando as geleiras derreterem?
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Naturalmente, o derretimento do gelo também significará novas possibilidades para o povo do Ártico — haverá novas correntes de água e talvez seja possível uma agricultura mais extensa. Mas as nossas preocupações também dizem respeito às terras baixas na Europa ou no Pacífico, como as Maldivas, onde as pessoas possuem suas vilas próximas à água. Estamos muito interconectados com o mundo. Ele nos conecta cada vez mais, assim, devemos enfrentar problemas como esse. |
SGIQ: A Sra. acredita que a situação no Ártico signifique que os povos lá possuem um dever especial de alertar o mundo?
HR: Queremos que o mundo conheça a poluição em nossas águas, que antes eram tão limpas. Mas de acordo com os cientistas, a poluição da Europa e até mesmo do Sudeste da Ásia vem parar aqui pelo ar e pela água. Esta deve ser a razão de termos uma elevada incidência de câncer. A poluição segue para a cadeia alimentar — comemos o óleo que fica nos animais e a poluição vai parar em nós. Fica armazenada na gordura das focas, das baleias e do urso polar. Conheço jovens mães que não comem o óleo das focas, por exemplo, devido aos metais pesados, cádmio, PCB (bifenil policlorado) e POPs (poluidoreres orgânicos persistentes) que são encontrados em nossa dieta. Estamos muito preocupados com isso porque se a poluição se acumular durante a gravidez, pode ser perigoso para o feto.
SGIQ: Como a Sra. vê seu papel como comissária da Carta da Terra?
HR: Penso que a Carta da Terra é uma ferramenta perfeita para a educação. Quando eu explico que ela é um compromisso entre diferentes culturas sobre a proteção ao meio ambiente, as pessoas ouvem com atenção. O que digo à imprensa na Groelândia é que devemos reconsiderar o mundo material que construímos. Devemos recuperar de alguma forma nossa espiritualidade. Nesse sentido, a Carta da Terra é um excelente instrumento.

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Escultura de Josiah Nulaaik,
cortesia da
Marion Scott Gallery. |
SGIQ: Quando a Carta da Terra foi elaborada, acredito que havia uma considerável discussão quanto ao vocabulário da seção sobre como tratar os animais, que agora diz: “Com respeito e consideração”.
HR: Nossas discussões eram muito interessantes. Tínhamos uma visão muito diferente de alguns ambientalistas que trabalhavam pelos direitos individuais dos animais. A palavra original era ter “compaixão” pelos animais.
Então eu disse que não poderíamos nos juntar à Carta da Terra porque nosso relacionamento com os animais não era de compaixão. Era de respeito. Respeitamos os animais e respeitamos a natureza; esse é o nosso relacionamento com a natureza a partir do nosso modo tradicional de vida. Respeitamos os animais que caçamos e os tratamos de uma forma bem espiritual.
Temos muitas canções sobre focas, baleias e peixes. Então, digo que temos um relacionamento muito íntimo com os animais, mas se você tem uma verdadeira compaixão, não poderá matá-los. Se algumas pessoas conhecem os peixes apenas como aqueles pacotes congelados vendidos nos supermercados, então, nossa sensação é de que elas estão muito distantes da própria vida.
“Respeitamos os animais e respeitamos a natureza; esse é o nosso relacionamento com a natureza a partir do nosso modo tradicional de vida.
Respeitamos os animais que caçamos e os
tratamos de uma forma bem espiritual.”
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Os inuit são muito poucos. Somo 130 mil pessoas no total na Groenlândia, Canadá, Alaska e Sibéria, e o que comemos são animais que vivem livremente em nosso ambiente. Nós vamos lá e os pegamos. Temos um relacionamento diferente com esses animais. Por exemplo, para um caçador de foca, a melhor caça jamais seria um bebê foca, se fosse para alimentar sua família. Seria uma foca adulta, da qual se pode aproveitar tudo.
Em nossa língua, as palavras que usamos para foca e outros animais os tratam com carinho. Por exemplo, puisinnguag significa “querida foca”, ou tuttorsuaq nukatugarsuaq, é um termo carinhoso que significa uma grande rena jovem. Temos um relacionamento respeitoso. Não odiamos os animais. Não os matamos por ódio, mas sim pela nossa sobrevivência. É como o relacionamento do leão e da zebra. Estamos interconectados com a natureza e com os animais.
Todos nós, como seres humanos, devemos reconsiderar nossa situação devido às mudanças climáticas. Por isso, penso que seja muito importante os povos indígenas relembrarem seu relacionamento cultural com a terra e com os animais, pois acredito que isso será uma vantagem para o ambiente e para todos nós.
Henriette Rasmussen foi ministra da Cultura, Educação, Ciência e Religião da Groenlândia. Ela é comissária da Carta da Terra e atua há muitos anos na Conferência Circumpolar dos Inuit.
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