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Julho
2006

Destaque
Rara beleza
Entrevista com Alastair Fothergill


SGIQ:
O que o fez interessar-se pela vida e pelos animais ainda criança?

Alastair Fothergill: Tínhamos uma casa de verão em North Norfolk. Meu pai era professor de escola primária e, por isso, nossas férias eram longas. Costumava passar semanas lá — 60 quilômetros de reserva natural e mangues intermináveis. Costumava sair de bicicleta. Havia uma reserva de pássaros em Cley e eu trabalhava lá como voluntário. Na escola, tive um professor de Biologia que era fantástico. Realmente, uma pessoa muito inspiradora. Ele tinha um micro-ônibus elétrico velho e não nos importávamos em sair às 2 da madrugada de domingo, guiando cinco horas até Pembrokeshire, em North Wales. Passávamos cinco horas observando os falcões peregrinos e voltávamos. Eu estava com 13 ou 14 anos e, nessa idade, aquele professor era realmente inspirador. Estava tudo muito claro para mim: não queria nem pensar sobre o assunto, tudo o que desejava era trabalhar com animais.

SGIQ: Nos últimos anos você viajou por todo o mundo produzindo os principais programas sobre natureza para a BBC. Se tivesse de descrever a vida no planeta Terra para um homenzinho verde, o que diria?

AF: Engraçado... Acabei de produzir uma série para TV que tentou fazer exatamente isso. Ainda penso, todos os dias, na beleza rara da natureza. Sou muito feliz por isso. Já estive em muitos locais desertos e, mesmo assim, a razão pela qual amo a natureza é que diariamente ela me confirma que possui beleza em todos os lugares. Sinceramente, tenho muito prazer em ver os chapins azuis se alimentarem de nozes enquanto seguem para a Antártica. Todos os anos fico ansioso para ver as andorinhas retornarem da África, como quando tinha 11 anos... É emocionante e é por isso que amo meu trabalho. É como tentar destilar essa paixão e partilhá-la com as pessoas, particularmente os menos afortunados que não têm oportunidades e as pessoas que nem se preocupam em admirar isso.

SGIQ: Quanto à idéia da interrelação com a natureza, como as pessoas podem restabelecer essa conexão?

AF: Penso que elas são obrigadas a isso, pois onde quer que se viva, é preciso beber água e respirar. Todo o oxigênio do planeta é criado pelo fitoplâncton nos oceanos e pelas árvores. Pensar que podemos realmente nos separar do mundo natural é insustentável. Dizem que não restou nenhuma região despovoada no planeta, mas a maior parte dele é despovoada — 98% do espaço vivo em nosso planeta é despovoado e ninguém vai lá — locais como o fundo dos oceanos, os pólos, os desertos, que não são muito confortáveis.

Baleias corcundas alimentando-se.

Mas você pergunta como as pessoas que vivem uma existência urbana podem ficar conectadas emocional e intelectualmente. Há muitas coisas que podem fazer. Podem assistir programas de TV como o “Planet Earth”, por exemplo!

Existe uma verdadeira beleza nas coisas pequenas. Por exemplo, Tóquio tem alguns dos mais bonitos jardins do mundo. Em Manhattan, os falcões peregrinos fazem seus ninhos nos blocos das torres — eu vi um peregrino mergulhar e pegar um pombo na Park Avenue... O maravilhoso na natureza é que ela é incrivelmente resiliente. Está lá, na porta de casa, mas as pessoas não percebem.

SGIQ: Em toda a sua experiência, há algum momento em particular que você pode descrever como se sentiu? Houve algum tipo de experiência marcante?

“...A supremacia do homem em nosso planeta está atingindo um nível absolutamente aterrador. Acho que isso vai dominar cada vez mais nossos pensamentos. É uma questão de sobrevivência planetária.”

AF: No ano passado, eu estava na Antártica filmando “Planet Earth”, quando fui cercado por baleias corcundas que se alimentavam de krill, um pequeno crustáceo que elas adoram comer. O que elas fazem é mergulhar bem fundo e duas delas nadam para cima numa espécie de balé coordenado. Enquanto nadam, soltam bolhas de suas narinas. Cada uma percorre metade de um círculo e, à medida que as bolhas sobem, criam uma espécie de cortina. Os krill ficam amedrontados e se concentram no meio desse círculo de duas cortinas. Na superfície, pode-se ver as bolhas formando um círculo. De repente, no meio disso, grandes baleias sobem e absorvem essa sopa enriquecida... É uma beleza rara. E eu estava lá em um pequeno bote de borracha. Foi apavorante porque as baleias poderiam ficar facilmente zangadas com o bote, e ao seu redor estava a rara beleza do cenário Antártico. Foi muito especial.

SGIQ: É um mundo da lei do mais forte ou há cooperação e coexistência?

AF: Há um pouco de ambos. Penso que em última instância somos guiados por genes egoístas, mas os animais e as pessoas inteligentes reconhecem que na verdade somos tão interdependentes que um comportamento altruístico é uma necessidade egoísta — não são opostos.

SGIQ: E nós, como seres humanos nesse belo mundo? Qual a sua opinião sobre a nossa postura, nosso papel?

AF: Claramente, somos parte disso, pois somos todos dependentes uns dos outros: nós dos outros assim como os outros de nós — se preferirem traçar uma linha entre nós e os outros. O grande problema é que, como dissemos na primeira frase da série, 100 anos atrás havia 1,5 bilhão de nós, e hoje somos 6 bilhões. A supremacia do homem em nosso planeta está atingindo um nível absolutamente aterrador. Acho que isso vai dominar cada vez mais nossos pensamentos. É uma questão de sobrevivência planetária. E mesmo que você não tenha nenhum interesse ou nenhuma ligação com o mundo natural e estivesse feliz por viver numa caixa de concreto em uma cidade de concreto, comendo alimento de plástico, tudo vai muito mais além. É uma questão de água para beber e ar para respirar. É engraçado, pois aqueles entre nós que têm paixão e intimidade com a natureza acabarão sendo ouvidos, pois agora se trata de sobrevivência. E se isso não dominar o final de nossa vida, com certeza, dominará a vida de nossos filhos, e isso será algo relativamente novo, pois basicamente o dano ao nosso planeta começou a partir da Segunda Guerra Mundial. É aterrorizante.

Será que eu penso que somos diferentes dos animais? Já fiz dezenas de filmes sobre chimpanzés e penso que há uma certa esperteza neles e uma certa tolice nas pessoas.

Alastair Fothergill foi chefe da Unidade de História Natural da BBC e é um premiado produtor de várias séries de documentários da BBC, incluindo “Life in the Freezer” e “The Blue Planet”. Sua última série, “Planet Earth”, uma co-produção da BBC, Discovery Channel e NHK, está atualmente sendo exibida. Veja em: www.bbc.co.uk/planetearth.


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