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Julho
2006

Destaque
Uma família global:
a verdadeira ordem evolucionária da globalização
Elisabet Sahtouris

Tivemos na mais excitante, fascinante e também na mais complexa e confusa época da história humana. Pela primeira vez, pessoas comuns e líderes podem conversar instantaneamente por todo o planeta. Nossas conversas são sobre grandes problemas globais, além de uma miríade de questões pessoais e locais. Independentemente de quais sejam os temas dessas conversas, as pessoas estão transformando o mundo. Embora muitos indivíduos e organizações estejam engajados em uma transformação positiva, muitos outros estão perdendo suas esperanças à medida que observam as aparentemente intermináveis crises que se empilham umas sobre as outras. É uma impressionante mistura de eventos que agitam o mundo e confundem nossa mente com sua complexidade.

Para mim, uma bióloga evolucionista, a chave para se entender essa complexidade, tão abundante de contradições, é observar a humanidade ao lado de outras espécies na grande trajetória evolucionária no planeta Terra. Enquanto me empenho nesse exercício, noto uma harmonia inteligente moldando-se à natureza repetidas vezes. Então, chego a ver a Terra como um grande ser vivo com uma combinação genética comum, partilhada por todas as suas espécies, e o cosmos como um sistema vivo, em evolução e auto-organizador. Essa visão vai além do que eu ensino V formalmente como cientista. Mas, aos poucos, conheci muitos outros cientistas que, de forma independente, também viam as coisas dessa maneira, e percebi depois que toda a história científica de “como são as coisas” vem evoluindo com a própria humanidade.

História da Criação

Todas as culturas necessitam de histórias da criação e as possuem, para dar significado e propósito à vida humana. Na era moderna, os cientistas se incumbiram de contar a história “oficial” da criação, a história de “como são as coisas” em nosso cosmo e no mundo. Pretende-se que a história científica da criação origine-se das pesquisas, em vez de ser uma revelação e, portanto, está sujeita à sua própria evolução enquanto ciência que obtém conhecimento. Embora a maior parte do mundo tenha se convencido de que a história científica contada é digna de crédito, essa história, por outro lado, também levou muitos ao desespero da condição humana e os conduziu de volta às antigas histórias da religião que oferecem consolo e esperança.

Precisamos compreender os aspectos depressivos da história científica da criação que nos prendeu a um sistema econômico injusto e à degradação ambiental. É preciso entender também como essa história está agora se transformando para nos dar uma nova esperança de um mundo verdadeiramente melhor.

A história científica da criação, em sua forma mais simples, originou-se da Física e da Biologia. A Física a iniciou contando-nos que vivemos em um Universo acidental e sem vida governado pela entropia — um Universo sem significado ou propósito. A Biologia continuou esse tema básico dizendo que estamos fadados a uma interminável luta competitiva na escassez, pois esse é o caminho natural da evolução e, assim, da nossa própria natureza humana.

Essa é uma história depressiva. Ela se desenvolveu mais especificamente entre as décadas de 1850 e 1870, quando Rudolf Claudius formulou a lei da entropia, e Charles Darwin a teoria da evolução biológica. Embora tanto a Física quanto a Biologia tenham desenvolvido suas histórias desde então, esses ensinos fundamentais ainda permanecem como a história científica da criação para a cultura mundial de hoje.

Uma importante conseqüência dessa história científica foi considerar a vida humana como livre de qualquer significado ou propósito, além da aquisição material. Uma outra foi o afastamento das antigas histórias da criação das grandes religiões, a única fonte então de significado e esperança. Uma terceira conseqüência: o relativismo cultural, originário do clamor de que a ciência é isenta de valores — a idéia de que crenças e valores éticos somente se adaptam a determinada cultura. Esse último conceito tem sido questionado, à medida que reconhecemos a necessidade de valores básicos comuns em uma época de globalização.

A história científica do Ocidente forjou um mundo cultural dominante que, cada vez mais, sacrifica a riqueza dos relacionamentos encontrados nas antigas culturas humanas em prol de um consumismo material, amplamente difundido, mesmo para aqueles que empobreceram na luta competitiva de nossa economia mundial. Essa cultura de consumo injusta é hoje considerada insustentável — um termo que rigorosamente significa “não pode durar, tem de mudar”.

Insustentabilidade é a crise material prevalecente na atualidade, tendo ao seu lado a desesperança como a crise espiritual. Mas ambas são ricas em oportunidades para a nossa evolução rumo à cooperação.

“Surge todo um novo campo de investigação
cientifica de comunhão e co-criação conscienciosa entre todas as espécies e formas de vida,
dando-se especial atenção ao conhecimento
indígena a esse respeito.”

A crença científica em um universo inanimado é uma crença fundamental — uma questão não comprovada sobre a qual a ciência ocidental foi construída — e não o resultado de uma pesquisa. Para os pais fundadores da ciência ocidental, que eram religiosos, acreditar no Universo como um vasto mecanismo deu-lhes esperança de compreendê-lo como a invenção de um deus, de cuja imagem foram feitos e por quem foram capacitados como inventores de seu próprio direito. Quando esse deus foi rejeitado pela ciência, a crença em um universo mecânico realmente se tornou ilógica, uma vez que mecanismos são conjuntos de partes projetadas para os propósitos particulares de seus inventores. Foi essa perspectiva sem lógica de uma natureza sem propósito e acidental que me guiou em meu trabalho sobre novos fundamentos para a ciência ocidental mais compatíveis com as descobertas de suas pesquisas.

Uma história científica da evolução

Cada vez mais conheço cientistas ocidentais que, como eu, reverteram sua crença em um universo material dando lugar à consciência no processo de evolução, assumindo que a consciência é condição primária e faz surgir o mundo material evolutivo. Mesmo que não tivessem feito essa clara mudança de crença, muitos reconheceriam que toda a experiência humana ocorre dentro da consciência humana. Portanto, os modelos científicos do Universo devem ser vistos como modelos de um Universo pautado pela consciência humana, definindo a realidade como a soma total da experiência humana direta.

Tempestade de areia em Mali. A história científica do Ocidente mudou nosso relacionamento com a Terra, com conseqüências negativas.

A experiência humana é definida tanto como um mundo externo incluindo o experimento científico, quanto como um mundo interior de pensamentos, sentimentos, emoções, sonhos, lucidez e intuição. Tomando a experiência interior tão seriamente quanto a exterior, a nova classe de cientistas está empenhada em projetos inspirados em culturas experientes de estudo dos mundos interiores, que construíram importantes pontes com as tradições espirituais. Os contínuos trabalhos do Dalai Lama com laboratórios neurológicos são um exemplo.

Nessa nova perspectiva, tudo que é perceptível em nosso Universo e em nosso planeta se auto-organiza e recriase dentro e a partir de um campo comum da Unicidade, hoje chamada de energia do Ponto Zero. Surgem novas teorias que desafiam a doutrina de um Universo escorregando para uma entropia sem sentido, vendo, em vez disso, um equilíbrio dinâmico de forças.

Na Biologia, a definição de vida chamada autopoiesis — ou autocriação — afirma que uma entidade viva é aquela que está sempre criando-se e mantendo- se em sua relação com o meio ambiente. Embora desenvolvido para as entidades biológicas que são as formas de vida da Terra, esse modelo pode ser fácil e persuasivamente estendido à Terra como um todo, bem como a todo o Universo auto-organizador. Uma das grandes vantagens de ver o Universo como uma entidade viva é que isso ajuda a resolver a difícil questão de como a vida surgiu da não-vida, a consciência da não-consciência e a inteligência da não-inteligência. De uma perspectiva biológica, então, podemos ver um metabolismo universal de construção anabólica e colapso e reciclagem catabólicos. Esse processo é consistente com o vórtice fundamental de uma vasta nuvem proto-galáctica no macrocosmo e até com a menor partícula em rotação no microcosmo. Ele revela um Universo auto-organizador, mantendo-se em todos os níveis — vivo pela própria definição de autopoiesis. A Terra é uma célula gigante autoorganizadora que continua a reciclar seus componentes por meio de uma atividade na placa tectônica, nos padrões do clima, no fluxo do magma e na sedimentação. A vida na Terra, como eu disse, é uma rocha rearranjando-se.

Nebulosa da Águia, uma região a 7 mil anos-luz, nascedouro de estrelas. As colunas gigantes de gás hidrogênio e poeira no centro possuem anos-luz de comprimento e são tão densas que o gás em seu interior se contrai gravitacionalmente e forma novas estrelas, muitas das quais visíveis.

A célula gigante Terra ganha maior complexidade com a evolução de pequenas células em sua superfície por meio da aliança inteligente de DNA e proteínas. Essas células microscópicas evoluem para uma enorme variedade e complexidade, intercambiando seu material genético, à medida que o DNA torna-se a língua planetária da vida, permitindo que cópias sejam codificadas e partilhadas entre as criaturas da Terra — desde a menor célula chamada bactéria até os maiores mamutes e carvalhos.

“A vida na Terra, como eu disse, é uma
rocha rearranjando-se.”

Com a Física e a Biologia reconciliados em um modelo comum, sendo a vida na Terra um caso especial de complexidade adicional entre o macrocosmo e o microcosmo, como os antigos intuíram e hoje podemos medir, os outros campos da ciência vão se integrar rapidamente. A medicina alternativa já está ganhando relevância. Muitas conferências estão sendo realizadas para integrar as visões religiosa e científica de mundo. Surge todo um novo campo de investigação cientifica de comunhão e co-criação conscienciosa entre todas as espécies e formas de vida, dando-se especial atenção ao conhecimento indígena a esse respeito.

Evolução por meio da cooperação

Talvez ainda mais importante: a biologia da evolução, da forma como eu a vejo, envolve ciclos de maturação evolucionária que vão além do modelo darwiniano de evolução por meio da luta competitiva. As chamadas “espécies pioneiras” exemplificam o primeiro estágio imaturo de uma evolução de espécies vivas, no qual elas se multiplicam de forma rápida, competindo agressivamente pelos recursos para se estabelecerem. Contudo, além disso, as espécies podem aprender a formar alianças cooperativas, nas quais se alimentam e se nutrem, umas às outras, evoluindo para uma colaboração que lhes permitam construir sistemas complexos e estáveis, como as chuvas tropicais e as pradarias — sem mencionar as complexas criaturas multicelulares.

“Os interesses próprios somente são destrutivos
quando não contidos pelos interesses próprios de
comunidades maiores.”

Esse processo de evolução cíclico e evolucionário pode ser visto na forma em que a antiga bactéria competitiva e hostil evolui para uma colaboração pacífica, que dá origem a células nucleares maiores e mais complexas por meio de uma divisão de trabalho cooperativo. Todos os fungos, plantas e animais, incluindo os humanos, são feitos dessas células cooperativas, que passam pelo processo de competição hostil, para obtenção de recursos, antes de evoluírem para criaturas multicelulares pelo mesmo processo de aprender uma divisão de trabalho cooperativo. Esse mesmo ciclo evolucionário está agora conduzindo nossas nações humanas competitivas para colaborarem como uma família global.


Nesse novo modelo, vemos que todas as grandes crises da Terra produziram também suas maiores ondas de criatividade. Os períodos de extinção de muitas, senão da maioria, das formas de vida foram seguidos por uma repentina explosão de novas formas de vida, em vez das lentas transformações lineares de Darwin. Esses padrões somente surgiram após os antigos terem sido completamente abalados, como revelam os fósseis.

Os resultados das pesquisas que apontam para esse novo modelo já estão disponíveis na Física, Química, Biologia, Medicina e Psicologia, com suas evidências se acumulando no último século, precisando apenas serem colocados em um contexto mais holístico baseado na conscientização e na vida universal. Uma vez que esse novo modelo científico seja aceito e divulgado em todo o mundo, haverá uma enorme liberação de esperança, alegria e criatividade, inspirada em um Universo dinâmico, equilibrado e sustentável que não está em decadência, e por uma inspiradora teoria evolucionista que mostra que o caminho futuro não é de competição hostil na escassez, mas de colaboração criativa e de reciclagem para produzir uma abundância sustentável para todos.

Construindo uma família global

Os humanos aprenderam com a experiência que mudar antigas estruturas rígidas envolve crise existencial. Uma borboleta não pode surgir sem se transformar a partir de uma larva, e muitas histórias culturais, como a da fênix surgindo das cinzas, reconhecem esse padrão. Civilizações inteiras entraram em colapso antes de ressurgirem. Filosofias e crenças foram transformadas e dissolvidas ao longo da história para que novas as substituíssem. A evolução biológica nos possibilita compreender milhares de anos de construção de impérios de forma competitiva — de reinos a nações-Estado e corporações multinacionais — da fase infantil para a adolescência da evolução socioeconômica e política da humanidade.

Sistemas de vida permeiam-se uns aos outros, como os holons numa holarquia. Eles operam pelos mesmos princípios em todos os níveis — como células, organismos, famílias, comunidades, ecossitemas, nações ou economia mundial. Quando cada nível é capaz de se expressar e encontrar seus interesses próprios, ocorre a negociação e se desenvolve a cooperação. Os interesses próprios somente são destrutivos quando não contidos pelos interesses próprios de comunidades maiores, ou quando as comunidades maiores não conseguem compreender que sua saúde depende das comunidades menores permeadas umas pelas outras. A Organização Mundial do Comércio, por exemplo, não pode criar uma economia mundial saudável sem ir ao encontro dos interesses expressos pelas economias locais.


Cada indivíduo, assim como cada célula em um organismo, deve ser auxiliado em suas necessidades. A diversidade deve ser reconhecida como essencial para a criatividade, enquanto que nosso objetivo comum deve ser o de conduzir nosso sistema planetário de vida a um estágio evolucionário maduro de cooperação e sustentabilidade mútua o mais rápido possível.

Novos projetos de construção de uma família global por meio de empresas cooperativas já surgiram em todos os lugares ao redor do globo, hoje entrelaçadas pela internet, por meio da qual podem se comunicar e se fortalecer umas às outras. Uma história pode ser um poderoso catalisador para a transformação e, à medida que uma nova história da ciência se populariza, esses esforços florescerão mais e mais. Em minhas viagens ao redor do mundo como bióloga evolucionista, vejo o ânimo aumentar e as mangas serem arregaçadas quando conto essa história, mostrando às pessoas que a natureza está ao nosso lado e que as crises são oportunidades de evolução. Nós, humanos, podemos seguir o exemplo de incontáveis outras espécies para uma colaboração madura, porque já nos encontramos nesse grande problema agora.

A Dra. Elisabet Sahtouris é uma reconhecida bióloga evolucionista, futuróloga, escritora, pesquisadora e consultora de empresas. Entre seus livros, inclui-se Earthdance: Living Systems in Evolution. Visite www.sahtouris.com


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