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Janeiro/Março
2006

Retratos de Cidadãos Globais
Natalia Sats:
o triunfo do espírito humano

Natalia Sats encontrou-se com o presidente da SGI em Tóquio (julho de 1982).
As dificuldades são uma prova de vida; o sofrimento é o solo onde cresce uma genuína alegria. Essa verdade foi demonstrada por Natalia Sats, considerada a mãe do movimento de arte infantil da Rússia. Ela tinha a inocência de uma jovem, e a sinceridade de sua fala e o brilho de seu sorriso revigoravam todos. Encontramo-nos por sete vezes e, em todas as ocasiões, descobria que ela estava mais jovem e mais calorosa do que antes. Ela era uma pessoa de grande simplicidade e honestidade. Essa era a sua maior força.


A Sra. Sats, que faleceu em 1993, aos 90 anos, fundou 20 teatros infantis, organizando apresentações de crianças em todo o mundo, apesar de enfrentar dificuldades incríveis. Creio que ela foi capaz de sobreviver a todas as dificuldades devido ao seu amor pela arte e pelos seres humanos, à sua família e a ela mesma.

Natalia Sats estava com 14 anos quando ocorreu a Revolução Russa, e seu país renasceu como a União Soviética. Seu querido pai, um violinista, compositor e maestro, com uma paixão pelas artes e que gostava de ajudar as pessoas, faleceu quando Natalia tinha apenas 8 anos. Após a morte de seu pai, ela foi muito encorajada por um de seus amigos artistas, pedindo-lhe que o ajudasse a ensaiar uma música composta por ele para um desfile. Ela se lembrava da melodia melhor que ele, e ele brincava dizendo precisar dela como sua assistente.

Quando irrompeu a revolução, sua cidade foi destruída e as escolas fechadas. Os tempos eram realmente caóticos. Natalia aprendera muito mais com suas visitas ao teatro quando era criança do que na escola, e percebeu que as crianças, mais do que nunca, precisavam da arte.

Aos 15 anos, começou a agir, empregando-se no teatro municipal de Moscou e em uma agência musical, onde foi incumbida de desenvolver um teatro para crianças. Completamente sozinha, jurou que, já que um teatro infantil era ainda um espaço vazio no mapa das artes, ela, com suas próprias mãos, preencheria aquele mapa de forma brilhante.

A primeira apresentação que organizou, o show de marionetes David, foi realizado em junho de 1918, e as 350 crianças que participaram gritavam de empolgação. Natalia percebeu como as crianças ganhavam esperança, alegria e força a partir dessa experiência mágica, e elas retornavam repetidas vezes, trazendo seus amigos, irmãos e irmãs.

Como Natalia era muito jovem, as pessoas zombavam de suas idéias. Mas ela começou a falar com um de cada vez, fazendo aumentar rapidamente o número de pessoas que a compreendiam e simpatizavam- se com ela.

Natalia Sats no palco, após a apresentação
de Cinderela, em Tóquio, em novembro de 1990.

Um desses amigos era o grande compositor russo do século XX, Sergei Prokofiev. Em resposta a essa amizade, ele compôs a obra Pedro e o Lobo e dedicou a Natalia.

O Teatro Estatal Infantil de Moscou, que Natalia fundou, era muito pequeno no início. Mas ela perseverou firmemente e, em 1936, foi construído o Teatro Infantil Central. Mas isso não era nem o início — e muito menos o fim — de suas dificuldades e problemas.

No ano seguinte, Natalia e seu marido foram acusados de serem traidores da nação durante um dos expurgos de Stalin. Seu marido foi preso e posteriormente executado. Sem saber do destino do marido, ela própria foi banida para a Sibéria. O choque foi tão grande que seus cabelos castanhos perderam toda a cor da noite para o dia. Ela ficou em um campo para prisioneiros políticos durante cinco anos. Sua liberdade foi extremamente limitada por 18 anos.

Entretanto, superando todas essas adversidades, Natalia continuou a perseguir o juramento que havia feito quando tinha 14 anos. Ultrapassando tudo, ela jamais se esqueceu da importância da perseverança, paciência e continuidade.

Finalmente ela venceu. Completou seu brilhante mapa dos teatros infantis no mapa- múndi das artes e deixou sua marca na história.

Em sua autobiografia, Natalia se lembra de suas experiências na Sibéria. Seus interrogadores prometeram-lhe que ela seria libertada e retornaria para casa se fizesse declarações falsas incriminando seus amigos. Natalia disse simplesmente: “Lamento, mas fui ensinada desde criança a respeitar a verdade. Por isso, jamais compraria a felicidade de meus entes queridos com uma mentira.” Ela manteve com orgulho sua dignidade como ser humano, e viveu uma vida corajosa e nobre.

Havia muitas outras mulheres inocentes presas na cela onde Natalia estava, todas estarrecidas de medo e tristeza. Embora estivesse em uma situação difícil, Natalia não se retraiu em sua própria tristeza. Começou a pensar em como poderia elevar o ânimo de suas companheiras de cela em desespero. Pensando nas outras, o sol da esperança começou a surgir novamente em seu coração.

Natalia também escreveu em sua autobiografia: “Eu deveria ajudá-las e a mim mesma a sobreviver. Tinha de mudar meu modo de pensar, tentar acreditar que aquela realidade não era o fim...” Sua determinação era de que, não importando como suas circunstâncias fossem miseráveis, sua vida não estava acabada e ela deveria lutar até o fim.

Mesmo em meio a uma situação desesperada, a arte
as fez reviver — a irreprimível energia da vida
possibilitou que transcendessem o sofrimento e chegassem finalmente à felicidade.

Quando Natalia olhou ao redor, percebeu que suas companheiras tinham muitos talentos. Decidiu fazer uso das habilidades daquelas mulheres organizando uma escola — uma sala de aula na cela onde elas poderiam partilhar todo o conhecimento que possuíam. Uma poderia ensinar química. Outra, medicina. Natalia, com sua rica experiência teatral, poderia cantar para elas.

A cela era quieta e isolada — um local perfeito para estudar! Também servia como um teatro onde elas poderiam desfrutar as artes. Criaram até um coral que chegou a visitar outros campos de trabalho e divertir os prisioneiros. Mesmo em meio a uma situação desesperada, a arte as fez reviver — a irreprimível energia da vida possibilitou que transcendessem o sofrimento e chegassem finalmente à felicidade.

A cela de Natalia era pequena, mas uma grande história foi criada lá. Ela e suas companheiras decidiram que era errado as pessoas sofrerem sozinhas. Na solidão, o sofrimento apenas fica maior e a esperança desaparece.

Creio que Natalia Sats demonstrou a vitória da vontade humana sobre o que parece um destino cruel e árduo conduzido pela mão do destino. Em um poema dedicado a ela, eu escrevi:

A arte é o pulso
Da vida.
É prova de
Que vivemos!
Em todas as épocas,
Em todos os lugares,
Você quis cantar
Para fazer ressoar o som da esperança.
Você recusou se permitir
Que as cordas ressoantes
De seu coração
Fossem rompidas.
(...)
Reunindo a grande força
De sua vontade, você confrontou
O destino.
Isso, verdadeiramente, é a liberdade.

Natalia certa vez lembrou que a visão budista da vida eterna que aprendeu comigo deu-lhe esperanças ilimitadas: “Em meu caso, nada vem facilmente”, disse. “Há sempre problemas, mas eu realmente saboreio o desafio de enfrentá-los. Minha vida tem sido como uma peça shakespeariana — em que o humor encontra- se em meio à tragédia. Nas épocas mais difíceis, dou uma piscada para mim mesma e digo: ‘Você está com um pequeno problema, não é?’ É como se houvesse dois eus, um deles em um palco. Não importa que dificuldades o meu eu no palco encontre, meu outro eu observa minha brilhante apresentação com um sorriso de satisfação, parecido com o do produtor da peça. À medida que mantenho essa postura, meu eu no palco percebe imediatamente que vida é sinônimo de ação.”

Como Natalia Sats demonstrou de forma tão bela, a força de caráter está em representar o drama da vida com coragem, convicção e alegria.


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