Edições Anteriores
Janeiro/Março
2006

Destaque
Criar esperança
Daisaku Ikeda


O budismo ensina que a mesma força que move o Universo existe dentro de nossa vida. Cada indivíduo possui um imenso potencial. Assim, uma grande transformação na dimensão interior da vida de uma pessoa tem a força de tocar a vida dos outros e mudar a sociedade. Se modificamos nossa determinação interior, tudo começa a se mover em uma nova direção.

Nesse sentido, a esperança é uma decisão. Quando possuímos o tesouro da esperança, podemos extrair da vida nosso potencial e força interiores. Uma pessoa de esperança sempre consegue avançar.

A esperança é a chama que nutre nosso coração. Ela pode ser acesa por qualquer um — pelas palavras encorajadoras de um amigo, um parente ou um mestre —, mas precisa ser atiçada e mantida pela nossa própria determinação. O crucial é a determinação de continuarmos a acreditar em nossa própria dignidade e possibilidade sem limites, além de crer da mesma maneira nas outras pessoas.

Mahatma Gandhi conduziu o movimento da não-violência pela independência da Índia e obteve sucesso contra todas as adversidades. Ele era, de acordo com suas próprias palavras, “um otimista incorrigível”. Suas esperanças não se baseavam nas circunstâncias, aumentando ou diminuindo à medida que as coisas melhoravam ou pioravam. Em vez disso, ele se baseava em sua fé inabalável na humanidade, na capacidade das pessoas para o bem. Ele se recusava em absoluto a abandonar sua fé em seus companheiros.

“Ela começa com esse desafio, esse
esforço de empenhar-se por um ideal...”


Manter a fé na bondade essencial das pessoas e realizar esforços consistentes para cultivar a bondade em nós mesmos, como Gandhi provou, são a chave para liberar a grande força da esperança. Acreditar nos outros e em nós mesmos dessa maneira — mesmo travando a difícil luta interior para fazer disso a base de nossas ações — pode transformar uma sociedade que algumas vezes parece mergulhada nas trevas em um mundo humano e iluminado em que todas as pessoas são tratadas com respeito.

Há ocasiões em que, confrontados com uma realidade cruel, parecemos perder todas as esperanças. Se não conseguimos sentir esperança, é tempo de criá-la. Podemos fazer isso procurando fundo dentro de nós, procurando até mesmo pelo menor lampejo de luz, por um caminho para começar a quebrar o impasse diante de nós. E nossa capacidade de sentir a esperança pode ser expandida e fortalecida pelas circunstâncias difíceis. Por outro lado, a esperança que não pode ser testada nada mais é do que um sonho frágil. Ela começa com esse desafio, esse esforço de empenhar-se por um ideal, não importando o quão distante esteja.

Acredito que a derradeira tragédia na vida não seja a morte física, mas a morte espiritual ao se perder a esperança, desistindo de nossas possibilidades de crescimento.

Meu mestre, Jossei Toda, escreveu certa vez: “Olhando as grandes pessoas do passado, descobrimos que elas permaneceram invencíveis diante das dificuldades e das ondas que golpearam suas vidas. Elas agarraram- se rapidamente às esperanças que pareciam meros sonhos fantásticos para outras pessoas. Não deixavam nada detê-las ou desencorajá-las de realizar suas aspirações. Tenho certeza de que a razão para isso é que suas próprias esperanças não eram direcionadas para a realização de desejos pessoais ou interesses próprios, mas se baseavam no anseio pela felicidade de todas as pessoas, e isso as enchia com uma convicção e confiança extraordinárias.”

Jossei Toda ressalta uma verdade importante: a esperança de fato está em nos comprometermos com imensos objetivos e sonhos — sonhos como um mundo sem guerra ou violência, um mundo onde todos possam viver com dignidade.

Os problemas que o nosso mundo enfrenta são aterradores em sua profundidade e complexidade. Algumas vezes, é difícil ver onde — ou como — eles começam. Mas não podemos ficar paralisados pelo desespero. Devemos agir rumo aos objetivos que estabelecemos e em que acreditamos. Em vez de aceitarmos as coisas como são, devemos embarcar no desafio de criar uma nova realidade.

É nesse esforço que encontramos uma esperança verdadeira e eterna.

Uma versão maior deste ensaio foi publicada pela primeira vez em Hold Hope,Wage Peace (2005), editada por David Krieger e Carah Ong, disponível no site www.waginpeace.org.

 


Textos e imagens pertencentes à Associação Brasil SGI. Direitos Reservados.