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O renascimento da cultura
cambojana: minha história
Em Theay

Sra. Em Theay. |
Estou com 72 anos. Até recentemente, eu era professora de canto e dança de música khmer na Universidade Real de Belas Artes, em Phnom Penh. Meus pais, falecidos, trabalharam no serviço doméstico para os pais do rei Sihanouk. Assim, cresci no palácio e comecei a ter lições de dança quando tinha 6 anos. Dancei e cantei para o rei durante muitos anos. |
Tive ao todo 18 filhos, mas em 1975 apenas 12 viviam, quando o Khmer Vermelho removeu toda a população em cada cidade e vila. Quando fui forçada a viver em Phnom Penh, o que eu mais valorizava eram três livros com lições sobre dança khmer. O Khmer Vermelho havia me colocado para trabalhar no campo, e eu escondi os livros até o fim.
Eles me separaram de todos os meus filhos, mesmo dos menores. Quando soube que um deles havia morrido, pedi às autoridades do Khmer Vermelho para ver o corpo dele. Eles não me atenderam. No dia seguinte, fui forçada a trabalhar como se nada houvesse acontecido. Eu chorava por dentro; isso era muito triste, muito cruel.
Quando ocorreu o mesmo a um outro filho meu, acabei desmaiando enquanto trabalhava em um arrozal. Quando acordei, estava em um hospital.
Salva
Como sabiam que eu era atriz, minha vida foi poupada, mas não a dos meus filhos. Normalmente consideravam como parasitas da sociedade as pessoas ligadas ao entretenimento, e muitos foram mortos. Mas, eles me acharam útil. O chefe militar local gostava de me ver cantar. Assim, ele me pedia freqüentemente para cantar e dançar. Depois, também me usou para cantar em um campo de crianças órfãs.
“Atividades culturais
como a dança
faziam nosso
povo gentil e humilde.”
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Após o Camboja ter sido libertado desse regime genocida, fui para uma vila próxima onde aguardava por notícias e buscava pelos meus outros filhos. Soube que sete haviam falecido ou tinham sido mortos — restavam apenas cinco.
Conheci uma ex-estudante de dança clássica que me pediu para voltar a ensinar. Eu ensinava e me apresentava nas ruas — na época, dançávamos em troca de alimento, de arroz. Meses depois, consegui viajar de volta para o palácio em Phnom Penh. Ao chegar lá, pediram-me para ser uma instrutora cultural. Mais tarde, o Ministério da Cultura e Belas Artes convidou-me para ensinar dança e canto.

Em Theay ensina dança tradicional às crianças estrangeiras que vivem no Camboja. |
Dançar trouxe-me de volta antigas memórias dos bons dias e fez com que muitas pessoas que eram miseráveis na época sorrissem. Muitas crianças começaram a aparecer nas aulas. Atividades culturais como a dança faziam nosso povo gentil e humilde. Orávamos para as entidades celestiais que eram maiores do que nós. |
Fiquei abalada quando descobri que tudo relacionado às artes e cultura fora destruído, mas meu amor por essas expressões me fez pensar que devíamos reviver o que havia desaparecido. Eu dediquei toda a minha vida a trazer a arte de volta e fazê-la florescer novamente.
A arte e a dança são muito importantes para a vida do khmer desde os tempos antigos. Isso porque a cultura reflete a nossa sociedade e mostra a sensibilidade e o pensamento do khmer em suas coreografias. Mostra ainda que esse povo é repleto de graça e dignidade, gentileza e humildade. E também auxilia a próxima geração a se conhecer por meio do comportamento e do imaginário da dança. Essa dança clássica é também uma forma de mostrar ao mundo o povo do khmer, sua cultura e arte.
Receamos que nossa cultura se perca nas próximas gerações. Hoje, há novos elementos culturais que podem transformar nosso estilo de dança tradicional. De fato, ela já se transformou.
Mas tenho esperanças pelo futuro do Camboja todas as vezes que ensino aos mais jovens a arte da dança. Sinto que a coreografia do khmer está viva e que continuará a se desenvolver de geração a geração para sempre. Ela não será diminuída nem perecerá, enquanto o Camboja existir em nosso planeta.