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Janeiro/Março
2006

Destaque
Cultura: revivendo a esperança
Proeung Chhieng

Uma civilização pode brilhar apenas quando houver um bom relacionamento e equilíbrio entre a cultura e sua estrutura social. A cultura pode ser considerada como qualquer atividade que crie valor e conhecimento para a sociedade humana — o que é denominado budhii em khmer (o idioma do Camboja). A estrutura social — a organização da sociedade — deve objetivar o fortalecimento do progresso rumo à realização da paz. Budhii infunde os valores morais e éticos na estrutura social e cria a paz de mente e espírito.

A sociedade pode progredir somente quando a cultura é forte. Esse equilíbrio é necessário para o florescimento da nação e sua civilização; somente quando o organismo é saudável e o espírito está satisfeito, os seres humanos podem conhecer uma paz verdadeira.

Idade das trevas Após


Um dançarino vestido como um príncipe, em Angkor Vat, 1921.
o grande período Angkor, do século IX ao XIV, o Camboja sofreu uma amarga sucessão de guerras causadas pela invasão estrangeira e pelas revoltas civis. Como resultado, a cultura, nossa mais valiosa herança nacional, foi quase extinta. A ameaça mais severa veio com o regime genocida de Pol Pot, entre 1975 e 1979, quando o Khmer Vermelho, com suas tolas ambições, quis transformar o Camboja no que chamou de uma “nova sociedade”.

O Khmer Vermelho procurou destruir toda a infra-estrutura da antiga sociedade, incluindo as tradicionais danças khmer e outras manifestações culturais, sob o pretexto de que elas eram herança do regime feudal. Artistas, tanto homens quanto mulheres, foram presos, torturados e mortos. Outros foram levados à beira da morte pelo trabalho forçado e má nutrição. O Khmer Vermelho matou professores, estudantes, músicos, cantores — o patrimônio vivo de uma cultura. Eles também destruíram quase toda a documentação escrita, filmes, obras de arte e registros.

Os artistas e acadêmicos que não foram mortos mal podiam sobreviver; viviam sob constante medo, sem esperanças, esperando apenas sua vez de morrer.

Quando esse regime bárbaro caiu, em 7 de janeiro de 1979, o novo governo da República Popular do Camboja enviou gente por todo o país para encontrar pessoas capacitadas em todos os campos, e solicitarlhes que ajudassem a construir o país. Naquela época, os grupos artísticos profissionais administrados pelo Estado e os organizados de maneira local começaram a ressurgir em todas as províncias, nas cidades e nas comunidades. Em Phonm Penh, havia um grupo central ligado ao Ministério da Cultura e Informação, que reunia artistas, acadêmicos, professores e estudantes de arte.

Renascimento

Em 1980, o governo autorizou a abertura urgente de um festival nacional de artes. O objetivo era coletar informações sobre expressões artísticas e ex-artistas sobreviventes, com o objetivo de formular diretrizes para um plano de reconstrução da arte e da cultura cambojanos.

Proeung Chhieng foi um dos primeiros
dançarinos masculinos a interpretar
o papel de Hanuman, o rei-macaco,
na versão cambojana do Ramayana.

Com o início do festival nacional de artes, descobrimos que somente 10% dos professores e estudantes de artes — dos vivos em 1975 — haviam sobrevivido. Quanto às formas artísticas, algumas haviam desaparecido completamente, outras necessitavam de atenção imediata para serem restabelecidas. Quanto aos professores sobreviventes, os curadores da arte, estavam velhos e com saúde debilitada. Para lidar com essa grave situação, decidiu- se reabrir a Escola de Belas-Artes. No primeiro ano, 1980–1981, havia 480 alunos. Oitenta por cento deles eram órfãos, filhos e filhas dos artistas que foram mortos durante os anos do Khmer Vermelho.

A tarefa da Escola de Belas-Artes é desenvolver as fontes humanas que são a semente de uma nova geração nos campos da arte e da cultura nacionais. Para o Camboja, essas pessoas representam e incorporam o espírito e a identidade nacionais, a esperança e o orgulho nacional de cada cambojano. O Balé Real e a Dança Tradicional Khmer, por exemplo, é uma forma de arte sagrada com conteúdo religioso e espírito humanístico. As dançarinas eram originariamente as devadasi, com o papel de fazer dedicações aos deuses. Essa forma de dança existiu durante séculos, e as dançarinas eram mensageiras da paz entre o mundo humano e o mundo dos deuses; eram encarnações da paz espiritual ensinando e propagando valores morais e ética em prol da paz no Camboja. Essa dança é uma forma de arte que incorpora tanto um cerimonial religioso quanto um ideal social.

Essas apresentações da arte tradicional foram como
uma luz da esperança para os próprios artistas,
assim como para todos os cambojanos; elas representaram o ressurgimento do espírito vital
e da identidade única do povo cambojano.

Devido ao seu profundo apreço pelo valor de nossa arte e cultura, os artistas sobreviventes e seus poucos professores sobreviventes passaram por inúmeros sacrifícios para reconstruir a arte no país, apesar das difíceis condições após o regime do Khmer Vermelho.


Relevo em pedra no templo Bayon, do século XIII, em Angkor Vat.
Além disso, os grupos artísticos também apresentaram-se para um público que há muito ansiava por essa oportunidade. Essas apresentações da arte tradicional foram como uma luz da esperança para os próprios artistas, assim como para todos os cambojanos; elas representaram o ressurgimento do espírito vital e da identidade única do povo cambojano. Como diz um ditado, “a extinção da cultura representa o desaparecimento da nação.”

A Universidade Real de Belas-Artes hoje treina e desenvolve hábeis representantes da arte e da cultura cambojana, os quais se constituem uma poderosa e essencial força para o desenvolvimento sustentável. Os estudantes de dança que temos treinado são uma verdadeira força do conhecimento artístico e cultural. Eles devotam-se à busca da verdade em prol do desenvolvimento do país. São como novos brotos de bambu, ou uma nova esperança para um Camboja melhor.

HE Proeung Chhieng atuou como dançarino durante os anos 1960. Hoje ele atua como vicereitor e decano da Faculdade de Artes Coreográficas da Universidade Real de Belas Artes, em Phnom Penh.


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