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Janeiro/Março
2006

Destaque
A história de vitória

Conheci Jonathan em 2001, num grupo de apoio em que nos ensinavam como fazer caixas e livros de memória. Comecei visitando clínicas junto com ele, trabalhando com outros grupos.

Fazer a caixa e o livro me ajudou muito. É como escrever um diário, partilhando sua história com alguém, tudo o que acontece com você. Assim, escrevi sobre mim, meu filho e minha família. Na época, eu não estava me saindo bem. Sofria sozinha e minha família nada sabia sobre eu ser portadora de HIV.

Há muita discriminação em torno do HIV. As pessoas dizem que você vai morrer, que é uma prostituta por isso pegou o HIV, e muita coisa assim. Eu queria escrever minha história para que todos soubessem o que havia acontecido, inclusive meu filho quando crescesse. Hoje ele tem 5 anos.

Quando você fala sobre isso, sente-se mais livre, sabe que há pessoas que conhecem o que aconteceu em sua vida e lhe dão apoio. Você pode sair e conversar a respeito, e isso o faz se sentir forte. E os outros também se sentem fortes se vêem alguém conversando abertamente sobre seu problema, pois sabem sobre a discriminação. Queremos que todos sejam fortes, pois quem perde a esperança, morre. Se você é forte, diga a si mesmo: “vou viver muito”, e vai se sentir livre.

Eu fiz a primeira caixa. A primeira coisa que pus nela foi um livro de orações que minha avó havia me dado. A segunda coisa foi um sapato do meu filho, o do lado esquerdo. Ele perdeu o direito quando tinha 3 meses de idade. Eu guardei o outro porque ele gostava do sapato. Também coloquei outras coisas que minha família havia me dado.

Escrevi na caixa a data em que nasci, 11 de setembro de 1968. E escrevi o ano em que fiquei grávida, 2000. Escrevi sobre minha família, sobre meu namorado. Ele fugiu quando eu estava com três meses de gravidez. Escrevi sobre o meu grupo e, quando estou com ele, sinto-me muito feliz porque sei que posso partilhar tudo com eles, e eles podem me ajudar. E eu escrevi uma mensagem agradecendo aos Médicos sem Fronteiras por fornecerem tratamento às pessoas.

Em 2003, decidi que já estava pronta para contar à minha família. Peguei meu livro de memórias e o deixei com eles para que pudessem ler sobre o que estava acontecendo e o que havia acontecido com minha vida. Eles leram tudo, e aceitaram. Eu lhes escrevi muitas mensagens e queria que eles pudessem olhar para meu filho. Então, eles me chamaram e disseram que estava tudo certo. Eles me deram muito apoio.

Hoje, posso ir a qualquer lugar. Não me sinto triste. Sou livre, sou forte. Eu sou Vitória, a Vitória que conheço.


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