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“Esperança não é para fracos”
Frances Moore Lappé
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Atuando como líder de torcida na década de 1950 no Texas, ainda me lembro da emoção — agitando no ar meus pompons brilhantes e alaranjados. Eu adorava fazer os estudantes levantarem-se entusiasmados de seus assentos, as fileiras rugindo. |
Lembrando o passado, percebo que levava muito a sério meu trabalho. Como dizia minha mãe, era uma questão de manter o ânimo de todos, focando no possível. Desempenhava bem essa tarefa, mas, na década seguinte, descobri-me tentando alcançar algo mais distante, e muito mais desafiador, do que animar um time de futebol.
Dar um basta à fome
Que tal o fim da fome no mundo? Eu buscava provar que havia uma base sólida de esperança no sentido de que nós, seres humanos, poderíamos dar um basta à fome. Nesse sentido, fui bem-sucedida: demonstrei que isso ainda era verdade, que havia alimentos mais do que suficientes no mundo para nos tornar todos redondos.
Eu defendia que os seres humanos criavam a própria escassez de alimentos que diziam temer. Assim, as soluções estavam diante de nós: para começar, poderíamos parar de alimentar tanto os animais nas fazendas, eles retornam a nós como carne nas refeições, mas como uma pequena fração dos nutrientes que lhes damos. Eu estava ciente de que, sem esperança, os seres humanos morreriam, se não fisicamente, sem dúvida espiritualmente. Assim, meu objetivo de espalhar esperança parecia muito importante. No entanto, custou-me três décadas para começar a compreender que esperança não é a mesma coisa que liderar uma torcida, nem mesmo amontoar fatos.
Não cheguei aonde cheguei facilmente. Na verdade, fui levada, contra a minha vontade, a repensar a esperança. “Que azar”, pensava eu, “nascer com habilidade para chefe de torcida e, mesmo assim, viver em uma época, a primeira na história da evolução humana, em que podemos observar — e até mesmo mapear — a decadência decadência do planeta: um terço das espécies de peixe ameaçado de extinção; 10 milhões de crianças ainda morrendo a cada ano de doenças evitáveis; o horror da escravidão novamente se propagando; mais pessoas morrendo em conflitos mais violentos do que antes; as calotas polares derretendo mais rápido do que os cientistas haviam previsto.”
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Lappé cita o sucesso do microcrédito
em Bangladesh
como um motivo
de esperança. |
Há esperança nesse cenário?
Nenhuma. Mas descobri que não é esse cenário que devemos observar para encontrar esperança. A esperança não se encontra em algum lugar ou em alguma estatística. A esperança, aprendi eu, é mais um verbo do que um substantivo. É ação. Esperança não é o que descobrimos, mas aquilo em que nos tornamos. Como?
A resposta tornou-se clara para mim como resultado de algo extraordinário: minha filha (que é minha co-autora) e eu viajamos por cinco continentes para, em comemoração do 30º aniversário de meu livro, Dieta para um pequeno planeta, escrever sua seqüência. Era para ser um livro contando a história de pessoas em nove países no limite da esperança, mostrando que é possível chegarmos às raízes dos mais graves problemas sociais e ambientais.
Mulheres do Movimento do Cinturão Verde escolhem
sementes em uma clínica de árvores no Quênia. |
As pessoas com quem nos encontramos eram muito diferentes umas das outras, mas tinham algo importante em comum. Cada uma havia experimentado um “momento de dissonância”, como passamos a chamar, no qual foi despertada para a conexão entre sua vida interior — seus valores e necessidades mais profundos — e o mundo exterior. Elas perceberam que o mundo sendo criado (notem o verbo na voz passiva) não era o mundo que qualquer um de nós queria.
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Nesse momento desorientador, cada um de nós tem uma escolha. Agüentamos esses sentimentos pavorosos e desestimuladores e continuamos? Ou os ouvimos e escolhemos novamente? Continuamos em contradição ou nos libertamos? Arriscamos expressar nossas mais profundas sensibilidades, mesmo que isso signifique — como geralmente significa — romper com rotinas confortáveis e certos laços de amizade?
A esperança, aprendi eu, é mais um verbo
do que um
substantivo. É ação.
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Por exemplo, no Quênia, conhecemos Wangari Maathai. Em 1997, ela viu a desertificação se propagar e plantou sete árvores no Dia da Terra para lutar contra a invasão do deserto. Percebendo que era necessário um grande movimento de aldeões para que isso desse certo, ela procurou as autoridades governamentais. “Não”, disseram eles, “vocês não sabem como; somente os técnicos florestais podem plantar árvores”. Bem, isso foi 20 milhões de árvores atrás, todas plantadas por mulheres moradoras de vilas.
Essas mulheres, parte do Movimento do Cinturão Verde, assim como centenas de outros que conhecemos em nossa jornada, tinham razões para a desesperança. Wangari e os aldeões do Quênia enfrentaram a corrupção política, além de uma das piores secas do país. Conheceram uma pobreza opressiva, piorada pela queda do preço do café no mercadomundial, do qual os aldeões dependiam como fonte de renda.
Mesmo assim, aquelas mulheres estavam entre as mais esperançosas que eu já havia encontrado. Seu ânimo cantava junto com suas vozes e sua dança. Não estavam apenas plantando árvores, mas reivindicando que as tradicionais plantações da África fossem livres da dependência do mercado de commodities do mundo especulativo. Numa cultura em que muitas mulheres reclamam por serem agredidas pelos maridos, elas estavam se levantando por eles. Muitas escolhiam ter menos filhos. Suas camisetas ostentavam o slogan do Movimento do Cinturão Verde: “Eu já fiz minha escolha.”
Talvez muitos de nós procuremos pela esperança nos lugares errados. E talvez essa seja uma das razões para que a Organização Mundial da Saúde considere a depressão como a quarta principal causa de incapacidade e morte prematura. Em menos de 20 anos, será o segundo principal motivo. Talvez estejamos procurando pela esperança nos fatos — registrar o positivo e compará-lo com o negativo. Esperança é algo mais. Esperança é o que fazemos.
Minha filha e co-autora, Anna, adora dizer que costumava pensar que esperança era para os fracos, para pessoas que não conseguiam encarar como as coisas eram ruins. Hoje, por meio de nossa jornada, vemos que o oposto é o verdadeiro: esperança não é para os fracos. É para os fortes de coração. Pois é o que nos tornamos quando, assim como as mulheres do Movimento do Cinturão Verde, fazemos a escolha. Quando escolhemos nos ouvir, arriscamos, e então aprendemos a cantar e a chorar ao mesmo tempo.
Frances Moore Lappé é autora e co-autora de 14 livros, incluindo o best-seller Dieta para um pequeno planeta, e sua continuação,No limite da esperança. Ela é co-fundadora de duas organizações que focam a alimentação e as raízes da democracia.
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