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Janeiro/Março
2006

Destaque
Uma abordagem sobre a esperança
C.R. Snyder

As definições de esperança nos dicionários, de modo geral, refletem expectativas de sucesso na busca de metas. Considerem como exemplo as palavras de uma estudante que acabou de ingressar na faculdade: “Espero me formar em quatro anos.” Uma definição recente de esperança que tem recebido considerável atenção dividiu esse pensamento voltado a objetivos em dois componentes, correspondentes à “vontade” e aos “meios”, louvados em uma antiga expressão: “Onde há vontade, há meios.” Em primeiro lugar, as pessoas acreditam em sua habilidade de encontrar caminhos rumo aos objetivos. Isso se chama “pensamento do caminho”. Em segundo, quando as pessoas acreditam que possuem as motivações necessárias para realmente trilharem tais caminhos, isso se chama “pensamento da ação”. Ter esperanças é ter ambos: vontade (a ação) e meios (os caminhos) para a busca.

Uma história da esperança

Vamos voltar no tempo e explorar a história que é, de longe, a mais conhecida com relação à esperança — a história de Pandora. De acordo com a mitologia grega, Zeus estava furioso com os humanos por eles terem roubado o fogo dos deuses. Para se vingar da humanidade, ele moldou uma bela donzela chamada Pandora e a enviou à Terra. Ela deveria levar uma caixa de dotes e, como pode ser considerado o primeiro registro de psicologia reversa, Zeus advertiu Pandora para não abrir sua caixa. Quando ela finalmente chegou a seu destino, naturalmente a primeira coisa que fez foi dar uma espiada ali dentro. Era exatamente com isso que Zeus contava: forças negativas foram liberadas da caixa para assolar as pessoas da Terra. Ali, havia reumatismo, cólica e gota, além de ódio, inveja e vingança para a mente. Aterrorizada com o que fizera, Pandora correu para recolocar a tampa. Ao fazê-lo, tudo o que conseguiu manter na caixa foi a esperança.

Ter esperanças é ter ambos:
vontade (a ação) e meios (os caminhos)
para a busca.

Considerando-se a atenção dada à esperança ao longo das eras, é como se ela tivesse escapado da caixa de Pandora. Infelizmente, para a maioria, a esperança tem sido vista como algo tão terrível quanto as outras forças que escaparam. A lista de pessoas que vêem a esperança de forma negativa mais parece uma lista telefônica. Platão sugeriu que a esperança era uma “conselheira tola”. Sófocles argumentava que a esperança prolongava o sofrimento humano. Benjamim Franklin afirmou que a pessoa que vive com esperança morre mais depressa. Muitos ainda disseram que a esperança era uma ilusão e que não era perene. Todos esses pontos de vista negativos podem ser contrastados com a perspectiva minoritária da tradição judaico-cristã em que a esperança é retratada como uma virtude (juntamente com a caridade e a fé).

As pesquisas científicas para o exame da esperança começaram apenas na década de 1950, quando profissionais de saúde mental definiram esperança em termos de expectativas de objetivos positivos, de forma similar aos dicionários. Cada vez mais nas duas últimas décadas do século XX, os pesquisadores voltaram suas atenções para a esperança. E, na década de 1990, uma abordagem conhecida como “teoria da esperança” atraiu atenções ao definir a esperança como a habilidade de encontrar caminhos rumo aos objetivos desejados (o “pensamento do caminho”) em conjunto com as motivações para trilhar esses caminhos (o “pensamento da ação”). Essa forma de esperança não se baseia em características herdadas geneticamente. Em vez disso, reflete experiências da fase infantil. Por fim, a teoria da esperança é um exemplo de um ponto de vista emergente no século XXI, conhecido como psicologia positiva e que enfatiza a força das pessoas, em vez de suas fraquezas.

A esperança pode ser medida?

Pouco após o surgimento da teoria da esperança, foram definidas e validadas escalas de medição. O instrumento mais utilizado é um índice conhecido como Escala de Esperança. Essa escala, para adultos, consiste de oito itens em que as pessoas avaliam o quanto é verdadeiro para elas cada um. Há quatro itens de caminhos (por exemplo, “Posso pensar em várias formas de sair de um problema”) e quatro itens de ação (por exemplo, “Busco energicamente meus objetivos”).

Criar vários caminhos para cada objetivo também aumenta o nível
de esperança.
A pontuação da Escala de Esperança é o resultado da soma desses oito itens.

Desde então, outras escalas de esperança vêm sendo desenvolvidas, como uma escala para crianças e outra que expressa a esperança de adultos em áreas de interesse específicas (trabalho, escola, relacionamentos etc.). Dessa forma, há hoje instrumentos confiáveis e válidos para se medir a esperança.

Pessoas de muita esperança X pessoas de pouca esperança

Já há muitos estudos em que os pesquisadores aplicaram uma dessas escalas e apuraram como as pessoas com esperança elevada lidavam com determinadas questões. Cruzando os dados desses estudos, crianças e adultos com esperanças elevadas: (1) lidam melhor com ferimentos, doenças e dor física; (2) têm pontuação mais positiva em quesitos como satisfação, auto-estima, otimismo, sentido na vida e felicidade; (3) têm melhor desempenho nos esportes; e (4) têm mais rendimento escolar. O que é tocante nessas descobertas do relacionamento entre a esperança e o desempenho escolar e nos esportes é que elas estão além das previsões se fossem consideradas apenas as habilidades naturais. Ou seja, a esperança melhorou o desempenho nos esportes mesmo quando as habilidades atléticas naturais dos participantes estavam estatisticamente na média. Da mesma forma, mesmo pessoas com nível de inteligência numericamente na média tiveram desempenho escolar melhor. Até o momento, os estudos não indicaram que homens e mulheres diferem na escala de esperança, assim como pessoas de diferentes etnias ou de grupos minoritários.

Pessoas com pontuação mais elevada na escala de esperança apresentaram, de forma consistente, mais resultados benéficos em vários setores.

A lista de pessoas que vêem a
esperança de forma negativa
mais parece uma lista telefônica.

Os estudos mostram ainda que um pensamento esperançoso também pode ser aumentado. Programas bem-sucedidos foram implementados em grupos, casais e indivíduos. Em um dos casos, um grupo de idosos aprendeu, com mais de dez sessões grupais, como melhorar suas ações para chegar a objetivos prioritários, além de como fortalecer suas habilidades de descobrir meios rumo aos objetivos desejados e motivar-se a seguir esses caminhos. Com relação a um outro grupo de idosos submetidos a um tratamento de lembranças, em que se recordaram de experiências agradáveis ocorridas em sua juventude, os participantes treinados em técnicas de aumento de esperança mostraram uma diminuição significativa da depressão.

Em outro estudo, os pacientes de um centro de saúde mental foram treinados em princípios da teoria da esperança antes de iniciarem seus tratamentos. Em relação aos pacientes que não haviam tido esse treinamento, o primeiro grupo teve significativas melhoras ao longo de seu tratamento. Uma terceira experiência envolveu narrativas sobre esperança gravadas em vídeo e vistas por mulheres vítimas de incesto durante a infância. Comparadas a um grupo de mulheres que assistiram a cenas da natureza, o grupo anterior mostrou níveis de esperança consistentemente mais elevados. Além disso, programas educacionais para ensinar um pensamento direcionado a objetivos ministrados a estudantes até o ensino médio produziram melhorias no nível de esperança. Esses estudos demonstram que a esperança está no âmago do processo que facilita transformações positivas em uma variedade de relacionamentos (como entre psicoterapeutas e médicos com seus pacientes, entre professores e estudantes, treinadores e atletas, chefes e empregados etc.).

Aumentando a esperança em adultos

Nesta parte, são oferecidas algumas dicas para que os adultos aumentem seus níveis de esperança em relação aos objetivos estabelecidos, descubram os meios necessários e tornem-se motivados.

Dicas para os objetivos
• Torne-se mais consciente das decisões que toma sobre objetivos importantes.
• Estabeleça um objetivo porque é algo que realmente deseje, não porque alguém o quer para você.
• Estabeleça objetivos que exijam de você um pouco mais do que em seus desempenhos anteriores.
• Estabeleça diferentes objetivos em diferentes áreas (nos relacionamentos, nas amizades, na carreira etc.)
• Classifique os objetivos do mais para o menos importante.
• Selecione poucos objetivos muito importantes para agir em direção a eles.
• Crie etapas intermediárias facilmente reconhecíveis para cada objetivo.
• Tenha certeza de dispor de tempo suficiente para seus objetivos mais relevantes.
• Não se deixe ser interrompido enquanto trabalha nesses objetivos importantes.

Dicas de caminhos
• Crie vários caminhos para cada um de seus objetivos.
• Escolha o melhor caminho para cada objetivo.
• Divida os objetivos de longo prazo em etapas.
• Comece pelo primeiro passo.
• Mentalize o que faria se encontrasse um obstáculo.
• Quando um caminho não funcionar, não se culpe. Reconhecendo qual estratégia não funcionou, perceba que isso vai auxiliá- lo a encontrar um outro caminho que funcione.
• Se precisar desenvolver uma nova habilidade para implementar um caminho até um objetivo desejado, invista um pouco de tempo nisso.
• Peça ajuda a outros ao planejar como chegar ao objetivo desejado.

Esses estudos demonstram que
a esperança está no âmago do processo
que facilita transformações positivas
em uma variedade de relacionamentos

Dicas de ação
• Aprenda a conversar consigo mesmo de forma positiva (por exemplo, diga “Eu posso fazer isso!”).
• Olhe à frente imaginando quais obstáculos poderiam surgir.
• Veja os problemas como desafios. Michael Bader/Uniphoto 6
• Lembre-se de seus sucessos anteriores, especialmente quando estiver em dificuldades.
• Aprenda a rir de si próprio e desfrute uma boa risada com os amigos.
• Redefina ou encontre objetivos substitutos.
• Desfrute a sensação de chegar aos seus objetivos tanto quanto tentar atingi-los.
• Durma o suficiente.
• Faça várias pequenas refeições e alimente- se bem, principalmente pela manhã.
• Elimine cigarros, álcool e produtos que contenham cafeína.
• Faça exercícios físicos.
• Viva sempre com luz suficiente (especialmente luz solar).

Essas várias abordagens auxiliaram outras pessoas a fortalecer um modo de pensar esperançoso. Vale lembrar, também, que não é necessário empregar todas essas dicas, mas adotar algumas delas pode ajudar a fortalecer a esperança. Pessoas com elevada esperança também gostam de estar juntas de outras pessoas. Se essas outras pessoas possuem um senso de prazer pela vida, isso provavelmente ajudará nos relacionamentos. Embora não haja nenhuma receita para distribuir esperança, perceber que alguém pode aprender a pensar dessa forma é crucial para se tornar mais esperançoso. Ainda deve ser lembrado que as lições de um modo de pensar esperançoso nascem no berço e continuam por toda a vida.

C.R. Snyder é professor de Clínica Psicológica na Universidade do Kansas. Seu livro Psicologia da esperança: você pode chegar lá foi publicado pela Free Press. Ele também já escreveu cinco outros livros sobre esperança.



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