21 de September de 2022

Vencer a si mesma é a principal conquista!

Maria Flávia Lopes Guerra tem deficiência auditiva e comprova no dia-a-dia a força de sua fé e de sua determinação

Ao encontrar o budismo, a deficiência auditiva deixou de ser um empecilho para se tornar uma força propulsora para a sua autorrealização

O amor pelos animais a levou à veterinária...

...e também a motivou à busca pela superação

“Eu tenho perda de audição bilateral com grau moderado a profundo como sequelas de inúmeras otites que tive por volta dos meus dois anos de idade”, contou Maria Flávia. Contrariando todos os prognósticos, está cursando seu doutorado e se tornando a pessoa que determinou que seria. Graduada em Medicina Veterinária, encontrou o Budismo por intermédio de sua antiga companheira, em maio de 2016. “No Budismo percebi que não importa a origem e as condições, se tiver coragem, determinação e disposição para se doar, tudo é possível”, contou Maria Flávia.


Filha do meio, sempre foi introspectiva e tímida, era aquela criança que amava ficar sozinha, brincando com os animais, lendo livros ilustrados e gibis. Devido a isso seus pais demoraram para notar a deficiência auditiva. Só perceberam ao observarem que ela não  interagia e não desenvolvia fala como os demais filhos, cometendo erros de pronúncia em fonemas com frequências audíveis menores, como o s/ss/ç/ch/j/g/z. “Agora imagine meu desespero quando pronunciei o gongyo[i] pela primeira vez...”, ressaltou.


Após os exames médicos constatarem a perda, seus pais providenciaram os aparelhos auditivos e ela iniciou o tratamento fonoaudiológico que durou por cerca de 10 anos para aprender a ouvir e a falar, porém sua dicção nunca será perfeita. “Eu frequentei a escola normalmente, meus pais orientavam os professores a me colocarem na primeira carteira da sala, na frente da mesa deles, para que eu compreendesse bem o conteúdo das aulas”, explicou. Segundo ela foi uma tática que funcionou pois sempre obteve um bom rendimento escolar, com exceção das matérias de exatas, com as quais nunca teve qualquer afinidade.


Foi somente aos 15 anos que ela começou a compreender de fato o que a diferenciava do padrão e, logo após se descobrir homossexual, iniciou a terapia com psicólogo e psiquiatra e foi diagnosticada com Depressão. “Além disso, havia um conflito ideológico em casa, desde cedo. Meu pai é da umbanda e minha mãe é cristã. Religião sempre foi uma questão delicada em casa”, explicou.


Quando, aos 19 anos assumiu sua homossexualidade, outra batalha se iniciou em sua vida. “Meu pai aceitou minha orientação sexual com tranquilidade. Diferente de minha mãe”, disse. Flávia seguiu sua vida dessa forma até que finalmente encontrou o budismo e, com ele, as respostas que tanto procurava.


Ao chegar à vida adulta, juntou o gosto pelos livros à afinidade com os animais e graduou-se em Medicina Veterinária e, logo depois cursou o mestrado em Patologia Ambiental e Experimental, uma especialização em clínica e cirurgia de animais silvestres e exóticos, além de um aprimoramento profissional em medicina aviária.


Percalços da vida de um deficiente


Nesse ponto da vida Maria Flávia já percorrera um bom caminho e tinha todos os motivos para comemorar, só que não. Os percalços como o bullying e a rejeição, vindo tanto de ambiente familiar, como em ambiente profissional, a atormentavam. “Afinal sempre fui a menina ou moça estranha fora dos padrões sociais de beleza que ouve mal e fala esquisito, sem mencionar a homossexualidade”, contou. A pessoa com deficiência, seja visual, auditiva, física ou mental, é alvo do julgamento e da discriminação. Segundo reportagem da revista Época[ii] 78% dos profissionais com deficiência já foram desacreditados por líderes e recrutadores. Trata-se de uma pesquisa inédita do InfoJobs, empresa de tecnologia para recrutamento.


“Quando você ouve mal, estar em conversação é um processo desgastante, o que piora muito quando se está em ambiente ruidoso e com muita gente falando ao mesmo tempo”, explicou. Segundo ela houve incontáveis situações em que não entendia algo e alguém da família lhe dizia rispidamente para “colocar os aparelhos, que não dá pra conversar assim” e ela já estava com os aparelhos. Ouviu ainda de uma veterinária que estava na função de ensino, que ela só escutava o que queria. “Por mais que fossem situações corriqueiras, eu nunca consegui relevar e seguir em frente, são feridas profundas”, desabafou.


Por sempre se sentir isolada, deslocada e rejeitada, acabou por ter de conviver com o transtorno depressivo-ansioso, com idas e vindas aos psiquiatras e psicólogos, melhoras e pioras. “Tive a boa sorte de encontrar uma companheira que me apoia e acolhe nas mais diversas situações da vida e que não desistiu de mim e continua acreditando em mim”. ressaltou.


Há mais de 10 anos formou-se em veterinária. Apaixonada por felinos, tem gatos em casa. Mas no mestrado voltou-se para aves marinhas e projetos de conservação ambiental. Quando ocorreu o desastre de Mariana, em 2015, pode atuar no resgate da fauna silvestre. Embora profissionalmente tivesse o reconhecimento de seus pares, pessoalmente se sentia insegura e a Depressão que desde a adolescência a acompanhava muitas vezes a deixava sem chão.


Encontro com o budismo


Foi numa dessas lacunas que encontrou o budismo. Voltou a trabalhar com clínicas de cães e gatos, atendendo em domicílio. Compreendeu que cada pessoa possui a chave de seu êxito dentro de si e que esta é ativada a partir da prática budista e do ato de doar-se à causa humanística do budismo. “No grupo Flora do qual faço parte, tenho a plena sensação de pertencimento. Aprendemos a cultivar, não somente o solo do Centro Cultural Campestre, mas a nós mesmas. Cada uma participa doando o melhor de si, mas o que recebemos é muitas vezes superior ao que oferecemos ao grupo”, enumera Flávia. Ela sempre teve problemas de comunicação devido a deficiência, disse que está aprendendo a lidar com as pessoas e que isso a auxilia em seu trabalho com o público. Quando atende aos animaizinhos de estimação em domicílio, as habilidades adquiridas nas atividades da BSGI, a auxiliam muito com os tutores humanos.


No doutorado que ora cursa, voltou-se novamente aos felinos, sua primeira e maior paixão. A área de estudo são as bactérias resistentes a antibióticos para gatos. O budismo a incentivou a se voltar ao dom de curar, ajudar e confortar os animais. “Compreendi que minha doença e minha deficiência, são motivos para praticar o Budismo. Assim como o mestre Daisaku Ikeda foi um jovem doente e veio ao Brasil trazer esse Ensino com o risco de sua vida, penso que eu tenho também que superar a mim mesma e me tornar a pessoa que nasci pra ser”, finalizou Maria Flávia.


 “Pequenas árvores balançam facilmente quando há um mínimo de vento, mas quando se transformam numa árvore frondosa, não se abalam mesmo diante da mais forte tempestade. As pessoas, da mesma forma, se possuírem uma força vital fraca, serão facilmente influenciadas até pela menor brisa de infortúnio. Enquanto permanecermos neste mundo saha[iii] repleto de problemas, não há como impedir os ventos de infortúnios. A única solução é se tornar forte. Devemos nos tornar “árvores frondosas”, inabaláveis mesmo diante dos mais poderosos ventos e das mais terríveis tempestades. Praticamos a fé de forma a conduzir nossa revolução humana para que possamos desfrutar uma vida assim e desenvolver uma força interior desse tipo”.


 


 






[i] O gongyo é uma cerimônia realizada duas vezes ao dia: manhã e noite. Consiste na recitação dos capítulos Hoben e Juryo (no idioma original com que foram escritos, o chinês antigo) do Sutra do Lótus. Trata-se do mais importante ensinamento de Shakyamuni, composto por 28 capítulos. Junto com a recitação do mantra Nam-Myoho-Renge-Kyo compõem a prática diária do budismo de Nichiren Daishonin, praticado e difundido pela Soka Gakkai em todo o mundo.




[ii] https://epocanegocios.globo.com/colunas/Futuro-do-trabalho/noticia/2021/09/78-dos-profissionais-com-deficiencia-ja-foram-desacreditados-por-lideres-e-recrutadores.html




[iii] Mundo saha [lê-se “sarra”] é este mundo em que vivemos caracterizado por egoísmo, ira, avareza, estupidez etc.


É também um mundo de injustiça no qual os valores são invertidos e os justos são perseguidos: “É uma terra habitada por pessoas de pouca capacidade, que não conseguem aceitar algo por seu verdadeiro valor. Ao contrário, no mundo saha as pessoas tendem a perseguir os justos”. (http://www.seikyopost.com.br/budismo/fugir-nao )


 



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